


 Amnsia
  Forgotten Honeymoon
  Marie Ferrarella
  Familia Fortune 11

Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!



   KRISTINA FORTUNE:  uma jovem bonita e milionria, mas h muito mais em Kristina que a sua atitude de menina rica. No entanto, no consegue demonstr-lo at sofrer
uma perda de memria.
   MAX COOPER: um duro e solitrio trabalhador que teve que traar o seu prprio caminho na vida. No gosta que a prepotente e caprichosa Kristina seja a sua nova
companheira de negcios. E quando um ataque de amnsia pe a jovem  sua merc, decide dar-lhe uma boa lio... Mas talvez seja ele que acabe por aprender alguma
coisa sobre o amor.
   JAKE FORTUNE: continua acusado de assassinato; ser que a justia o libertar de uma vez por todas, ou ter que passar o resto da vida preso?
   REBECCA FORTUNE: A escritora de romances de mistrio, dada a trabalhos de detective, est decidida a averiguar as pistas que demonstram a inocncia de Jake. Ter
xito na sua investigao ou ser j tarde demais?


   Dirio de Kate Fortune

   No suporto continuar em silncio. A minha famlia est a desmoronar-se e Jake precisa da minha ajuda. Acho que os estratagemas para destruir os Fortune foram
descobertos. Agora devemos manternos unidos perante os nossos inimigos. No  fcil ser rico e poderoso, estar sempre em primeiro plano.
   Todos querem alguma coisa de ti. Mas sei que juntos venceremos a adversidade. Sei que a justia prevalecer e a inocncia de Jake ser demonstrada. E depois,
poderemos voltar ao que realmente importa, ao amor e  famlia.


   ECOS DA SOCIEDADE Por
   Liz Jones

   Kate Fortune est viva! Foram muitos os amigos e familiares que choraram a morte desta maravilhosa mulher. Mas, aparentemente, a astuta matriarca dos Fortune
estava escondida. Sobreviveu ao acidente de avio, que afinal foi uma tentativa de assassinato, e permaneceu escondida desde ento, tentando descobrir quem estava
a destroar a sua famlia. Depois da morte de Mnica Malone e da acusao de assassinato que pende sobre Jake Fortune, Kate no podia continuar em silncio. Ento
voltou com a inteno de se converter no suporte da famlia e decidida a levantar de novo o seu imprio.
   Adiante, Kate!








   Captulo Um

   Kristina Fortune desligou o telefone. Os seus lbios formavam um sorriso agridoce, reflexo da ambivalncia dos seus sentimentos. Grant ia casar-se. Apesar do
muito que se alegrava pelo seu meio-irmo, no podia evitar pensar em si mesma com certa tristeza. Duvidava que ela pudesse encontrar o verdadeiro amor, sobretudo
porque, depois de David, no pensava voltar a baixar a guarda.
   Com um suspiro, aproximou-se da janela. A vista do dcimo quarto andar do Edifcio Fortune era praticamente inexistente naquele dia. A rdio tinha anunciado uma
percentagem de visibilidade perto de zero. E o trfego estava parado. Olhar pela janela era como assomar-se ao interior de uma nuvem. Uma densa neblina abraava
a cidade e enroscava os seus tentculos nos altos edifcios de Minneapolis.
   Kristina permanecia com o olhar fixo na neblina, a pensar.
   Estava nervosa. Tensa.
   Aquela sensao de inquietao, de insatisfao, tinha-a acompanhado desde a repentina morte da sua av.
   Ainda no podia acreditar.
   A morte era algo que acontecia a cada dia. Mas sempre a algum pertencente a outra famlia. E no era algo em que uma jovem de vinte e quatro anos quisesse pensar.
Na sua vida no havia lugar para ela.
   Mas tinha entrado sem se anunciar, levando uma pessoa que Kristina adorava.
   Kate tinha ficado muito contente por Grant.
   Kristina sorriu para si. Era estranho, sempre tinha assumido que Kate Fortune viveria para sempre, seria como o sol, como as mars. No havia nada na sua av
que evidenciasse a sua condio de mortal. Nunca estava doente e era capaz de trabalhar sem descanso. Mais que uma pessoa de carne e osso, parecia uma instituio.
   Mas sabia ser carinhosa e amvel quando alguma neta precisava dela, pensou Kristina com tristeza. Acariciou o relicrio de prata que levava ao pescoo, um corao
de prata pertencente  pulseira da sua av. Era o pendente que o seu av, j falecido, tinha dado a Kate no dia do nascimento de Kristina, continuando a tradio
de lhe dar um relicrio por cada nascimento.
   Enquanto acariciava o pendente, Kristina lembrou-se como Kate lhe tinha deixado chorar sobre o seu ombro quando tinha acabado com David, numa das poucas ocasies
em que a jovem se tinha permitido mostrar-se vulnervel. David tinha demonstrado estar mais interessado no sobrenome e no dinheiro dos Fortune que no amor de Kristina
e no final tinha decidido entroncar-se atravs do casamento com uma das dinastias polticas mais importantes do pas. Depois da ruptura do seu compromisso,  Kristina
tinha-se refugiado na casa da sua av. Tinham passado toda a noite sem dormir, a falar.
   Kristina pousou a mo no vidro da janela. L fora estava o Inverno, duro e sem misericrdia, como a vida, pensou Kristina.
   David e os polticos mereciam-se mutuamente, decidiu, endurecendo o gesto. Mas a sua av no merecia o que lhe tinha acontecido.
   Kate Fortune era uma mulher de uma beleza extraordinria apesar de estar quase na casa dos setenta. Mas ela no tinha envelhecido como os outros. Kate Fortune
parecia encarnar a essncia da vida.
   Por isso parecia impossvel que a vida a tivesse abandonado naquele acidente de avio. Era quase um insulto.
   Mesmo assim, se a sua av tivesse escolhido a forma de morrer, provavelmente teria optado por desaparecer no meio da misteriosa selva num acidente de avio.
   Kristina sentiu um n na garganta que anunciava lgrimas. Lgrimas que ainda no se tinha permitido libertar. Kate Fortune no queria prantos. Ela teria querido
que todos continuassem a trabalhar e a continuar com o legado pelo qual tanto tinha trabalhado. O sucesso dos Fortune devia-se tanto aos esforos de Kate como aos
de Ben. Talvez at mais aos de Kate, que tinha continuado a expanso da empresa depois da morte do seu marido.
   Kristina suspirou. Precisava de se afastar dali uns dias, pensou. Olhou para o documento que tinha em cima da escrivaninha, um documento que tinha estado a estudar
durante toda a manh. Talvez mais do que uns dias, disse para si.
   Pensou em Grant e em Meredith e no seu futuro casamento. E tambm na posterior lua-de-mel. E o seu olhar iluminou-se.
   Por que no?
   Com o entusiasmo que punha em tudo o quanto fazia, Kristina regressou  escrivaninha e comeou a tomar notas. A ideia que tinha concebido no dia anterior comeou
a cobrar forma a uma velocidade que teria surpreendido qualquer um que no a conhecesse.
   Porque os que a conheciam sabiam que Kristina jamais fazia nada devagar.
   Aos vinte e quatro anos, era reconhecida como uma perspicaz criativa e tinha-se convertido numa empregada muito importante para o departamento de publicidade
da companhia.
   Graas  sua herana, Kristina poderia ter dedicado a sua vida a no fazer nada produtivo. Mas isso no era prprio dela.
   Reviu a pasta que Sterling Foster, o advogado da famlia, lhe tinha enviado. O documento tinha quatro pginas no total. Mas a pasta tambm inclua um folheto
com fotografias de um hotel que a sua av tinha convertido anos antes num retiro sentimental. Cada palavra do folheto inspirava novas anotaes e esboos que conservaria
para analisar mais tarde.
   Quando acabou a leitura, deixou de lado o folheto e desviou o olhar para a carta que tinha sobre a escrivaninha. Sterling tinha-lha enviado juntamente com a escritura.
   Era to prprio de Kate, pensou Kristina. At depois de morta, Kate tinha atendido s necessidades de todos, deixando a cada membro da famlia no s dinheiro,
mas tambm algo mais significativo. No caso de Kristina, tinha sido a co-propriedade de um hotel situado no sul da Califrnia.
   At Sterling lho ter notificado, Kristina nem sequer sabia da sua existncia. Pelo que tinha podido averiguar at ento, Kate tinha sido durante mais de vinte
anos a silenciosa e discreta co-proprietria de um hotel.
   Sorriu com carinho. Custava-lhe muito a imaginar a sua av como uma scia silenciosa em qualquer coisa. Isso era algo que tinham em comum. Nenhuma delas era capaz
de guardar as suas opinies.
   "O silncio no se ouve", tinha-lhe dito a sua av numa ocasio. Com o tempo, Kristina tinha compreendido a profundidade que encerravam as palavras de Kate. Havia
que fazer-se ouvir para conseguir o que se queria. Se no se fizesse ouvir, ningum saberia o que tinha a oferecer.
   E ela tinha muitas coisas a oferecer, sobretudo a esse hotel to antiquado.
   Quase por costume, tinha solicitado aos seus contabilistas um relatrio sobre a situao econmica do hotel. Nessa mesma amanh, tinha-o encontrado em cima da
sua secretria.
   As contas no eram muito promissoras, mas a verdade era que j o esperava. Mas ainda havia uma grande possibilidade de as melhorar. Claro, como investimento,
aquele no tinha sido o mais inteligente por parte de Kate.
   Kristina decidiu que certamente Kate tinha conservado aquele lugar por alguma razo sentimental. Talvez at fosse o lugar no qual tinha mantido os seus primeiros
encontros com o av Ben.
   Aquela ideia agradou-lhe. Kristina desejava que a sua av tivesse desfrutado daquele tipo de felicidade.
   A mesma que estava a desfrutar Grant. E que a ela sempre parecia iludi-la.
   A jovem afastou esse pensamento antes que pudesse voltar a abrand-la e tentou animar-se. A sua carreira estava num momento florescente, mas precisava de novos
desafios. Algo que fosse s seu, no que pertencesse  dinastia Fortune. Olhou para os papis que tinha em cima da secretria. Aquele hotel estava a gritar por ajuda.
   E ela era a mulher que ia proporcionar-lha.
   Com um assentimento de cabea, reuniu os documentos que tinha em cima da secretria e guardou-os num envelope.
   - Obrigada, av - disse em voz alta. - Tu sempre soubeste o que me convinha.
   Frank Gibson, que tinha feito parte do departamento de publicidade da Fortune Industries durante os ltimos quinze anos, olhou para a jovem que lhe tinham impingido
h dois anos atrs no departamento e tentou digerir o que acabava de lhe dizer. Se no incio tinha aceite de m vontade a presena de Kristina, no tinha tardado
a descobrir a enorme capacidade da jovem para desempenhar um trabalho no qual era condenavelmente boa.
   E no lhe agradava ter que prescindir dela durante um longo perodo de tempo.
   Frank esfregou as mos contra a borda da secretria, um gesto inequvoco de que a notcia que acabava de receber estava a p-lo nervoso.
   - Queres o qu?!
   Kristina sabia que podia ir-se embora sem precisar de lho pedir. Na realidade, a nica opinio que podia ter algum valor era a do seu pai e este permitir-lhe-ia
fazer o que quisesse.
   Mas, legalmente, Frank era o chefe, de modo que, para evitar possveis susceptibilidades, Kristina fez-lhe o pedido a ele.
   - S quero uma licena.
   Estavam a ponto de lanar um novo perfume. Ainda havia milhares de detalhes para tratar. E aquele produto tinha sido um dos bebs mimados de Kristina.
   - Agora? - perguntou Frank. - A meio de uma campanha de publicidade?
   Kristina soltou uma gargalhada. No podia lembrar-se de um s dia em que Frank no se tivesse comportado como se tudo fosse uma questo de vida ou morte.
   - Frank, estamos sempre no meio de uma campanha. Tenho a certeza que poders controlar a situao perfeitamente. Deixei tudo organizado. Est tudo no meu computador,
num arquivo.
   Frank franziu o sobrolho. Apesar de finalmente ter conseguido manejar o teclado do computador como se de uma mquina de escrever se tratasse, os programas informticos
estavam ainda fora do seu alcance. Pedir-lhe que manejasse um computador era como pedir-lhe que pilotasse uma nave espacial.
   - J sabes que odeio os computadores. Essa  a razo pela qual preciso de ti.
   Kristina soltou uma gargalhada e inclinou-se para a frente.
   - Precisas de mim por muitas mais razes, Frank.
   Na realidade, Frank costumava ceder a Kristina a direco da maioria das campanhas.
   - Muito bem, de acordo, diz-me tudo o que queres, mas no te vs embora.
   -  s uma licena, Frank. Isso no significa que me v embora para sempre. Quero estar fora dois meses - pensou ento nas fotografias que tinha visto do hotel.
- Dois e meio, no mximo.
   Frank sabia que era intil discutir com ela. Kristina  acabaria por fazer o que quisesse. Era uma Fortune e podia dar-se a esse luxo.
   - E a que pensas dedicar esses dois meses?
   - A algo novo - no podia express-lo com palavras, mas sentia que algo a chamava, que algo lhe dizia que estava a tomar a deciso certa. - A minha av deixou-me
como herana a sua parte num hotel da Califrnia.
   - Califrnia? - repetiu Frank, horrorizado. Mas se na Califrnia h tremores de terra!
   Kristina desatou a rir ao ver a sua expresso. Frank era uma dessas pessoas incapazes de fazer qualquer mudana na sua vida, e parecia querer transmitir aquele
sentimento a toda a gente.
   - E aqui h neblina e tornados.
   Frank soltou um sopro de gozo. Por nada do mundo ele viajaria para a Califrnia. Nem sequer por motivos de trabalho.
   - Mas a neblina no pode matar-te.
   Kristina voltou-se para a janela. A espessa textura da neblina no tinha mudado durante toda a manh.
   - No, mas pode deprimir-te at  morte - sabia que no tinha que lhe dar explicaes, mas queria que a compreendesse. - No sei, Frank, s sinto que quero comear
algo por mim mesma, algo que no tenha o selo dos Fortune por toda a parte.
   - Quando lhe puseres o teu selo, tambm ser o dos Fortune - apontou Frank.
   Kristina voltou-se para ele com um enorme sorriso, satisfeita que a tivesse entendido.
   - Exactamente, mas ser o meu prprio selo.
   - E j tens tudo decidido? - era uma pergunta retrica. Na realidade, conhecia de antemo a resposta.
   - Quando  que me viste vacilar?
   Nunca. Kristina era a mulher com mais confiana em si mesma que tinha conhecido, depois da sua av,  claro. Frank suspirou.
   - De acordo - inclinou a cabea antes de fazer a ltima tentativa. - E suponho que no posso fazer nada para te fazer mudar de opinio.
   Kristina abanou a cabea lentamente, com um brilho de diverso no olhar. Frank estendeu as mos, num gesto de impotncia.
   - Ento no posso fazer nada, excepto dar-te permisso - franziu o sobrolho e suspirou com resignao. - Alguma vez um homem te disse que no a alguma coisa?
   Kristina sorriu de orelha a orelha.
   - Ainda no.
   At no caso de David, tinha sido ela quem tinha dito que no. Embora s depois de ter descoberto que pelo que ele realmente estava apaixonado era pelo dinheiro
dos Fortune.
   - E acho que no vai acontecer em breve. Frank no tinha nenhum motivo para no estar de acordo com ela.
   - Quando isso acontecer, faz-me saber. Kristina fez-lhe uma festa na cara com carinho,
   com a camaradagem que tinha nascido entre eles durante aqueles dois anos de trabalho.
   - Sers o primeiro a sab-lo, prometo-te. Tinha comeado a ir-se embora, quando Frank disse atrs dela:
   - A srio, que pensas fazer em...? - interrompeu-se, como se estivesse  espera que Kristina lhe desse o nome da cidade para a qual ia.
   - La Jolla - esclareceu-lhe ela.
   - La Jolla - repetiu Frank com incredulidade. Que tipo de nome era esse para uma cidade? No acho que encaixes num lugar como esse - insistiu.
   - Com todos aqueles animais raros obcecados pelo surf a toda  volta. Em menos de uma semana, ter-te-o posto maluca.
   Falava como um homem que nunca tinha sado de Minneapolis.
   - Receio que toda a informao que tens sobre a Califrnia tenha sido tirada dos piores filmes dos anos setenta, Frank.
   Sabia que, ao seu modo, Frank estava preocupado com ela e isso no podia seno comov-la.
   - Quero converter esse hotel que herdei da minha av num lugar do qual ela se sentisse orgulhosa.
   - Acho que se Kate tivesse querido mudar esse lugar, o teria feito ela mesma.
   Talvez. E talvez houvesse alguma razo pela qual ela no o fez.
   - No necessariamente. Estava sempre muito ocupada.
   - E tu no?
   Tinha chegado a hora de se ir embora. Se deixasse, Frank poderia continuar assim toda a tarde. E ela tinha que fazer as malas.
   - Podes fazer tudo sozinho, Frank.
   Frank levantou-se da sua secretria, elevando ao mesmo tempo a voz.
   - Como poderei pr-me em contacto contigo?
   - No poders. Telefonar-te-ei.
   "Quando me apetecer", acrescentou para si.
   Como era costume nela, tinha deixado tudo perfeitamente ordenado. Frank tinha todas as suas notas sobre a nova campanha, e embora a prpria Kristina soubesse
por experincia prpria que ela era o nico sangue novo que corria pelas veias daquele aborrecido departamento, tambm sabia que no havia nada de que no pudesse
ocupar-se qualquer outro membro da equipa.
   Kristina arrumou todos os seus pensamentos sobre o departamento e a campanha pendente no canto mais afastado da sua mente e dirigiu a ateno para o seu futuro.
   Um futuro que talvez fosse o princpio de algo grande.

   - Eh, Max! - gritou Paul Henning por cima do rudo da grua. -  para ti!
   Levantou o telemvel, no caso de Max no ter ouvido o que estava a dizer-lhe.
   Max Cooper voltou-se para a casinha. Pensava ter ouvido o seu nome. E o resto dos operrios estava muito longe para que algum deles pudesse t-lo chamado. Ento
viu o seu amigo a baloiar o auscultador.
   Com um suspiro, tirou o capacete e passou a mo pelos seus caracis escuros. Esperava que no fosse outra chamada para comunicar um atraso. A construo do novo
complexo de moradias j estava aqum dos prazos previstos e a ltima coisa que queria era ver-se obrigado a pagar uma indemnizao por entregar o projecto fora de
prazo.
   Cada vez que o telefone tocava, fazia mentalmente uma careta, antecipando outro desastre.
   Voltou a pr o capacete e fez um gesto a Paul. Este regressou  casinha na qual tinham instalado o seu modesto escritrio e Max seguiu-o. O espao era to reduzido
que Paul teve que se encostar  parede para que Max pudesse aproximar-se do telefone.
   - Construmos armrios maiores que isto murmurou, sustendo o telefone ainda no alto.
   Max apontou para o auscultador.
   - Quem ? - perguntou, movimentando apenas os lbios.
   Paul sabia perfeitamente quem era, mas queria enervar Max mais um minuto.
   - Ela disse que  algo pessoal - murmurou. Naquele momento da sua vida, estava rodeado de assuntos pessoais, pensou Max enquanto agarrava no telefone. Rita e
ele tinham chegado a um acordo mtuo de separao. Bom, na verdade, a palavra "acordo" talvez no fosse a mais adequada para definir a sua ruptura. Rita tinha-lhe
gritado algo sobre o seu medo doentio ao compromisso. Sim, aquelas eram as palavras com as quais tinham posto fim a uma agradvel embora breve relao.
   Max levou o auscultador  orelha, perguntando-se se Rita teria decidido dar-lhe outra oportunidade. Esperava que no. Depois de Alexis, ele preferia as relaes
curtas e predominantemente doces. Embora a primeira coisa fosse condio quase imprescindvel para a segunda.
   - Estou?
   - Max? Sou June - responderam-lhe do outro lado da linha. A normalmente complacente June parecia nervosa e insegura. - Odeio ter de te chatear, mas acho que devias
vir. Tens que ver isto.
   June Cunningham era a sexagenria e eficiente recepcionista da Gota de Orvalho, um pequeno hotel do qual Max era co-proprietrio. Ele teria vendido a sua parte
do negcio h muito tempo, se com isso no ferisse os sentimentos dos seus pais adoptivos. John e Sylvia Murphy eram os nicos pais que tinha conhecido. Aquele casal
tinha acolhido em sua casa um descarado e assustado adolescente de treze anos e tinham-no convertido num homem. E sabia que lhes devia muito mais do que alguma vez
poderia devolver-lhes.
   De modo que se eles queriam que fosse proprietrio de metade do hotel, no podia rejeitar aquele presente. Assim, tinha deixado tudo relativamente  direco
do negcio nas mos de June e passava por l todas as sextas-feiras  tarde para se inteirar do andamento do negcio. Mas naquele momento, enterrado at ao pescoo
como estava naquele projecto de moradias, o hotel era a ltima coisa em que podia pensar. No podia imaginar o que podia ter impulsionado a imperturbvel June a
telefonar-lhe para o trabalho e pedir-lhe que fosse ao hotel. Que raios se teria passado?
   - Isto? - repetiu. - A que te referes exactamente com "isto"?
   -  menina Fortune.
   Max demorou quase um minuto a reagir.
   - A Kate? Mas Kate est morta. Morreu h quase dois anos.
   Lembrava-se de ter lido um artigo no jornal no qual diziam que o avio que Kate Fortune pilotava se tinha despenhado em alguma parte da Amrica do Sul. Sterling
Foster, o advogado de Kate, tinha-lhe enviado uma carta a explicar-lhe que a autenticao do testamento levaria algum tempo, de modo que podia continuar a dirigir
o hotel como sempre. Mas, aparentemente, tinham aparecido algumas mudanas.
   - No, Kate no - corrigiu-o June rapidamente, -  a sua herdeira, Kristina Fortune.
   Aquilo sim, era uma surpresa para ele, embora tivesse que admitir que se tinha relaxado muito em tudo o relacionado com o hotel. Quando soube da morte de Kate,
no lhe tinha ocorrido pensar que qualquer pessoa que o herdasse poderia querer ir v-lo.
   - Est a?
   - Sim, est aqui - ouviu June suspirar. - E quer ver-te imediatamente.
   - Imediatamente? - Aquela no era uma palavra comum no vocabulrio de June, que costumava encarar tudo com muita tranquilidade. - Imediatamente? - repetiu.
   June baixou ento a voz, como se temesse que pudessem ouvi-la.
   - Foi o que ela disse, no eu. Mas acho que devias vir, Max. Ouvi-a murmurar algo sobre ser preciso deitar abaixo umas quantas paredes.
   Aquilo conseguiu chamar a sua ateno. Quem pensava ela que era? Ele no apreciava particularmente aquele hotel, mas tambm no queria demoli-lo. Era parte da
sua infncia. A melhor parte, de facto, sem contar com John e Sylvia.
   Tapou o auscultador com a mo e voltou-se para Paul:
   - Importavas-te que te deixasse sozinho umas horas?
   -  claro que no. Estava agora mesmo a perguntar-me como poderia desfazer-me de ti. Adoro fazer de chefe, rapaz.
   Max afastou a mo do auscultador.
   - Mal possa, irei para a, june - e desligou.
   - Que se passou? - perguntou-lhe Paul com curiosidade.
   Ele no precisava de algo assim, disse Max para si. Ele gostava de coisas simples e provavelmente aquele era o pior momento possvel para ter problemas.
   - Aparentemente, a nova co-proprietria do hotel tem algumas ideias um pouco estranhas sobre o que convm fazer nele.
   Paul serviu-se de uma caneca de caf.
   - A nova co-proprietria?
   - Sim. Kate Fortune tinha, tal como os meus pais, metade da propriedade do hotel. Morreu num acidente de avio h um par de anos. E June acaba de me telefonar
para me dizer que chegou a sua herdeira e que v para l imediatamente.
   - Isso no parece prprio da June. Max tirou o capacete e vestiu o casaco.
   - Estava a citar a Kristina Fortune.


   CaptuloDois

   Tinha possibilidades.
   Aps sair do txi que a tinha levado at ali desde o aeroporto, Kristina caminhou lentamente para o hotel. No tinha nenhum estilo definido. As fotografias que
apareciam no folheto mostravam a sua melhor cara. Mesmo assim, era um edifcio rstico e,  sua maneira, com um certo encanto. Mas tinha aspecto de abandono.
   No entanto, fazendo um slido esforo e contratando um bom empreiteiro, capaz de compreender o que tinha em mente, aquele hotel poderia ser transformado num lugar
muito rentvel.
   Seria o primeiro de muitos outros hotis.
   Kristina comeou a desenvolver aquela ideia assim que lhe ocorreu. A sua mente corria a toda a velocidade, a fazer planos e a comear a construir a casa pelo
telhado quando ainda no tinha um terreno estvel no qual edificar.
   Mas ia consegui-lo, tinha pensado com um sorriso enquanto subia as escadas do alpendre.
   Sim, gostava da ideia. Por que conformar-se com um s estabelecimento? Por que no uma cadeia? Uma cadeia que oferecesse lugares romnticos para todos. Se conseguisse
tornar aquele hotel rentvel, poderia continuar a comprar pequenos hotis como aquele em todo o pas e transform-los em lugares ideais para uma lua-de-mel.
   O seu humor transformou-se bruscamente ao tropear. O salto do sapato tinha ficado preso numa das pedras da calada. Kristina franziu o sobrolho enquanto libertava
o salto. Algum devia encarregar-se de arranjar o cho.
   Arranjar era a palavra-chave, voltou a dizer-se enquanto regressava  recepo depois de ter examinado o resto do hotel. A mulher que se tinha apresentado como
June tinha permanecido a seu lado praticamente todo o tempo, tentando enfatizar os encantos do lugar. Aparentemente, naquele hotel, a palavra negligncia era sinnimo
de encanto.
   Kristina pousou os olhos na enorme lareira de tijolo. Naquele momento, estava apagada, mas podia imagin-la perfeitamente com um fogo a arder no seu interior.
   - Lareiras.
   - Perdo? - perguntou-lhe June, vacilante. Kristina voltou-se ento para ela.
   - Lareiras - repetiu. - Todos os quartos tero lareira. Vou converter este hotel num lugar no qual os recm-casados possam passar os primeiros e mais romnticos
dias da sua vida em comum.
   Ignorou o olhar de dvida da sua interlocutora, tomou nota mentalmente daquela ideia e continuou a examinar o quarto com o olhar.
   Ento, June apontou algo evidente.
   - Mas nos quartos no h espao suficiente para construir lareiras.
   - Haver, quando derrubarmos algumas paredes - respondeu Kristina, e olhou para a mulher que estava atrs da recepo.
   Antes de viajar, tinha pedido a uma das suas ajudantes informao sobre o pessoal do hotel. Sabia, portanto, que June trabalhava h vinte anos naquele lugar.
E parecia muito cmoda no seu posto. Demasiado cmoda. Pelo que tinha manifestado at ento, certamente que June resistiria  mudana, e isso significava que teria
que se ir embora. Seria prefervel ter pessoas jovens e enrgicas a trabalhar no hotel. Jovens, como a ideia do amor eterno.
   O sucesso que comeava a vislumbrar conseguiu emocion-la.
   - Preciso de uma lista telefnica - disse de repente.
   June j tinha comeado a recear tudo aquilo. Kristina Fortune tinha anunciado a sua presena com a subtileza de um furaco. E cada uma das perguntas que tinha
feito at ento indicava que o hotel corria um srio perigo de desaparecer, tijolo a tijolo, empregado aps empregado. June gostava do seu trabalho, e tambm das
pessoas que trabalhavam com ela, pessoas que tinham chegado a ser como uma enorme famlia, como Max, por exemplo.
   Perguntou-se o que estaria a ret-lo. Fazia mais de uma hora que o tinha chamado.
   Kristina notou que June lhe dirigia um olhar demorado e penetrante antes de se agachar atrs do balco da recepo para tirar a lista telefnica. Isso reafirmou
a sua inteno de a substituir. June era mais lenta que uma tartaruga no Inverno.
   No era estranho que aquele lugar estivesse a ponto de cair. Todos se movimentavam lentamente. O jardineiro com o qual se tinha cruzado ao chegar parecia ter
estado a dormir contra um zimbro.
   E embora supusesse que devia haver camareiras que atendessem os dezasseis quartos, Kristina ainda no tinha visto nenhuma.
   June colocou as pginas amarelas na prateleira.
   - Quer chamar um txi? - perguntou, esperanada.
   A Kristina no lhe passou despercebido o seu tom. "Nem em sonhos", pensou. No seria a primeira vez que caa mal a uma empregada. Se pretendesse fazer-se amiga
de todos, a sim, teria motivos para se preocupar. Tinha aprendido h muito tempo que a maioria das pessoas invejava a sua posio. Por isso, ignorava as opinies
que to abertamente reflectiam nos seus rostos e fazia o que tinha a fazer.
   Franziu o sobrolho enquanto passava as pginas da lista telefnica  procura da seco indicada, mas no havia muitas empresas entre as quais escolher.
   - No, estou  procura de um empreiteiro - dirigiu a June um olhar frio. - Este lugar precisa de uma reabilitao.
   - Antnio  o nosso pedreiro. E trabalha tambm como empregado de mesa.
   Indubitavelmente, aquilo explicava o estado no qual o hotel se encontrava.
   - Far falta algo mais que um pedreiro para arranjar este lugar.
   June pensou ento em dizer-lhe que Max era empreiteiro, mas no final optou por no o fazer. Max poderia dizer-lho pessoalmente quando chegasse.
   Kristina olhou  sua volta, mas no viu o telefone em lugar nenhum.
   - Onde est o telefone?
   A impacincia devorava-a enquanto marcava com uma caneta um dos anncios da lista. A empresa Jessup & Filho prometia qualidade e rapidez no trabalho. Era um anncio
to bom como qualquer outro para comear.
   Mas o telefone no chegou suficientemente depressa. Kristina fez um gesto de desdm. Se aquela era uma amostra da eficcia do servio, no estranhava que no
houvesse ningum hospedado no hotel.
   - No importa, utilizarei o meu.
   Kristina abriu um dos compartimentos da mala, tirou um telemvel e marcou o nmero do anncio. Ao ouvir um suspiro de evidente alvio, levantou o olhar para June,
que viu sair a correr para a porta da entrada.
   Com o telefone na mo, Kristina voltou-se e descobriu a pessoa que tinha conseguido imprimir aos movimentos de June tal velocidade.
   - O homem est de volta ao lar - murmurou. June, por sua vez, agarrou Max pelo brao e empurrou-o.
   - Max, est a telefonar para um empreiteiro. Faz alguma coisa.
   Ao ver que aquele era o outro proprietrio do hotel, Kristina desligou o telefone. A chamada poderia esperar.
   Deslizou o olhar sobre o recm-chegado lentamente, medindo-o da cabea aos ps. E era muito o que tinha que medir. Max Cooper era um homem consideravelmente alto,
parecia um cowboy que acabava de regressar de um rodeio. Levava umas calas de ganga que pareciam fazer parte do seu guarda-roupa desde que estava na escola e aderiam
ao seu corpo com a familiaridade reservada aos amantes.
   At quela distncia, Kristina viu que tinha os olhos de uma cor azul intensa. Aquele tom de azul que sempre tinha imaginado prprio de um Deus grego.
   Pelo que podia distinguir, o cabelo que aparecia por baixo do chapu  cowboy era castanho-escuro e encaracolado.
   Sim, o aspecto daquele homem poderia ter impressionado muitas das suas amigas, mas no ela.
   A ela, o que realmente a impressionava era a capacidade para os negcios, e aquele homem parecia no ter nenhuma.
   De modo que aquele era o redemoinho pelo qual June o tinha chamado, pensou Max. Tinha conhecido Kate Fortune anos atrs, quando tinha ido assinar uns documentos
com os seus pais. Lembrava-se dela sentada no terrao, com o sol directamente nas suas costas. Mesmo sendo um adolescente, reconheceu a sua elegncia e a sua classe.
   Mas o que tinha naquele momento frente a ele era uma menina mimada. Uma menina bela, com um rosto lindo e umas pernas magnficas, mas uma menina mimada.
   E no tinha nada que fazer ali.
   Soube desde o primeiro momento que tinha interpretado correctamente a sua expresso. Kristina Fortune parecia decidida a alcanar o seu objectivo, sem se importar
com quem levasse  frente no processo. Pois bem, metade daquele lugar era seu e ele pretendia que as coisas continuassem como estavam.
   Consciente da importncia de se dar bem com o inimigo, June, ainda agarrada ao brao de Max, deu um passo para Kristina.
   - Max, esta  a co-proprietria - Kristina viu que a recepcionista enfatizava a slaba "co". - Kristina...
   Sem esperar ser apresentada, Kristina mudou o telemvel de mo e deu um passo  frente, estendendo a mo a Max.
   - Kristina Fortune, sou uma das netas de Kate. E enquanto o dizia, ocorreu-lhe que deveria colocar um retrato da sua av sobre a lareira.
   Sim, isso daria o toque ideal quele lugar. Alm disso, j sabia que retrato utilizaria: um que tinham feito para Kate pelo seu aniversrio de trinta anos. A
sua av ainda conservava nele o rubor da juventude. Levava o cabelo puxado para trs e um vestido de noite verde menta...
   - Fico contente de a conhecer - respondeu Max, mas no obteve resposta.
   Quando deixou cair a mo, Kristina olhou-o com estranheza.
   Max teve ento a sensao que aquela mulher s estava parcialmente ali. O que era indiscutivelmente melhor para ele. Porque se fosse por Max, no estaria ali
em absoluto. June e os outros estavam a fazer um trabalho estupendo para manter aquele velho hotel e ele acreditava firmemente no ditado que dizia que o que no
estava partido, no tinha por que ser arranjado.
   - Parece como se estivesse a quilmetros de distncia.
   Kristina aclarou a garganta, envergonhada.
   - Sinto muito. S estava a pensar em algo que me agradaria pendurar em cima da lareira.
   Naquele momento, havia uma tapearia colorida sobre a lareira. A me adoptiva de Max tinha passado horas e horas a tingi-la. Max lembrava-se de a observar enquanto
o fazia. A sua me tinha sangue cherokee nas veias e aquela tapearia representava uma histria que tinha sido contada a Sylvia Murphy pela sua av materna.
   Max olhou para Kristina com os olhos semicerrados.
   - Que tem de mal a tapearia?
   Era natural que tentasse desafi-la. Kristina j tinha suposto que resistiria  mudana. As pessoas sem imaginao fazem sempre isso.
   - Essa tapearia no se enquadra com o motivo do hotel.
   Mas de que raio estava a falar?
   - Motivo? Que motivo?
   - O motivo que me ocorreu para este lugar. Vamos converter o nosso estabelecimento num recanto no qual os recm-casados passem a lua-de-mel - observou a expresso
de Max, tentando adivinhar se gostava da ideia.
   No gostava.
   Kristina interrompeu-se e soprou. J que Max era o outro proprietrio, supunha que seria melhor que tentasse explicar-lhe, por muito que odiasse ter de dar explicaes.
   - Acho que estou a adiantar-me um pouco.
   - Eu diria que est a adiantar-se muito. O que  que lhe faz pensar que necessitamos de um "motivo"
   para este lugar?
   Pronunciou cada uma das palavras como se tivesse um sabor amargo na boca.
   - Bom,  evidente que necessita de algumas mudanas.
   Max no achou graa nenhuma ao tom condescendente da sua voz.
   - O hotel est perfeito.
   - Perfeito - repetiu Kristina suavemente, e olhou-o como se acabasse de descobrir que era um atrasado mental. Max estava furioso. - Devo supor que no se incomoda
que eu tenha visto os livros de contabilidade.
   -  June quem se encarrega da contabilidade apontou para a recepcionista, que permanecia refugiada atrs do balco. - E obviamente, eu vejo-os de vez em quando.
   - No com ateno suficiente.
   Max j estava farto. Tinha trabalho a fazer; no podia perder tempo com o hotel. O hotel podia continuar a funcionar como at ento, sem que aquela mulher tivesse
que interferir em nada...
   - Que raios lhe d o direito de entrar aqui com toda a frescura do mundo e...?
   Kristina tinha que o interromper antes que rebentasse e fizesse perder tempo aos dois.
   - Eu no entrei aqui com toda a frescura do mundo - corrigiu-o com dureza. - De facto, quase parti o pescoo por causa de uma das pedras da entrada.
   - Que pena.
   Kristina teve a sensao que o que lamentava era que no tivesse partido o pescoo. Mas decidiu ignor-lo.
   - E estive uma hora a examinar o estado do hotel.
   Uma hora tinha-lhe bastado para julgar o trabalho que os seus pais tinham levado toda uma vida a fazer.
   - Suponho que isso a converte numa perita.
   - No, j o era antes de chegar.
   - Em hotis, suponho.
   Kristina decidiu ignorar o seu bvio sarcasmo.
   - Em obter benefcios e em vender produtos. Max demorou tempo a responder, sabendo instintivamente que ia irrit-la.
   - E o que  que vende exactamente?
   Kristina poderia t-lo esbofeteado nesse momento pelo que estava a insinuar, mas isso no os teria levado a parte nenhuma. Ao fim e ao cabo, ela tinha ido ali
para trabalhar.
   - Sou publicitria, e responsvel pela campanha do Pecado Oculto, por exemplo.
   Max estava vagamente consciente de que se referia a um perfume. O ltimo nmero de uma revista que assinava tinha chegado a cheirar a essa autntica glria, porque
uma das suas pginas tinha sido impregnada com esse perfume.
   - Parabns, mas no sei do que est a falar.
   Se pensava que ia conseguir irrit-la, estava enganado.
   - No duvido. Ainda no encontrmos forma de fazer chegar a nossa publicidade a pessoas que passam a vida a dormir.
   - Est a insinuar que sou preguioso? Kristina cruzou os braos.
   - O hotel est destroado, os livros de contabilidade so um desastre. Est em nmeros vermelhos...
   Max interrompeu-a num instante.
   - Estamos na poca baixa - pelo canto do olho, viu que June abanava a cabea com um gesto de desaprovao.
   Mas que supunha que tinha que fazer? Seguir aquela louca?
   - No sul da Califrnia no deveria haver poca baixa.
   Max olhou para ela, completamente desconcertado pelo seu raciocnio.
   - Isso  algo que acaba de lhe ocorrer? Kristina suspirou. Estava a tentar controlar a sua impacincia, mas no estava a ser nada fcil.
   - Se vai questionar tudo o que digo, no vamos chegar a parte nenhuma, Cooper.
   - E o que lhe faz pensar que quero chegar a alguma parte consigo, menina Fortune? Eu gosto do hotel tal como est.
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   - No  suficiente. Eu sou co-proprietria deste hotel.
   Max compreendeu perfeitamente as suas intenes.
   - Mas  impossvel que faa alguma coisa sem contar com a minha aprovao.
   "Impossvel" era uma palavra que no fazia parte do vocabulrio de Kristina.
   - Posso comprar a sua parte do hotel.
   Que ironia. Eram muitas as vezes que Max tinha desejado vender a sua parte do hotel para poder entregar-se unicamente ao seu negcio. Acabava de lhe aparecer
a oportunidade perfeita para o fazer e, no entanto, no ia aproveit-la.
   No, no ia vender-lhe a sua parte, porque isso significaria abandonar pessoas que conhecia h muito, muito tempo. Estava convencido que dez minutos depois de
assinar a escritura, Kristina despediria todos os empregados para os substituir por clones de plstico.
   E por nada no mundo permitiria que aquela mulher despedisse pessoas que conhecia e queria h anos.
   - No, no pode, se eu no quiser vend-la.
   Aquele homem no queria ser razovel. Era evidente que no tinha nenhum interesse no hotel. Se tivesse, no teria deixado que se deteriorasse at a esse ponto.
   - No o compreendo. Por que quer desperdiar este lugar?
   Da parte traseira do hotel desfrutava-se de uma magnfica vista do mar. Muita gente pagaria para ter a oportunidade de acordar frente ao mar. E no entanto, naquele
momento o hotel estava vazio.
   Pessoas como Kristina Fortune s tinham uma viso das coisas: a sua prpria viso. Max tinha experincia
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   suficiente com pessoas desse tipo. Alexis tinha sido uma grande professora.
   - Que lhe faz pensar que quero desperdiar este lugar?
   Oh, Deus! Aquele homem era idiota. Atraente, mas idiota. Kristina voltou a fixar-se nele, apreciando as duras linhas do seu rosto e a sensualidade das suas pestanas.
A estrutura do seu rosto lembrava a dos ndios que noutros tempos tinham habitado aquelas terras. Provavelmente, Max Cooper estava acostumado a conseguir o que queria
graas ao seu aspecto. Mas isso no ia servir-lhe com ela.
   - Qualquer um com dois dedos de testa saberia que... - comeou a dizer, irritada.
   June saiu naquele momento de trs do balco, decidida a interpor-se entre os dois. Aquela discusso no ia lev-los a lado nenhum. Ambos necessitavam de se acalmar
e comear de novo. A ltima coisa que lhe importava era o que Kristina quisesse ou deixasse de querer, mas Max e o hotel importavam-lhe.
   - Menina Fortune, que lhe parece se pedir a Sidney que a acompanhe ao seu quarto? - sugeriu alegremente, como se Kristina acabasse de chegar. Suponho que estar
cansada depois de ter viajado at aqui desde... - interrompeu-se e arqueou as sobrancelhas, hesitante.
   - Minneapolis - respondeu Kristina, sem afastar o olhar de Max.
   June assentiu, como se tivesse o nome da cidade na ponta da lngua.
   - Aps cinco horas de voo, tem que estar muito cansada. Sidney! - levantou a voz enquanto se dirigia para a parte traseira do hotel.
   Kristina no estava cansada, mas apreciava o valor de uma retirada a tempo. Gritar com aquele cabea-oca
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   no ia servir-lhe de nada e precisava de tempo para se refrescar.
   E para dominar o seu mau gnio. Kristina raramente perdia a pacincia, mas aquele homem parecia ter a capacidade de a tirar do srio.
   - De acordo - respondeu. - Assim poderei desfazer a bagagem. Depois voltaremos a comear. Tenho um monto de notas e esboos que gostaria de lhe mostrar.
   - Estou desejoso de os ver - murmurou Max sem vontade.
   Kristina reprimiu a resposta. Aquilo ia ser mais difcil do que pensava. Mas no impossvel. Nada o era quando se estava suficientemente decidida a lev-lo a
cabo. E ela estava.
   Nesse momento apareceu Sidney, mexendo-se com aquela lentido que Kristina estava a comear a considerar prpria do lugar.
   June viu a expresso de curiosidade com a qual Sidney olhou para Kristina.
   - Sidney, esta  a neta de Kate Fortune, chama-se Kristina. Esta  Sidney Burnham, a mais nova do grupo.
   Durante os ltimos quatro anos, Sidney tinha trabalhado no hotel durante os Veres, e quando se formou na universidade, passou a fazer parte da equipa fixa do
mesmo, preferindo a vida tranquila em La Jolla  frentica vida de uma corretora da Bolsa.
   Sidney olhou  sua volta e fixou-se nas duas malas que havia ao lado do balco da recepo. Agarrou numa em cada mo e olhou para a nova hspede.
   - Prazer em conhecer-te, Kristina.
   A Kristina pareceu-lhe um cumprimento excessivamente informal. Tinha que existir uma certa distncia
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   entre o chefe e os empregados para que as coisas funcionassem correctamente.
   - Menina Fortune - corrigiu-a.
   Max levantou o olhar ao cu enquanto se voltava para Kristina. E June esperou que as duas mulheres desaparecessem escadas acima antes de se virar para Max.
   - Pensei que devia dar-te um pouco de tempo.
   - Tenho a sensao que com esta mulher nem um sculo chegaria.  uma menina mimada e egosta.
   - Essas so as suas qualidades. Mas tenho a certeza que encontrars uma forma de solucionar tudo isto, Max.
   - Temo que eu no seja como o meu pai, June. June sempre gostou da modstia de Max.
   - No, mas ele educou-te muito bem. De certeza que encontrars uma maneira de te entenderes bem com ela e faz-la esquecer-se dos seus planos.
   - s vezes acho que me concedes muitos mritos.
   - E eu s vezes acho que no te valorizas tanto como devias - June olhou, estremecida, para as escadas. - Tens que fazer alguma coisa, Max. Porque tenho a sensao
que quer deixar-nos sem trabalho.
   - Eu tambm, June, eu tambm.
   Tinha que haver alguma maneira de trazer Kristina  razo. A pergunta do dia era: qual?
   Trs

   Kristina aconchegou-se na cama, com o telefone entre o ombro e a orelha. Tinha telefonado  sua tia enquanto subia para o quarto. E, como sempre, a voz de Rebecca
fizera-a sentir-se melhor.
   - A srio, Rebecca, no podes acreditar quo maravilhoso este lugar .
   Rebecca Fortune era a sua tia favorita e mais do que como uma tia, via-a como uma irm mais velha.
   - Est cheio de possibilidades, embora agora mesmo tenha um aspecto um tanto antiquado.
   - Com uma cabea de veado em cima da lareira?
   - Bom, no  para tanto, mas quase.
   - Soa maravilhosamente bem.
   Kristina podia imaginar perfeitamente a imagem que a sua tia estava a fazer do hotel.
   Provavelmente imaginava-o como um lugar isolado e quase em runas. E embora o hotel estivesse em mau estado, to-pouco parecia que fosse desmoronar-se.
   - Dizes isso porque pensas como uma escritora
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   de romances misteriosos, e no como uma possvel hspede.
   - Sinto muito, querida,  a fora do hbito. Fez-se um momento de silncio. Kristina pde notar como mudava o tom de voz da sua tia enquanto Rebecca continuava
a dizer:
   - Suponho que por culpa da minha condio de escritora de romances de mistrio, sou incapaz de aceitar a morte da minha me - suspirou.
   - Rebecca... - comeou a dizer Kristina com imenso carinho.
   - Eu sei, eu sei. Vais dizer-me que tenho que aceitar a situao, mas no posso. Preciso de alguma prova, Kristina. Algo com o qual fechar o ltimo captulo.
Agora mesmo tenho a sensao de que isto  uma espcie de final no qual cada captulo termina com a palavra "continua".
   Kristina sabia que no tinha sentido discutir com Rebecca;  sua maneira, era to teimosa como Kate tinha sido. Aquela era uma caracterstica que tinha em comum
com elas.
   - O detective que contrataste descobriu alguma coisa?
   - Gabriel Devereaux est a fazer tudo o que pode, mas no  suficiente. Alm disso, no final viu-se envolvido em muitas outras investigaes e est  procura
de provas para provar a inocncia de Jake. Sei que ele no matou a Mnica Malone e em breve prov-lo-emos. Assim que isto acabar, voltaremos a ocupar-nos da morte
de Kate. Ainda no me dei por vencida - Rebecca mudou rapidamente de assunto, sinal inequvoco de que no queria continuar a falar nem de Gabriel nem da sua me.
- E parece que tu tambm vais estar muito ocupada. A minha me nunca me falou desse hotel.
   Kristina baixou o olhar para a colcha sobre a
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   qual estava sentada. Embora fosse bonita, tinha conhecido melhores tempos.
   - No me estranha - respondeu a rir. - Se fosse proprietria de um lugar como este, no o divulgaria muito.
   - Mas ests decidida a mud-lo - disse Rebecca.
   Kristina endireitou-se na cama, como se estivesse a preparar-se para a batalha que tinha pela frente.
   - Mal possa contar com a colaborao de Max, o cowboy.
   - Quem ...?
   Kristina percebeu que se tinha esquecido daquele pormenor quando tinha falado  sua tia do hotel.
   - O outro proprietrio.
   - Espera um momento. Eu pensava que o hotel era de um casal apelidado de Murphy.
   - Era, mas reformaram-se e cederam a propriedade ao seu filho adoptivo - soprou. - Suponho que no lhes importava muito o que pudesse acontecer ao hotel.
   - Parece que no te ds muito bem com ele. Kristina reprimiu um sorriso. Ela poderia ter dito o mesmo da sua tia e do detective que tinha contratado.
   - Digamos que parecemos um par de ces famintos a disputar um osso.
   - Isso no tem muito boa pinta. Tenta cuidar-te
   - recomendou-lhe Rebecca.
   - No te preocupes. A nica coisa que esse cowboy tem  um sorriso atraente e ar no crebro. Tenho a certeza que saberei dobr-lo - disse com confiana.
   Naquele momento bateram  porta. Kristina olhou para l com impacincia.
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   - Tenho que desligar, Rebecca. Esto a bater  porta. Temo que vou estar muito ocupada; provavelmente no telefonarei muitas vezes. Diz ao resto da famlia que
contactarei com eles.
   - Claro, embora ultimamente eu tambm tenha estado muito ocupada com as investigaes para ter tempo de telefonar  famlia. Temos que libertar o Jake de qualquer
maneira.
   - Sim - Kristina no tinha acreditado nem por um momento que Jake tivesse matado aquela horrvel mulher.
   - Estamos a fazer todo o possvel para chegar ao fundo deste assunto. Todos sabem que o Jake  incapaz de fazer mal a algum.
   Kristina ouviu voltarem a bater  porta e a sua impacincia aumentou perante aquela segunda interrupo.
   - Todos, excepto os juizes. J marcaram a data do julgamento?
   - Ser em princpios de Maro.
   - Estarei l - prometeu-lhe. - Boa sorte, Rebecca. Vemo-nos dentro de umas semanas.
   Bateram pela terceira vez, e daquela vez com mais insistncia. Kristina inclinou-se sobre a mesa-de-cabeceira e deixou o telefone ao lado do candeeiro. Um candeeiro
que poderia substituir um farol, pensou.
   Kristina reuniu todas as notas e esboos que tinha estado a fazer e deixou-os ao lado do telefone.
   - Entre.
   Travando o seu aborrecimento, Max girou a maaneta da porta e entrou no quarto. Antes de bater, tinha ouvido um pouco da conversa de Kristina. Ar no crebro,
eh? Pois muito bem, ia gozar muito a demonstrar-lhe o temvel que podia chegar a ser um oponente sem crebro.
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   Enquanto Max entrava no quarto, Kristina sentiu a hostilidade que surgia entre eles. Havia algo na sua presena que a fazia sentir-se inquieta.
   Levantou-se da cama. Sem os saltos altos, apenas chegava aos ombros de Max. Aquilo colocava-a numa situao de desvantagem. Aproximou os sapatos com o p e calou-os
rapidamente.
   - Tinha medo que tivesse comeado a trabalhar sem si? - perguntou-lhe.
   Max afundou os polegares nos bolsos das calas de ganga e dirigiu-lhe um olhar prolongado.
   - Sim, a verdade  que essa ideia me passou pela cabea.
   Havia algo insondvel no seu olhar que alimentava a sensao de inquietao de Kristina.
   - Ento por que veio?
   As palavras de June, ao recomendar-lhe precauo, ressoavam nos ouvidos de Max. E ajudaram-no a escolher cuidadosamente as suas palavras.
   - Pensei que talvez tenhamos comeado com o p esquerdo.
   Estaria a desculpar-se? Era isso que via nos seus olhos? Mal-estar?
   - Com o p esquerdo? Essa  uma forma muito diplomtica de o dizer - Kristina esperou que Max continuasse, antecipando uma desculpa.
   Aquela mulher era irritante. Max tinha subido ao seu quarto com esperana de comear de novo, fazer-lhe compreender o que ele sentia pelo hotel. Estrangul-la
no fazia parte do plano, embora no fosse mau. Sempre poderia dizer que tinha mordido a lngua e tinha morrido envenenada.
   Max sorriu.
   - Quero convid-la para jantar.
   Kristina olhou-o com receio.
   - Aqui, no hotel.
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   - Estupendo, porque estava a pensar em provar a comida do hotel - Kristina decidiu aproveitar a situao. - E tambm poderamos falar de negcios enquanto jantamos.
   A ideia era tentar relax-la um pouco, suaviz-la. Se falassem de negcios, acabaria por haver outra discusso que no contribuiria em nada para gerar um bom
ambiente entre eles.
   Max aproximou-se de Kristina.
   - Estava a pensar em algo que nos ajudasse a conhecermo-nos.
   O barulho de um trovo sobressaltou Kristina. Olhou para a janela, como se esperasse ver o que tinha fulminado. Deixou escapar um suspiro e voltou-se, s para
descobrir que estava praticamente a tocar em Max. Um raio de uma natureza completamente diferente f-la sobressaltar-se naquela ocasio.
   Demorou alguns segundos a voltar a concentrar-se na conversa. Apertou os lbios e perguntou:
   - Porqu?
   - No gosta de conhecer as pessoas com quem faz negcios?
   - S se tiver que o fazer.
   E obviamente, o jantar com Max no era algo que ela tivesse escolhido.
   - F-lo soar realmente atraente - comentou Max secamente.
   David tinha sido extraordinariamente encantador. Kristina tinha confiado nele, tinha acreditado nas suas palavras. E ele tinha-se aproveitado dela. Mas nunca
voltaria a acontecer-lhe nada igual. Nem no amor nem em nenhum outro aspecto da sua vida.
   - No vim aqui para fazer amigos, Cooper. Vim com um propsito muito diferente.
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   "E montada numa vassoura, de certeza", pensou Max com ironia.
   Perguntou-se se Kristina gostava de irrit-lo. Tentando outra forma de aproximao, agarrou-a pelo brao e obrigou-a a sair do quarto.
   Surpreendida, Kristina tentou libertar-se, mas descobriu que no podia.
   - Eh!
   Max, ignorando o seu protesto, disse com voz educada, embora tensa:
   - Quando comear a adaptar-se ao lugar e s pessoas que trabalham aqui, dar-se- conta que...
   Kristina j sabia o que ia dizer. Mas isso no mudaria nada. Ela j tinha feito os seus prprios planos e pensava convert-los em realidade.
   - Tenho a certeza que toda a gente que trabalha aqui  encantadora. Mas isto no  a sua casa,  o seu local de trabalho. E eu quero que o parea.
   - Engana-se.
   Certamente. Tinha que dizer isso. Os homens como Max Cooper tinham que levar a sua avante.
   - Em qu?
   Max voltou a agarr-la pelo brao para descer as escadas com ela. No queria discutir com ela, mas era praticamente impossvel evit-lo.
   - Esta  a sua casa, o seu lar. Os empregados vivem no hotel. E esta tambm foi at h muito pouco tempo a minha casa.
   Bem, isso explicava muitas coisas. Kristina no notou o tom de condescendncia que adquiria a sua voz ao dizer:
   - Tenho a certeza que, quando era menino, este era um lugar magnfico.
   Max sentiu que os nimos se exaltavam. Isso no era o que ele queria. Ele pretendia convenc-la, no
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   discutir. Mas pelo andar das coisas, no iam nessa direco.
   Voltou a surpreend-la, desta vez pousando bruscamente um dedo sobre os seus lbios.
   - Por que no fazemos uma trgua? Mesmo que seja s at  hora do jantar. Depois podemos continuar a negociar sobre um bom bife - notou o olhar de superioridade
de Kristina. - Ou por acaso  vegetariana?
   Kristina esteve a ponto de responder que sim, s para o chatear. Havia algo nele que a fazia pression-lo de um modo perverso. Talvez fosse a sua atitude para
com ela: tratava-a, por assim dizer, como uma menina mimada. Ou talvez fosse por ser to condenavelmente atraente como David.
   - No, um bife parece-me um bom jantar. Mal passado.
   Naquela ocasio, foi Max quem pareceu surpreender-se. A resposta de Kristina conseguiu arrancar-lhe um sorriso.
   - V, finalmente estamos de acordo em alguma coisa.
   Kristina deixou cair a cabea para trs. Era um gesto arrogante, de desafio. Mas, por um breve instante, a Max pareceu-lhe carregado de insegurana. Embora provavelmente
fosse imaginao sua.
   - Com o tempo, tambm ficaremos de acordo sobre o hotel - assegurou-lhe Kristina enquanto entravam na recepo.
   Max sorriu sem dizer uma s palavra. "Quando as galinhas tiverem dentes", pensou.
   A sala de jantar estava situada na parte traseira do hotel e tinha uma magnfica vista do mar da qual Kristina tinha tomado nota durante o primeiro percurso pelo
edifcio. Naquele momento, com aquele cu de tempestade, causou-lhe uma magnfica impresso.
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   Max notou a sua expresso e interpretou-a como um ponto a seu favor.
   - Gosta da vista, ou tambm quer melhor-la?
   - no pde deixar de acrescentar.
   Kristina cerrou os dentes. Tinha-se acostumado a expressar as suas opinies com dureza porque tinha descoberto que ningum se incomodava em ouvir as suas sugestes
quando as formulava educadamente. Viam-na sempre como a neta de Kate ou a filha de Nathaniel. E era verdade que o era. Mas tambm era muitas coisas mais.
   - S gostaria de ter a certeza de que as janelas esto sempre limpas - respondeu com naturalidade.
   Max perguntou-se se ao mat-la ali mesmo arruinaria o apetite dos outros hspedes ou se ganharia os seus aplausos.
   Sidney aproximou-se nesse momento da sua mesa. Da mesma forma que Antnio, tinha um cargo duplo no hotel. Max fez-lhe um gesto com a cabea.
   - Diz a Sam que queremos dois bifes mal passados.
   - Algo para beber? - perguntou Sidney, enquanto deixava um cesto de po no meio da mesa.
   Max gostaria de ter pedido um usque duplo.
   - S gua. Para os dois.
   - Sou capaz de pedir por mim mesma, Cooper
   - disse Kristina.
   Max levantou as mos num instante.
   - Desculpe. No pretendia invadir o seu territrio. Diga.
   - Um caf com gelo, por favor - disse Kristina a Sidney enquanto se sentava.
   - Muito apropriado - murmurou Max. Os seus olhos encontraram-se. Max viu um relmpago de fria nos de Kristina e sentiu uma certa satisfao. -
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   Tendo em conta o calor que a tempestade trar acrescentou.
   Naquele momento, Kristina ficou em silncio. Sidney voltou-se para Max.
   - Querem mais alguma coisa?
   - No, mas diz a Sam que se apresse - queria que aquele momento durasse o menos possvel.
   Sidney sorriu a Max.
   - Claro, Max - o sorriso gelou nos seus lbios quando olhou para Kristina. - Menina Fortune.
   Kristina estendeu o guardanapo no seu colo. Sem esperar por Max, cortou um pedao de po. O po devia estar quente, pensou. Levantou o olhar para Max, mas decidiu
que no valia a pena perder tempo a comentar detalhes que ele seria incapaz de apreciar.
   Outros, no entanto, no podia deixar de apontar.
   - No devia permitir que o tratem por tu.
   -  curioso. Eu estava a pensar que no devia insistir em que a tratem por menina.
   - Porqu?
   Max jurava que era algo evidente. Mas talvez no para uma princesa.
   - Porque cria distncias.
   - Isso  exactamente o que penso.
   Max inspirou. Era bvio que aquela mulher no tinha experincia nenhuma em lidar com pessoas que no tinham nascido num bero de ouro.
   - Suponha que eles pretendam que considerem que o seu trabalho  algo mais que um simples trabalho.
   O seu raciocnio era to absurdo que Kristina ficou sem conseguir respirar.
   - Mas  que isto  um trabalho. Pode incentiv-los mediante pagamentos extras ou algum tipo de prmio, por exemplo.
   Max deixou cair o pedao de po que tinha na mo e com ele, o pouco que lhe ficava de apetite.
   - Fala como se trabalhssemos com focas num circo - inclinou-se para a frente, de modo que o seu rosto ficou a s uns centmetros do dela. - Tem uma maneira muito
estranha de desanimar as pessoas - reprovou.
   No, evidentemente, no ia desfrutar nada a trabalhar com esse idiota. Kristina encolheu os ombros.
   - Olhe, Cooper, afortunadamente para mim, no acho que isso importe. Podemos trabalhar juntos sem necessidade de nos darmos bem.
   - Sempre e quando faa as coisas  sua maneira...
   - Se a minha maneira de fazer as coisas tem sentido...
   Max curvou os lbios num sorriso totalmente carente de humor.
   - E ter, sempre que nos permita ganhar muito dinheiro, no ?
   - A maioria das pessoas faz negcios para ganhar dinheiro.
   Sidney voltou naquele momento com a comida. Max esperou que a empregada de mesa se retirasse para responder e no lhe passou ao lado o olhar de compaixo que
a jovem lhe dirigiu antes de se ir embora.
   Inclinou-se ento para a travessa que Kristina tinha  sua frente e decidiu aproveitar-se daquela pequena distraco.
   - Comea a comer, Kris - disse-lhe. Kristina odiava diminutivos.
   - Chamo-me Kristina.
   Aquela mulher era uma autntica dor de cabea, pensou Max, resignando-se a suportar o pior jantar da sua vida.
   - Comea a comer, Kristina.
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   Com expresso de ter obtido uma pequena vitria, Kristina cortou um pedao de carne. Tinha que reconhecer que tinha um aspecto muito apetitoso. Embora a apresentao
pudesse melhorar consideravelmente.
   Levantou o olhar e viu que Max estava a observ-la.
   - Olhe  sua volta. O hotel tem dezasseis quartos e s h cinco ocupados.
   O bife estava perfeito, mas Max tinha perdido completamente o apetite.
   - E tu pretendes ench-los.
   - Sim - o seu olhar resplandeceu. - As pessoas tero que reservar quarto com dois meses de antecedncia.
   Aquela mulher no sabia nada de negcios. Como podia estar to convencida das suas ideias?
   - Ests muito segura de ti mesma, no?
   - Sim - respondeu sem vacilar.
   - Porqu?
   - Porque tenho olfacto para os negcios.
   - Isso  tudo o que este lugar  para ti? Um negcio?
   - Certamente - olhou-o incredulamente. Que outra coisa poderia ser?
   Com infinita pacincia, como se fosse um professor a ensinar uma menina, Max comeou outra vez:
   - Antes comentei que era como um lar...
   - Poupe-me a sentimentalismos, Cooper. Isso s  outra desculpa para no fazer nada. Tenho a certeza de que se sente muito cmodo desta maneira. Pois bem, no
tem por qu preocupar-se. Eu encarregar-me-ei de tudo. Estou acostumada a faz-lo. Pode dedicar-se a dormir.
   Max tinha tentado ser educado. Mas era bvio que aquela mulher s compreenderia  fora.
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   - Diz-me, Kristina, porque eu sou completamente novo nisto, tens que ter algum cuidado especial pelo facto de teres uma carteira onde o resto das pessoas tem
o corao?
   Kristina levantou a cabea bruscamente. Como se atrevia?!
   - Se vai comear a insultar-me, no poderemos continuar a falar.
   - Continuar a falar? Mas se at agora s tu  que falaste!
   Kristina levantou-se e deixou o guardanapo na mesa.
   - Diga ao cozinheiro que a carne estava deliciosa. Sinto muito no poder dizer o mesmo da companhia.
   E sem mais, abandonou a sala de jantar.
   Da mesma forma que o resto dos comensais, Sidney estava a contemplar a cena. Imediatamente, aproximou-se da mesa para retirar o prato de Kristina.
   - Se eu estivesse no teu lugar, Max, teria acabado em luta.
   Max suspirou. Sidney podia ter muito boas intenes, mas nada alterava o facto de ter que encontrar uma maneira de trabalhar com aquela mulher irritante.
   - Obrigado, mas no ests no meu lugar e lutar no teria servido de nada.
   Max levantou-se com um suspiro e foi  procura de Kristina, consciente de que os outros hspedes estavam a olhar para ele. Deus, quanto desejava voltar  obra!
O ao e o cimento eram coisas que sabia como manejar. Mas, no mundo das mulheres ricas e mimadas, no tinha nada que fazer.
   Um mundo a que Alexis se tinha acostumado muito rapidamente, lembrou-se, porque depois de o
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   abandonar correu para se casar com um dos seus vaidosos executivos. Quando pensava nisso, o homem que Alexis lhe tinha descrito parecia-lhe a metade masculina
de Kristina.
   Max passou  frente do balco de June. Em vez de dizer alguma coisa, a mulher apontou para a porta. Max suspirou e saiu a correr.
   Chegou a tempo de ver Kristina a dirigir-se para a praia.
   Deus, com um pouco de sorte, afogar-se-ia no mar.
   Mas no poderia permiti-lo.
   Soltou uma maldio e saiu a correr atrs dela.
   Quatro
   - Eh! - gritou Max a Kristina, e correu para a alcanar.
   Kristina no parou. To-pouco deu sinal algum de o ter ouvido. Pelo contrrio, acelerou ainda mais o passo.
   - Eh! - voltou a gritar Max.
   Quando chegou ao lado de Kristina, agarrou-a pelo brao e obrigou-a a voltar. Mesmo  luz da lua, pde ver as nuvens de tempestade que nublavam o seu rosto. Um
rosto que poderia ter-lhe parecido muito atraente se no fosse o de Kristina.
   Mas era.
   - No sabes que  perigoso andar por aqui quando no se est familiarizado com a praia? A ondulao  muito forte nesta poca do ano. Qualquer onda poderia arrastar-te
para o mar.
   Como se a ele lhe importasse, disse Kristina para si mesma.
   - Sei cuidar de mim mesma. E para tua informao - disse, - no pensava entrar na gua. Sei exactamente onde estou.
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   - Mas o que se passa contigo? - Max s podia encontrar um motivo para a sua absurda atitude: que algum lhe tivesse feito muito mal. Lembrava-se de como ele se
tinha sentido depois do que Alexis tinha feito. - Algum te abandonou ou algo parecido?
   Kristina fulminou-o com o olhar perante aquela insinuao. Claro que no. Tinha sido ela quem tinha deixado David. Embora na realidade David nunca a tivesse querido.
S queria o seu dinheiro, a sua posio.
   Kristina semicerrou os olhos.
   - Porqu? Achas que uma mulher no pode estar zangada a menos que haja um homem pelo meio?
   - Bom... - fingiu considerar seriamente a pergunta. Estava consciente que a tinha feito chatear-se. De certeza que algum a tinha abandonado. E no culpava o
pobre homem que o tinha feito; tinha que estar louco para sair com uma mulher como Kristina. - No.
   - Neste caso - admitiu Kristina, - tens razo, mas ningum me abandonou, como tu to eloquentemente disseste. Mas sim, h um homem pelo meio: tu. Ao vir para
a praia, a nica coisa que pretendia era afastar-me de ti. Mas  evidente que no tive sucesso.
   Max no se ia deixar arrastar para outra discusso. Embora no lhe fosse nada fcil quando a nica coisa que lhe apetecia nesse momento era torcer-lhe o pescoo.
   Estendeu-lhe a mo e fez um ltimo sacrifcio.
   - Aceitas uma trgua?
   Kristina olhou para a sua mo. Era uma mo forte, trabalhadora. A mo de um homem que no temia o trabalho duro. Afinal, talvez no fosse preguioso. De certeza
que s era um cabea-oca.
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   De qualquer maneira, ignorou a oferta e olhou-o nos olhos.
   - Que te parece se falssemos das razes pelas quais seria preciso fazer uma reforma? - levantou a voz acima do som das ondas e ergueu o dedo indicador. - Em
primeiro lugar, o hotel no tem benefcios. Em segundo lugar,  um estabelecimento com grandes possibilidades. Em terceiro lugar, tenho o dinheiro necessrio para
converter este estabelecimento num lugar muito especial. E quarto...
   Interrompeu-se bruscamente quando Max fechou a mo sobre a sua. Mas disse entre dentes:
   - Eu sou proprietria de metade deste hotel.
   - E quinto, s realmente insuportvel - Max soltou-lhe a mo, reprimindo o desejo de lha apertar.
   Kristina flectiu os dedos muito lentamente. No ia dar-lhe a satisfao de fazer uma careta. Aquele homem no s era um cabea-oca, como tambm um autntico Neandertal.
   Max permanecia em frente a ela. No era lugar para discutir nem para se indispor. Por que Kristina no podia fechar a boca e deixar que o ambiente desencadeasse
a sua magia? Voltou a tentar.
   - Por que no tentas desfrutar um pouco deste lugar antes de fazer alguma mudana?
   Realmente no a compreendia, disse Kristina a si mesma. Evidentemente, para ele a palavra "progresso" estava cheia de conotaes negativas.
   - No tenho que desfrutar dele para saber que este lugar tem um potencial que no est a ser aproveitado - apontou, frustrada, para a praia, como se Max no a
tivesse visto nunca.
   Max afundou as mos nos bolsos das calas de ganga e comeou a caminhar ao longo da margem.
   - Se tem que haver mudanas no hotel - advertiu-lhe,
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   - quero deixar uma coisa completamente clara desde o princpio: no quero que nenhum dos trabalhadores seja despedido.
   - Mas se no fazem um bom trabalho...
   Max parou e fixou os olhos no rosto de Kristina.
   - Esto a fazer um bom trabalho.
   A dureza do seu rosto era quase perversa, pensou Kristina, surpreendida. Mas no retrocedeu nas suas posies. Pensava fazer tudo o que tinha planeado. No podia
permitir que o sentimentalismo se interpusesse no seu caminho.
   - Mas se...
   - Isso no  negocivel, Kristina - informou-a com dureza. - Quando me encarreguei do hotel, prometi aos meus pais que no prescindiria de nenhum empregado.
   Aquele homem no pertencia ao mundo dos negcios, pensou Kristina. Era surpreendente que ainda conservasse o hotel. E embora a sua atitude pudesse parecer nobre,
na realidade era outra desculpa para no assumir as responsabilidades.
   - Sim, claro - disse com pacincia. - Mas de certeza que os teus pais no quereriam que...
   Max no queria ouvir nem mais uma palavra.
   - Dei-lhes a minha palavra, Kristina - interrompeu-a. - A minha palavra. Sabes o que isso significa?
   - perfurou-a com o olhar. - Isso significa que fiz uma promessa, e eu cumpro sempre as minhas promessas.
   Max sentiu que lhe estava a esgotar a ltima gota de pacincia enquanto baixava o olhar para aquele obstinado rosto. Como podia uma mulher ser to bela e to
condenavelmente impiedosa ao mesmo tempo?
   Bastou-lhe lembrar-se de Alexis para compreender.
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   - Nunca as quebro - insistiu. - E muito menos por culpa de uma menina mimada que se apresenta aqui disposta a arrasar com tudo.  possvel que em Minneapolis
se faam as coisas assim, mas aqui no funcionamos dessa maneira.
   Kristina olhou para o cu.
   - Oh, por favor, no sabia que a Califrnia era a vanguarda da sinceridade e da justia.
   - Talvez a Califrnia no o seja, mas eu sim aproximou a boca do ouvido de Kristina, para que o vento no levasse as suas palavras antes que pudesse ouvi-las.
- E agora, se te resta um mnimo de bom senso, coisa que duvido, devias voltar para o hotel - pousou a mo no seu ombro e f-la voltar-se para olhar para o cu.
- Aproxima-se uma tempestade. E no queremos arriscar-nos a que um raio te fulmine, no ?
   Pelo seu tom de voz, parecia que era precisamente isso que queria.
   Sem mais, Max virou-se e comeou a caminhar a passos largos para o hotel como se estivesse desejoso de se afastar dela.
   Frustrada e furiosa, Kristina olhou  sua volta,  procura de algum objecto para lhe atirar. Viu um pedao de madeira a vrios metros de distncia. Sem pensar
no que estava a fazer, agarrou-o e atirou-o a Max.
   A madeira acertou-lhe em cheio nas costas. Max virou-se, surpreendido, baixou o olhar para a madeira e comeou a caminhar para onde Kristina estava com uma expresso
furiosa.
   Kristina, embora no soubesse o que a esperava, negava-se a recuar. Levantou o queixo e olhou para ele, com ar de desafio.
   Quando chegou ao seu lado, Max agarrou-a pelos ombros e abanou-a com fora.
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   - Que raios se passa?
   - s tu - replicou Kristina, negando-se a pedir-lhe que a soltasse, apesar de lhe estar a fazer mal. - Nunca me tinham feito perder to rapidamente a pacincia.
   Max deu-se conta de que estava a agarr-la com muita fora. Ao solt-la, viu as marcas dos seus dedos nos seus braos. To furioso consigo mesmo como com ela,
reformulou:
   - Bom, j temos duas coisas em comum: a carne e o mau gnio. Uma combinao infernal - abanou a cabea. - Vai ser impossvel isto funcionar.
   - No se trata de um casamento,  s um negcio.
   -  algo mais que isso - replicou. -  o inferno na Terra - e ele estava precisamente no centro.
   Pela sua mente passou uma imprecao enquanto fixava o olhar no rosto de Kristina. Sem se dar realmente conta do que estava a fazer, abraou-a de repente.
   As emoes agitavam-se no seu interior como o mar no meio de um ciclone. Max sentia-se a ponto de ceder ao quase assustador magnetismo do olhar de Kristina. Aquilo
no tinha sentido nenhum, mas certamente a atraco sexual nunca o tinha. E isso era o que estava a sentir: um desejo puramente sexual.
   Ao luar, a ver como o vento aoitava o cabelo comprido de Kristina e a sentir como o envolvia a sua fragrncia, teve uma reaco que h muito tempo no experimentava.
   Desejava-a.
   No sabia o que lhe apetecia mais: estrangul-la ou fazer amor com ela. Mas desejava-a.
   Kristina conteve a respirao. No estava to segura de si mesma como segundos antes. Com as mos firmes de Max sobre ela e os olhos dele fixos nos seus, sentia-se
a tremer dos ps  cabea.
   No tinha a menor ideia do que Max podia chegar a fazer. Nem da razo por que o perigo que assomava aos seus olhos a fascinava dessa maneira. Mas sabia que no
gostava do poder que Max tinha naquele momento sobre ela.
   Max inclinou a cabea, deixando os seus lbios a apenas uns milmetros dos de Kristina. Esta podia sentir o seu corao a bater violentamente no peito. E como
um animal encurralado, ganhou foras e lanou-se ao ataque.
   - Beija-me- avisou, - e ters que pagar por isso.
   Estava certo de que cumpriria a sua ameaa, pensou Max. E a verdade era que no estava certo de que o preo valesse a pena. Embora talvez sim.
   Max soltou uma gargalhada perante aquela ameaa, e aquilo piorou a situao.
   - Tenho a certeza, Kristina, mas no te preocupes. No penso arriscar-me - e sem mais, soltou-a.
   - Agora caminha  minha frente.
   - Porqu?
   Max pousou a mo nas suas costas, insistindo para que caminhasse, e ela cambaleou. Max soltou uma maldio e agarrou-a pelo brao. S quela mulher lhe ocorreria
caminhar com sapatos de salto alto pela praia.
   Naquele momento, soltou-a muito rapidamente. Porque comeava a apetecer-lhe muito o contacto fsico com ela.
   - Porque no tenho olhos nas costas e no quero que me atires outro pedao de madeira, Kristina, por isso.
   Murmurando para si as suas prprias maldies, Kristina comeou a caminhar a passos largos. Por culpa da areia, tropeou vrias vezes, mas isso no lhe fez diminuir
a velocidade.
   No parou at estar no seu quarto, com a porta fechada.
   S quando deixou de tremer telefonou ao advogado da famlia. A frustrao cresceu quando atendeu o atendedor de chamadas do advogado. Zangada, desligou bruscamente
o telefone.
   Teria que esperar at  manh seguinte para averiguar de que maneira poderia comprar a parte de Cooper. Porque, de uma forma ou de outra, pretendia faz-lo. E
depois do que tinha acontecido naquela noite, ser-lhe-ia impossvel voltar a negociar com aquele homem. Sem pensar, passou a lngua pelos lbios, onde minutos antes
tinha sentido o alento de Max.
   Kristina fixou o olhar na escurido da janela. As nuvens tinham coberto totalmente a lua, e no viu nada, salvo o seu prprio reflexo.
   O seu prprio reflexo e a sombra de Max, que parecia estar a gozar com ela.
   Com um grito furioso, correu a cortina.
   Max abriu os olhos lentamente. Cada plpebra parecia pesar uma tonelada. O zumbido da cabea apareceu um segundo depois, lembrando-lhe tudo o que tinha bebido
na noite anterior.
   Desviou o olhar e viu a garrafa de usque que tinha no quarto.
   Gemeu, sentou-se na cama e passou a mo pela cara enquanto se lembrava do que tinha acontecido na noite anterior. Tinha comeado a beber para tentar apagar o
sabor do desejo e tirar da cabea a sua experincia com Kristina.
   Mas tinha fracassado nas duas coisas.
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   E aquilo no era nenhum pesadelo. Tinha acontecido de verdade.
   Kristina Fortune tinha-se intrometido com toda a sua malfica glria no hotel e na sua vida. E ele ia ter de encontrar uma forma de se entender com ela que contasse
com a aprovao do departamento de polcia de Lajolla.
   Suspirando, Max estendeu a mo para as calas de ganga que descansavam aos ps da cama. Vestiu-as e levantou-se. A seguir, vestiu a camisa, mas no se incomodou
em aboto-la. Como uma concesso ao lugar onde estava, decidiu calar as botas e no andar descalo.
   Com um pouco de sorte, Kristina estaria ainda a dormir e ele poderia comer sem ter de voltar a ver-lhe a cara. Imaginava que tinha muitas probabilidades a seu
favor. Ao fim e ao cabo, os vampiros procuravam evitar a luz do dia. Tinha passado a noite no hotel, em vez de ir para o apartamento que tinha em Newport Beach.
Naquele momento, pensava tentar arranjar as coisas com Kristina pela manh, pensando que talvez tivesse mais sorte.
   Ento tinha-lhe parecido uma ideia razovel. Mas j no estava to certo disso. Isso significaria ter de voltar a falar com ela, uma perspectiva que no lhe parecia
em absoluto apetecvel, por muito atraente que fosse aquela mulher.
   Max saiu para o corredor e fechou a porta atrs dele. Tinha passado a noite no quarto que ocupava quando era pequeno. Estava no primeiro andar, precisamente ao
lado do escritrio. Para poder aceder  sala de jantar, tinha que passar diante do balco da recepo e do salo principal. Coisa que fez.
   Ficou paralisado ao ver Kristina em cima de uma escada, a tentar tirar a tapearia que estava pendurada por cima da lareira.
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   Uma tapearia que ele lhe tinha dito especificamente que no queria tirar dali.
   Maldita! Aquela bruxa fazia caso omisso de tudo o que lhe dizia. Indignado, gritou-lhe:
   - Eh! Que raios achas que ests a fazer?
   Aquele grito furioso sobressaltou-a. Kristina soltou um grito e perdeu o equilbrio. Max viu que ia cair da escada. Em questo de segundos acabaria no cho.
   Max correu at l a tempo de a agarrar. Conseguiu segur-la pela cintura e evitar a queda. Mas Kristina bateu com a cabea numa esquina da lareira.
   A jovem gritou e, para absoluto horror de Max, caiu inconsciente nos seus braos.
   - Kristina?
   Kristina no respondeu e Max sabia que no estava a fingir. Cada vez mais preocupado, tomou-lhe o pulso. Tinha-o muito acelerado, mas a sua respirao era regular.
   - Maldita mulher. No fizeste outra coisa seno causar-me problemas desde o momento que puseste os ps no hotel!
   Nesse momento, June aproximou-se a correr. Afortunadamente, os outros hspedes no pareciam ter ouvido nada.
   - Ouvi um grito - ao ver a escada e Kristina nos braos de Max, mordeu, nervosa, o lbio inferior. - Mataste-a?
   Max abanou a cabea. Aquele no era momento para brincadeiras.
   - No, caiu da escada e bateu na chamin com Kristina nos braos, dirigiu-se para as escadas.
   - Chama o DanielValentejune. Se te apressares, localiz-lo-s antes que tenha sado para o hospital tinha j um p no primeiro degrau quando se voltou
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   de novo para June, que estava atrs do balco,  procura da lista telefnica. - Diz-lhe que  uma emergncia e preciso dele.
   - Deixa isso comigo - a calma que a voz de June transmitia conseguiu aliviar os nervos de Max.
   Max levou Kristina para o seu quarto e deitou-a delicadamente na cama. Parecia to pequena e indefesa ali deitada...Abanou a cabea, negando-se a deixar-se levar
pelo pnico. Ao fim e ao cabo, sabia melhor que ningum que sob aquela pele plida e aquele comprido cabelo loiro se escondia uma autntica anaconda.
   Como no podia fazer mais nada, alm de esperar por Daniel, aproximou uma cadeira da cama. Antes de se sentar, examinou o golpe que comeava a inflamar na testa
de Kristina. No gostou do seu aspecto, mas era Daniel quem tinha que dizer se havia motivos para se preocupar.
   - S problemas - repetiu para si enquanto se sentava na cadeira, disposto a esperar at que Kristina acordasse ou que Daniel chegasse.
   E se no acontecesse em breve nenhuma das duas coisas, teria que a levar ao hospital.
   Max e Daniel Valente tinham compartilhado muitas das suas brincadeiras de infncia nos jardins do hotel e a sua amizade tinha-se conservado intacta quando Daniel
tinha ido para a Costa Leste estudar. Daniel tinha-se licenciado em medicina, satisfazendo assim as ambies da sua famlia. Durante o processo, tinha descoberto
que tinha uma aptido natural para ser mdico e que, alm disso, gostava de o ser.
   Max e ele costumavam ver-se uma vez por ms. s vezes menos. Mas por muito tempo que passassem sem se ver, a sua amizade permanecia como se tivessem estado juntos
na tarde anterior.
   Daniel chegou dez minutos depois de June o ter
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   chamado, precisamente quando Max estava a pensar em levar Kristina ao hospital.
   Enquanto o mdico examinava Kristina, Max permaneceu em silncio. Mas como os minutos passavam e o seu amigo continuava sem dizer nada, acabou por perguntar:
   - E?
   - Fez um golpe terrvel na cabea.
   - No precisava de um mdico para me dizer isso.
   - No, mas precisavas de um mdico para te dizer que no parece ter uma comoo cerebral Daniel guardou o estetoscpio no seu estojo e levantou-se. - O que te
aconselho  que a observes
   - sorriu. - E tendo em conta o seu aspecto, suponho que no te seja muito difcil.
   - Acredita, Daniel, mudarias de opinio se a visses quando tem os olhos abertos.
   - Acho que no gostaria de correr esse risco fechou a mala. -  possvel que se sinta um pouco desorientada quando acordar. Se surgir algum problema, chama-me.
E se dentro de, digamos por exemplo, uma hora, no acordar, leva-a ao hospital e pede que me localizem. No acho que seja nada srio, mas nunca se sabe.
   - No, nunca se sabe - respondeu Max quando o seu amigo abandonou o quarto.
   Outro dia enviado do inferno, pensou. Porque no podia deixar Kristina naquela situao. Com um suspiro, estendeu a mo para o telefone da mesa-de-cabeceira e
telefonou a Paul.
   Explicou rapidamente ao seu amigo o que tinha acontecido. Paul ouviu-o com ateno e disse-lhe que no tinha por que se preocupar. Pelo menos uma vez, parecia
que tudo estava a correr bem e todos os pedidos de material estavam a chegar a tempo.
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   Ficava contente de saber disso, pensou Max enquanto desligava o telefone, mas teria gostado de poder dizer o mesmo do hotel. De repente, um gemido f-lo levantar-se
de um salto. Deus, Kristina estava muito plida, pensou. E praticamente impeliu-se sobre ela quando a viu abrir os olhos.
   Sorriu-lhe.
   - Ol, finalmente decidiste voltar.
   - Ol - murmurou Kristina. Levou a mo  testa e abafou um gemido. A dor continuava, mas j no era to intensa. Tentou levantar-se, mas no conseguiu. - Onde
estiveste?
   - Fora - Daniel tinha comentado que no incio estaria um pouco desorientada. E claro, parecia estar. - Fizeste um golpe na cabea.
   - Sim? Quando?
   - Quando caste da escada.
   Kristina permaneceu em silncio, a pensar. O doloroso latido da sua cabea tornou-se mais intenso quando fez uma careta.
   - E que estava a fazer na escada?
   - No te lembras? - perguntou-lhe Max, com os olhos semicerrados.
   - No.
   Estava diferente. Havia algo na sua atitude que tinha mudado. Sinceramente preocupado, Max inclinou-se para a frente.
   - E do que  que te lembras?
   Kristina tentou encontrar uma resposta. Abriu os olhos como holofotes e voltou-se para Max. Onde deveria haver pensamentos, impresses, ideias, no havia absolutamente
nada. S um enorme vazio.
   - De nada - sussurrou. - No me lembro de nada.

   Cinco
   Max olhou fixamente para Kristina e deixou-se cair na cadeira que tinha colocado ao lado da cama.
   - Quando dizes que no te lembras de nada, referes-te a que no te lembras do acidente?
   Muito lentamente, Kristina mexeu a cabea de um lado para o outro. Mas at o mais leve dos movimentos se repercutia dolorosamente em todo o permetro do seu crebro.
   Se o tentasse, pelo menos podia superar a barreira da dor. Mas alm disso estava aquela horrvel sensao de sentir que depois dela no havia nada  sua espera.
Nem lembranas, nem histrias, nem experincias... Sentia-se s e terrivelmente isolada.
   - Refiro-me a que no me lembro de nada. De nada em absoluto. No sei quem s. Nem onde estou. Nem... - interrompeu-se, porque o que estava quase a admitir era
to aterrorizador que podia chegar a afund-la, - nem sequer sei quem sou.
   Max demorou alguns segundos a digerir o que lhe estava a dizer. Estudou o rosto de Kristina com ateno, para o caso de, por alguma razo, estar a
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   gozar com ele. Mas a expresso de Kristina era a de uma mulher que se sentia insegura, a de uma mulher com medo que estava a fazer um srio esforo para no o
mostrar.
   Max tentou pr-se no seu lugar, mas parecia-lhe algo quase inconcebvel que algum pudesse desconhecer-se a si mesmo. Movido pela compaixo, agarrou na mo de
Kristina.
   - Pensa, Kris, pensa - incentivou-a.
   - Estou a pensar - insistiu ela. O medo reflectia-se na sua voz. Olhou para Max, reflectindo sobre o dado que acabava de lhe proporcionar. -  assim que me chamo?
Chris?
   Porque  que no lhe parecia familiar? Porque  que nada lhe parecia familiar? Comeou a temer no ser capaz de reconhecer nem sequer o seu prprio reflexo.
   Max abriu a boca para lhe dizer que na realidade ela preferia que a chamassem Kristina, mas pensou melhor. Estava a comear a ocorrer-lhe uma ideia.
   - Sim - disse lentamente. -  o diminutivo de Kristina, com K - observou-a, tentando descobrir se ao ouvir o seu nome despertavam as lembranas. Mas a expresso
de Kristina permanecia inaltervel.
   - A srio que no te lembras de nada?
   - No - sussurrou lentamente, - no me lembro.
   Max viu o brilho das lgrimas brilhar na profundidade dos seus olhos azuis. Invadido pela compaixo e sentindo-se infinitamente trpego, passou-lhe o brao pelos
ombros.
   - Eh, tudo vai correr bem - esperava que no comeasse a chorar. No havia nada que o desarmasse mais que as lgrimas de uma mulher. - Ests um pouco afectada,
s isso. Antes que te ds conta, tudo ter voltado  normalidade.
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   Kristina esforou-se para conter as lgrimas. Chorar no ia servir-lhe de nada.
   - Suponho que sim. Mas nem sequer sei qual  a normalidade.
   - Eu demonstrar-te-ei - prometeu-lhe Max, esticando o brao  volta do seu ombro.
   Kristina pousou a bochecha contra o seu peito. E acreditou nele.
   Podia no conhecer aquele homem, mas sentia-se a salvo nos seus braos. Sentia-se cmoda, segura. Respirou, tentando tranquilizar-se. A fragrncia da gua-de-colnia
de Max chegou at ela. Era uma fragrncia que lhe parecia familiar. Como a sombra de algo que tinha sido. Ou que podia ter sido.
   Kristina olhou para ele. Quem seria aquele homem? E que relao haveria entre eles? No tinha a menor ideia.
   - Como te chamas?
   Os olhos de Kristina lembravam-lhe um oceano insondvel. Enquanto olhava para ela, Max lembrou-se de pensar que um homem poderia perder-se nesse olhar.
   - Max - respondeu com receio. - Max Cooper.
   Nada. O seu nome no significava nada para ela. Mas se a sua gua-de-colnia lhe parecia familiar, perguntou-se Kristina, no deveria parecer-lhe tambm o seu
nome? - E eu? Qual  o meu sobrenome?
   A verdade batalhava contra a convenincia. Ganhou a convenincia. A repentina perda de memria de Kristina far-lhe-ia ganhar tempo. Max pensou num sobrenome para
ela. E fixou-se no pendente em forma de corao que levava ao pescoo.
   - Valentine. Chamas-te Kris Valentine.
   Kris Valentine. Aquele nome tambm no lhe dizia
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   nada. Kristina sentia-se como se estivesse a tentar sair de um poo escuro. Olhou para os olhos de Max e o desespero cedeu um pouco. Havia algo naquele homem
que a fazia sentir-se protegida. Isso tinha que significar alguma coisa, no?
   - E tu e eu o que somos? Refiro-me a... - mordeu o lbio inferior, tentando encontrar a palavra adequada. - O que somos um do outro? Estamos casados?
   Aquela pergunta apanhou-o completamente desprevenido.
   - No... no estamos casados. Somos...
   A palavra "scios" gelou-lhe nos lbios. Max pensou nas mudanas que Kristina queria fazer no hotel, em como tinha tentado tirar a tapearia que ele no queria
que tirasse. Faria o mesmo com tudo, empregados includos.
   E desapareceu toda a compaixo possvel por ela.
   Max observou o seu rosto e respondeu:
   - s minha empregada.
   Kristina assentiu lentamente, tentando assimilar a informao.
   Trabalhava para ele, mas a fazer o qu?
   - E sou..?
   Max pensou ento como Kristina tinha tratado Sidney. Seria justia potica faz-la colocar-se na pele da outra mulher. Provavelmente, teria que pagar as consequncias
do que estava a ponto de fazer quando Kristina recuperasse a memria, mas no pde resistir  tentao.
   - Criada de quarto. Isto  um hotel.
   Enquanto pronunciava cada palavra, Max estudava o rosto de Kristina na busca de algum sinal que indicasse que a Kristina do dia anterior tinha regressado. Mas
s via uma jovem confusa que estava a tentar enfrentar aquela situao sem desmoronar.
   Sentiu uma pontada de culpa, mas decidiu ignor-la.
   - Temos dezasseis quartos.
   - E eu limpo-os? - olhou  sua volta.
   - Sim. Tambm serves  mesa na sala de jantar, juntamente com a Sidney.
   Outro nome que no conhecia.
   - Sidney?
   - Sim, a outra empregada.
   Ento, Sidney era uma mulher. Uma mulher que no reconheceria mesmo que a visse. Exasperada, Kristina tentou levantar-se. Mas quando ps os ps no cho, o quarto
comeou a andar s voltas.
   Estava a empalidecer outra vez. E cambaleava. Max agarrou-a pelos braos e f-la sentar-se de novo na cama. Ele sentou-se ao seu lado, tentando no pensar em
quo indefesa devia sentir-se Kristina.
   Com um pequeno gemido, Kristina inclinou-se para ele. Max sentiu na bochecha o toque do seu cabelo; aquele contacto despertou algo nele que o fez sentir-se envergonhado.
Mas estava a fazer aquilo pelo bem do hotel, pelo bem dos trabalhadores. Precisava desesperadamente de ganhar tempo. Com tempo, no faria mal nenhum a ningum.
   Kristina olhou para ele. Teriam estado assim em alguma outra ocasio? Embora no pudesse lembrar-se, tinha a sensao que sim.
   - E... no temos outro tipo de relao?
   A pergunta foi apenas um sussurro, como se realmente achasse que tinham uma relao especial. Algo distante, terno e protector nasceu no interior de Max. Algo
que no parecia fcil de ignorar, embora soubesse que era um sentimento completamente fora de contexto no que se referia a Kristina.
   - No, no temos nenhum tipo de relao. Tinha-se enganado.
   - Sinto muito - Kristina corou. O rubor que cobria as suas bochechas fazia-a parecer excepcionalmente vulnervel. - Eu achava que sim. Suponho que  devido ao
modo como tu ests a abraar-me.
   Desejando pr alguma distncia entre eles, Kristina tentou levantar-se. E daquela vez, conseguiu pr-se de p. Deixou escapar uma baforada de ar e aproximou-se
do banco que estava debaixo da janela.
   A tempestade que tinha ameaado durante toda a tarde anterior tinha ocorrido durante a noite e tinha deixado o seu rasto atrs dela. As rvores e a erva estavam
de um verde vibrante depois de terem recebido a gua da chuva. E o mar permanecia calmo, acariciando suavemente a margem.
   Ela tinha visto aquela paisagem antes, pensou Kristina de repente. No sabia como ou quando, mas que tinha estado ali sentada, a olhar pela janela e a desfrutar
da mesma vista.
   Pelo menos era algo de que se lembrava. Disso, e do aroma da gua-de-colnia de Max. Pelo menos punham-na num lugar.
   O resto, esperava, iria voltando pouco a pouco. At l, teria que se pr completamente nas mos daquele homem.
   A ideia assustava-a um pouco, mas, mesmo assim, tinha a sensao que era isso que tinha de fazer; que podia confiar nele.
   -  bonito - murmurou. Podia sentir a beleza e a tranquilidade daquele lugar, que comeava a sosseg-la. - H quanto tempo trabalho aqui?
   Max colocou-se atrs dela. At se sentava de maneira diferente, pensou, no direita como uma vassoura, como se estivesse preparada para a batalha. De alguma maneira,
parecia ter-se suavizado.
   Deixando-se levar pelo que a sua intuio lhe dizia, Max pousou a mo no seu ombro.
   - No muito. S um par de meses. Ainda estavas a adaptar-te ao trabalho.
   - Ento no sabes nada sobre mim? - perguntou Kristina, desiludida.
   - S o que escreveste no teu curriculum - o desespero que via no seu rosto fez-lhe acrescentar:
   - E o que me contaste,  claro.
   - Posso v-lo? - perguntou Kristina de repente.
   Oh, acabava de cometer um erro!
   - Ver o qu?
   - O meu curriculum - talvez l houvesse algum dado que pudesse servir-lhe de ajuda. Um nmero de telefone, uma morada...
   - Claro - Max tentou dissimular o seu incmodo com um sorriso. - Tentarei localiz-lo. June tem o balco da recepo num desastre.
   Outro nome para acrescentar  j comprida lista de nomes que no significavam nada para ela. A dor de cabea era cada vez mais insistente.
   - June? - perguntou com uma expresso de dor.
   - A recepcionista.
   - Oh! E sou solteira?
   Max desceu o olhar para as mos de Kristina. No levava nenhuma jia, mas o bronzeado tinha deixado uma leve linha no seu dedo esquerdo. Teria havido ali um anel
recentemente?
   - Eh...no.
   Max sentou-se ao seu lado. A sua mente corria a toda a velocidade enquanto procurava uma explicao verosmil. Ele era um homem honesto por natureza, mas o destino
e Kristina tinham-lhe brindado a oportunidade perfeita de ganhar tempo para o hotel. Ele tinha querido, desde o primeiro momento, que Kristina levasse algum tempo
a conhecer o hotel. Tinha a esperana que, quando o conhecesse, fosse capaz de chegar a sentir o mesmo que ele sentia por aquele lugar.
   Naquelas circunstncias, o acidente de Kristina era como um presente dos deuses.
   Mas o que ia dizer-lhe?
   Decidiu inspirar-se no anel que parecia faltar no seu dedo.
   - No, chegaste aqui depois do teu divrcio.
   - Estou divorciada? - perguntou com assombro.
   Isso significava que tinha havido algum na sua vida que j no estava. Essa ideia parecia evocar alguma lembrana distante. Levantou o olhar para Max. Talvez
lhe tivesse confiado os seus problemas. Max parecia um homem no qual se podia confiar. Parecia um homem amvel, compreensivo.
   - O que aconteceu?
   - No sei. No me contaste muitos detalhes. Kristina tentou em vo esconder a sua decepo. Comentaste que querias afastar-te e comear uma nova vida - tentou
aprofundar no que lhe parecia um assunto seguro. - Quando chegaste aqui, estavas muito afectada. Disseste que tinhas visto um anncio no qual pedamos criadas de
quarto num jornal local, enquanto estavas de frias em La Jolla, e decidiste que era a oportunidade ideal.
   Teria que colocar os outros a par dos acontecimentos, pensou Max. E rapidamente. Max levantou-se e apontou com a cabea para a cama.
   - Por que no te deitas um pouco e tentas descansar?
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   Kristina estava exausta e a cabea voltava a palpitar outra vez. Mesmo assim, parecia estar  espera que algum lhe indicasse qual era a sua rotina.
   - No tenho que trabalhar hoje?
   - Aqui temos um ambiente de trabalho muito relaxado - Max sorriu. - Quando algum se magoa na lareira, deixamo-lo descansar.
   Kristina tentou lembrar-se. Aquilo tinha que ter sido a ltima coisa que lhe tinha acontecido. Por que no conseguia lembrar-se?
   - Foi o que me aconteceu? Fiz um golpe na cabea na lareira?
   Pelo menos nisso podia dizer-lhe a verdade.
   - Sim.
   - E o que estava a fazer? Max pensou rapidamente.
   - A limpar uma tapearia. s muito conscienciosa no teu trabalho.
   Aquilo agradou-lhe. De alguma maneira, j sabia algo sobre si mesma. Sabia que gostava de trabalhar. Mas como criada de quarto?
   Mas que motivo podia ter Max para lhe mentir?
   No parecia um homem mentiroso. Kristina no fazia a menor ideia como  que sabia isso dele, mas sabia.
   Max no queria deix-la ali sentada. Que aconteceria se voltasse a cair?
   - Por que no te deitas um pouco? - sugeriu-lhe outra vez. Pelo menos assim, estaria fora de perigo.
   A primeira coisa que faria seria alertar os outros, pensou Max. E depois chamaria Daniel para lhe perguntar sobre a mudana inesperada dos acontecimentos. Talvez
devesse lev-la ao hospital.
   - De acordo - respondeu Kristina.
   Max agarrou-lhe a mo. Kristina no protestou,
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   pelo contrrio, estendeu-lhe a mo e sorriu, agradecendo a sua ajuda.
   Isso sim, era uma mudana, pensou Max.
   - Virei ver-te mais tarde - prometeu-lhe. Estava j na porta quando Kristina o chamou.
   - Max?
   Max olhou para ela por cima do ombro.
   - Sim?
   - Importar-te-ias de ficar comigo? - sabia que lhe estava a pedir muito, que certamente Max era um homem ocupado. - Isso far-me-ia sentir melhor.
   Kristina no poderia explicar porqu; nem sequer ela o sabia. Mas ter ali algum, algum que sabia quem era, ajudava-a a diminuir a assustadora sensao de estar
indefesa que a invadia.
   Max sabia que devia inventar alguma desculpa. Sabia que Kristina o acusaria de se ter aproveitado dela quando recuperasse a memria.
   - Claro.
   Como podia negar-se? Kristina parecia to perdida... No se parecia em nada  mulher que era h duas horas atrs.
   Sentou-se ao seu lado na cama. Ligeiramente envergonhada, Kristina pegou na sua mo e aconchegou-se contra ele.
   Max sentiu que a boca lhe secava. Aquela mulher era uma autntica beleza. E a sua beleza afectava-o muito mais intensamente desde que tinha abandonado a sua atitude
altiva. Mas lembrou a si mesmo que tanto a sua amnsia como a sua mentira eram algo completamente temporrio.
   - Queres que te conte uma histria? - perguntou-lhe com ironia.
   - S se no final a princesa recuperar a memria.
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   Max abanou a cabea.
   - Sinto muito, mas tenho um repertrio muito limitado. As nicas que eu sei so de princesas que beijam sapos e comem mas envenenadas.
   -  uma pena - respondeu ela suavemente. Sim, era uma pena. E tambm era uma pena que Kristina no fosse sempre assim. Havia algo muito agradvel em Kristina
Fortune quando no olhava para ele como se estivessem a ponto de comear um combate de boxe.
   - Que raios vou fazer agora contigo? - murmurou para si.
   Kristina estava quase a adormecer e sentia-se muito cansada para responder, mas ouviu-o e pensou que pretendia dizer que no poderia trabalhar no seu estado.
E prometeu-se demonstrar-lhe que era capaz de fazer bem o seu trabalho.
   Max esperou at ter a certeza que Kristina estava a dormir para se levantar. Logo quando abriu a porta, reparou que a mala de Kristina estava em cima da secretria.
A sua pulsao acelerou-se. Sem afastar os olhos de Kristina, agarrou na mala e saiu para o corredor. O quarto ao lado do de Kristina estava vazio. Entrou, fechou
a porta atrs de si e, com movimentos rpidos e precisos, revistou o contedo da mala.
   Nele no havia cartas, nem facturas no seu nome. Mas tinha uma agenda personalizada, para alm da carteira.
   No sabia quanto tempo duraria aquela farsa, mas no queria arriscar-se a que Kristina descobrisse a verdade antes do tempo.
   Max decidiu que a reunio com o resto dos empregados podia esperar. Antes queria ouvir Daniel.
   Aps muito insistir com a recepcionista, que lhe dizia que o doutor Valente lhe telefonaria quando tivesse terminado o seu horrio de consulta, Max conseguiu
que o seu amigo se pusesse ao telefone.
   - Espero que seja algo importante, Max - advertiu-lhe Daniel.
   - E .
   Contou-lhe rapidamente a conversa que tinha mantido com Kristina.
   Daniel ouviu com ateno. Quando acabou, fez-se um longo silncio at que o mdico comentou:
   - Parece que sofre de um ataque de amnsia.
   - Sim, isso j eu tinha imaginado. Mas o que posso fazer?
   - No podes fazer nada. S esperar.
   - Quanto tempo? - perguntou Max com impacincia.
   - Isso nunca se sabe. Um dia, uma semana...
   - E poderia ficar assim para sempre? Daniel suspirou pesadamente.
   - Poderia.  muito pouco provvel - acrescentou rapidamente, - mas h casos nos quais o paciente nunca recupera a memria. Tenta rode-la de coisas familiares.
Nunca se sabe o que  que pode devolver-lhe a memria. Pode ser algo relativamente insignificante. Um cheiro, um olhar, uma fotografia... De qualquer forma, se queres,
passarei esta noite a para a ver.
   - Agradecia-te, Daniel.
   Max desligou o telefone e olhou para ele com uma expresso pensativa. As palavras de Daniel continuavam a ressoar no seu crebro: rode-la de coisas familiares.
   No havia nada de familiar em redor de Kristina, o que poderia chegar a ser uma vantagem. Aquela situao
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   tinha um enorme potencial. Graas ao seu estado, Kristina poderia chegar a conhecer sem preconceitos que turvassem a sua opinio o funcionamento do hotel.
   E talvez, quando recuperasse a memria, a sua experincia a fizesse chegar  concluso que no era necessrio remodel-lo. E o mais importante, se chegasse a
fazer amizade com o resto dos empregados, no insistiria em despedi-los.
   - June - gritou enquanto saa do seu escritrio, - rene todos, est bem? Tenho algo a anunciar-vos.
   Seis
Era ela, mais que John Murphy, quem realmente dirigia o hotel. John era mais um anfitrio que um homem de negcios e Sylvia estava encantada de deixar que o seu
marido se dedicasse ao que mais gostava.
   Ambos adoravam aquele lugar e isso notava-se no ambiente e nas pessoas que contratavam.
   A trs dos empregados, June, Sam e Jimmy, Max conhecia-os desde que tinha sido adoptado pelos Murphy. Sidney e Antnio eram relativamente novos, mas tinham-se
adaptado muito rapidamente ao ambiente do hotel e j faziam parte da famlia, igual aos outros. De uma famlia que, se assim o decidisse, tinha todo o direito do
mundo a permanecer intacta.
   Mesmo assim, enquanto explicava o ocorrido s cinco pessoas que June tinha convocado para aquela inesperada reunio, Max no pde evitar
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   sentir-se como um homem que estava a fazer algo de mal.
   Sam Beaulieu permanecia sentado numa das duas cadeiras disponveis do escritrio. Ouvia com ateno, com as mos entrelaadas no colo.
   - E no se lembra de absolutamente nada? perguntou.
   - No - respondeu Max.
   - Nada de nada? - Sidney parecia assombrada.
   - De nada - respondeu Max com nfase. Mas no sei quanto tempo pode durar esta situao. Perguntei a Daniel e ele diz que  imprevisvel. Um dia, uma semana...
ou talvez at mais.
   - Pobre rapariga - murmurou June com compaixo.
   Max riu bruscamente. June deveria poupar a sua compaixo para melhores causas.
   - Sim, pois essa pobre rapariga estava disposta a despedir-vos a todos se achasse necessrio. E esta  a nica oportunidade que Sua Alteza Real vai ter de ver
a vida do vosso lado. Especialmente do teu, Sidney - Max olhou para a jovem.
   - Do meu?
   - Exacto. Quero que lhe ensines como tudo funciona.
   Aquilo no tinha sentido para ela.
   - Mas porqu? - admirada, olhou para June, mas esta limitou-se a encolher os ombros.
   - Porque, agora mesmo, decidi que a menina Fortune acredita que se chama Kris Valentine e que  uma mulher que se divorciou recentemente e est a tentar mudar
a sua vida enquanto trabalha neste hotel como criada de quarto.
   Sidney franziu o sobrolho.
   - Outra criada de quarto? Max sorriu de orelha a orelha.
   78
   - Sim - ps-se repentinamente srio. - Se Kristina se adaptar  rotina do hotel, comear a perceber que isto  algo mais que um negcio, e talvez dessa forma
possamos convenc-la que deixe o hotel tal como est.
   Sam assentiu lentamente.
   - A mim parece-me bem.
   - Conta com a minha ajuda - ofereceu-se Jimmy com entusiasmo. Nem sequer era capaz de se imaginar a viver fora daquele lugar.
   Sidney e Antnio tambm assentiram, dispostos a apoiar qualquer sugesto de Max. S June parecia um pouco reticente.
   - H alguma coisa que no te agrade? - perguntou-lhe Max.
   Havia muitos cabos soltos que deveriam atar, pensava June.
   - Que fars se algum dos Fortune telefonar?
   Se o resto da famlia era to encantador e carinhoso como Kristina, tinha a sensao que ningum telefonaria.
   - Ocupar-nos-emos disso quando acontecer encolheu os ombros. - Mas no acredito que algum telefone. Provavelmente, estaro encantados de a terem perdido de vista.
   - Claro - murmurou Sidney, que no tinha gostado dos modos altivos de Kristina e no achava graa nenhuma  ideia de ter de trabalhar a seu lado. Olhou para Max
com o sobrolho franzido: - E no podias coloc-la a trabalhar com Sam na cozinha? A verdade  que no me apetece que trabalhe comigo.
   Max sorriu de orelha a orelha.
   - No te preocupes, Sid. Agora parece muito mais amvel que antes.
   Sidney riu com ironia.
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   - Acreditarei quando vir.
   Antnio apoiou a afirmao de Sidney e Jimmy murmurou algo sobre o desdm com o qual Kristina tinha olhado para o seu jardim.
   - Ontem entrou na cozinha e comeou a dizer-me que devia organiz-la de forma mais eficiente. E eu nem sabia quem era - disse Sam, com a ofensa ainda recente.
   - Isso  muito fcil de averiguar - disse Antnio. -  uma autntica bruxa.
   Max no chegava a entender a que se devia o seu repentino impulso de sair em defesa daquela mulher  qual considerava absolutamente irritvel e snobe. Talvez
fosse porque nesse momento Kristina no era capaz de o fazer por si mesma. Ou porque tinha a sensao de lhe dever algo por lhe ter mentido.
   Fosse qual fosse a razo, interrompeu bruscamente a discusso.
   - Bom, em qualquer caso, agora est a comportar-se como uma mulher diferente.
   - J veremos - murmurou Sidney.
   Quando os empregados abandonaram o escritrio, Max olhou para o relgio. J era muito tarde para ir  obra. Tentou tranquilizar a sua conscincia lembrando-se
que Paul podia conduzir perfeitamente os homens. E ele poderia ficar no hotel at ao dia seguinte pela manh.
   Decidiu telefonar ao seu amigo para lhe dizer. O telefone tocou mais de dez vezes e estava quase a desligar quando Paul atendeu.
   - Demoraste muito tempo - reprovou Max com impacincia.
   - Eh, alguns de ns temos coisas melhores a fazer do que passarmos o dia  espera de telefonemas
   - gracejou Paul. Era difcil ouvi-lo com todo o rudo da obra. - Os camies de cimento chegaram com atraso, mas finalmente chegaram.
   - Obrigado por te ocupares de tudo - agradeceu-lhe Max. - Temo que no vou poder passar por a hoje. Digamos que me encontro numa situao um pouco complicada.
   Paul notou a tenso que a sua voz reflectia. E sabia que Max no se alterava facilmente.
   - A coisa  mais sria do que pensavas?
   - De certo modo - resumiu-lhe rapidamente a situao, mas no havia maneira de minimizar o aparente ataque de amnsia de Kristina. Paul ouviu em silncio e acabou
por soltar um assobio.
   - E que vais tu fazer? Contactaste com algum da sua famlia para que a v buscar?
   Max naquele momento sentiu-se como o Pinquio a falar com o Grilo Falante. Mas rapidamente calou a sua conscincia.
   - No, ainda no. J sabes como  essa gente, no acho que algum tenha saudades dela. Aparentemente, os negcios mantm-nos muito ocupados
   - No ls os jornais, Max?
   - Ultimamente no, porqu?
   - Ao que parece, prenderam um Fortune por ter assassinado uma mulher, essa antiga actriz, Mnica no sei qu. Talvez o resto da famlia esteja a tentar escapar
enquanto ainda h tempo.
   - Bom, seja qual for a razo, o facto  que no parecem estar muito interessados por Kristina. E isso converte-a num problema meu - sabia que estava a adoar
a situao, mas Paul no tinha por que participar daquela farsa. - E enquanto me ocupo disso, tentarei demonstrar-lhe como funciona o hotel.
   Paul deu uma gargalhada carregada de insinuaes.
   - E, no meio disso tudo, como  que tu ficas? Max pensou no que se tinha passado na praia,
   mas a ltima coisa que queria era envolver-se sentimentalmente com uma mulher como Kristina Fortune.
   - No, nisso no h perigo nenhum. Esta mulher d cabo dos homens. Mastiga-os e depois cospe-os - mas pensou em como tinha olhado para ele ao recuperar a conscincia.
- Ou pelo menos fazia-o, at ter perdido a memria. Agora quase que se pode dizer que  uma mulher dcil. Sabes?  uma coisa muito estranha...
   - O qu?
   - Bom, v-la agora  como ver o negativo de uma fotografia.
   Apesar de estar casado h dez anos, ou talvez por isso, Paul nunca tinha entendido as mulheres. E quanto mais velho era, mais o confundiam.
   - Bom, desejo-te sorte, Max. Espero que saibas o que ests a fazer.
   Max riu para si.
   - J somos dois.
   Olhou para a janela, para as ondas que acariciavam lentamente a margem. Dali desfrutava da mesma vista que Kristina. Lembrou-se ento que o quarto da jovem estava
precisamente em cima do seu e baixou a voz, embora soubesse que era impossvel que o ouvisse.
   - Ver-te-ei amanh na obra, prometo-te.
   - No  que no tenha saudades tuas, mas no tenhas pressa em voltar. Est tudo sob controlo. Pelo menos uma vez, tudo est dentro dos prazos previstos.
   - Dos prazos que tivemos que rever - lembrou-lhe

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   Max. - Tenta ver o que podemos fazer para os adiantarmos.
   - De acordo, usarei o chicote. Max riu.
   - At amanh.
   Paul desligou o telefone e Max colocou o auscultador no seu lugar. Olhou depois para o tecto, perguntando-se o que Kristina estaria a sentir naquele momento.
   Nervoso, saiu para a recepo, precisamente a tempo de ver os Abbot. Aquele casal idoso, que tinha convertido em hbito passar ali a ltima semana do ms de Janeiro,
prometeu voltar no ano seguinte.
   - Viremos para o ano que vem pelas mesmas datas.
   - Estaremos  vossa espera - disse-lhes June com um sorriso carinhoso.
   - E aqui estaremos - a senhora Abbot olhou para o seu marido.
   - Claro - confirmou o senhor Abbot. - A tempestade de ontem  noite foi particularmente romntica, no foi, Edna?
   A senhora Abbot corou.
   - Acha que voltou a ter sessenta e cinco anos confiou a June entre risos.
   Max observou o casal a ir-se embora de brao dado. Sidney acompanhou-os  porta enquanto Antnio lhes levava as malas. Aos seus oitenta anos, os Abbot pareciam
continuar muito apaixonados. Com uma inesperada inveja, Max perguntou-se como podiam ter tanta sorte.
   June reparou na sua expresso.
   - H pessoas que te fazem acreditar na bondade do mundo, no ?
   - s uma romntica incurvel, June.
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   Com a sada dos Abbot, j s ficavam quatro quartos ocupados. Doze estavam vazios, no contando com o que Kristina ocupava. Max franziu o sobrolho enquanto olhava
para o livro no qual se registava a chegada e a partida dos hspedes. Estudou a curta coluna dos registos de entrada. Tinha que reconhecer que o negcio podia ir
melhor, mesmo que estivessem em poca baixa.
   Deus, estava a comear a pensar como Kristina, pensou, estremecido.
   - Kris j desceu? - perguntou a June.
   - Eu no a vi - olhou para o relgio. - Queres que algum lhe leve o almoo? J  quase horas de comer.
   Max lembrou-se ento que tambm ele no tinha comido nada o dia inteiro. O que tinha acontecido com Kristina tinha-lhe tirado o apetite, mas acabava de o recuperar.
Iria buscar algo  cozinha.
   - No, eu farei isso - decidiu em voz alta. Pelo menos, assim teria uma desculpa para ir ver como estava.
   - Sabia que ias dizer isso - murmurou June, sorrindo para si.
   - No te preocupes comigo - disse Max a Sam enquanto levantava a bandeja.
   Era uma das bandejas que utilizavam quando algum hspede pedia que lhe levassem o pequeno-almoo ao quarto. Era uma bandeja de carvalho, com um espao destinado
ao jornal e s revistas. Numa das esquinas, havia um espao destinado a pr uma jarra.
   - Mas Max, se tens fome, posso preparar-te alguma coisa...
   - No  para mim. Vou lev-la  Kris.

   Sam voltou-se ento para a bandeja e comeou a cortar umas batatas cozidas com gesto de vingana.
   - Nesse caso, o veneno para os ratos est no fundo da despensa.
   Max sorriu enquanto Sam lhe colocava um prato de salada na bandeja.
   - T-lo-ei em conta.
   Juntou uma chvena de caf  bandeja e meteu alguns pacotes de acar no bolso. Levando com extremo cuidado a bandeja, saiu da cozinha e subiu pela escada de
servio at ao quarto de Kristina. Deixou a bandeja numa das mesas do corredor e bateu suavemente  porta. Como no obteve resposta, girou a maaneta da porta. Kristina
no se tinha incomodado em fech-la  chave. Perguntando-se se a jovem teria piorado, Max empurrou a porta com o cotovelo e entrou no quarto.
   Kristina olhou imediatamente para a porta. Estava deitada desde que Max se tinha ido embora, tentando procurar alguma coisa na sua mente que pudesse dizer-lhe
algo de si mesma. Mas s encontrava fragmentos de sombras que se desvaneciam cada vez que tentava apanh-los.
   - Estou acordada - disse suavemente.
   Com muito cuidado, Max deixou a bandeja ao lado da cama.
   - Quando bati no respondeste.
   - No te ouvi - confessou. - Estava a pensar. Ou a tentar pensar.
   Kristina sentou-se na cama. Esperou que a sensao de enjoo chegasse, mas no chegou. Uma pequena vitria.
   Entrelaou as mos  volta das pernas e olhou para a bandeja. Max observou o seu cabelo comprido a esvoaar como uma cortina sedosa  volta
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   do seu pescoo e tentou no pensar no aspecto sensual que tinha.
   Na bandeja, Kristina viu um prato com trs tipos diferentes de salada, alm de uma chvena de caf. Gostaria de salada?, perguntou-se. Gostava de caf? No sabia.
   - Sabes o que se sente ao no ter nada em que pensar? No tenho nada na cabea. Nem imagens, nem sentimentos. Sinto-me como uma pgina em branco.
   Max gostou daquela imagem.
   - Como uma pgina em branco  espera que algum escreva nela - comentou, consciente, que ele ia ser o escritor.
   Kristina sorriu-lhe. E se Kristina no fosse Kristina Fortune, Max teria dito que era um sorriso tmido, mas "tmida era um adjectivo que dificilmente podia aplicar-se
a Kristina Fortune.
   Mas, reflectiu, Kris no sabia que era Kristina Fortune. E talvez estivesse a mostrar uma caracterstica da sua personalidade que normalmente deixava escondida.
   Kristina brincou com o garfo.
   - Gosto de salada?
   Max girou a cadeira que havia ao lado da cama e sentou-se nela.
   - Por que no provas?
   Kristina f-lo e assentiu, satisfeita com aquela descoberta.
   - Sim, gosto - levantou o olhar para Max antes de comer outro bocado. - Foste muito amvel ao trazer-me o almoo.
   Max preferia que no se mostrasse to grata. Encolheu os ombros, um pouco incomodado.
   - No podia deixar que morresses de fome permaneceu uns segundos em silncio, com o olhar
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   fixo na janela. Parecia-lhe mais fcil que olhar para ela. - O mdico vir ver-te esta tarde. Kristina no sabia que estava to faminta.
   - H um mdico no hotel? - perguntou entre garfadas.
   - No,  um amigo meu - Max alegrava-se de poder falar de algo que no fosse o estado no qual Kristina se encontrava. - Daniel cresceu comigo no hotel.
   Kristina absorvia como uma esponja toda a informao que lhe davam.
   - Cresceste aqui?
   - Sim - no que lhe dizia respeito, a sua vida tinha comeado no momento em que tinha passado a porta do hotel.
   Kristina pareceu detectar algo na sua voz e inclinou a cabea, tentando identific-lo. Seria nostalgia? Felicidade?
   - Este deve ter sido um lugar maravilhoso para um menino - teria ela crescido num lugar igualmente adorvel, com umas vistas to maravilhosas?
   Max sorriu enquanto voltava a olh-la nos olhos.
   - No era assim to pequeno. Cheguei aqui aos treze anos.
   Ao terminar a salada, Kristina bebeu a chvena de caf.
   - Foi quando os teus pais compraram o hotel?
   - No, foi quando os servios sociais me enviaram para aqui para evitar que acabasse numa casa de correco para jovens problemticos.
   Ao ver a sombra que nublava o seu olhar, Kristina esqueceu-se da sua prpria situao.
   - No te compreendo...
   A bandeja abanou na cama. Max levantou-se e colocou-a sobre a mesa-de-cabeceira.
   - Os antigos proprietrios do hotel so os meus pais adoptivos.
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   - s rfo?
   Max olhou para ela com estranheza. Era compaixo o que tinha ouvido na sua voz? Em circunstncias normais, t-lo-ia repugnado. Nunca tinha gostado de inspirar
pena ou compaixo. Mas a compaixo de Kristina tinha conseguido chegar-lhe ao corao.
   -  uma forma de o dizer.
   - No entendo. Ou se  rfo ou no se .
   - Digamos que me sentia como se o fosse - especialmente quando o levavam de uma casa para outra na qual a nica coisa que queriam era o cheque mensal que a sua
presena assegurava. - Mas legalmente no sou. Provavelmente os meus pais ainda esto vivos em algum lado - Escapou-lhe dos lbios um riso carregado de amargura.
- No os reconheceria mesmo que passasse por eles.
   Sem pensar, Kristina procurou a sua mo. Que histria to triste, pensou.
   - Como  que acabaste nos servios sociais? Quase contra a sua vontade, Max ouviu-se dizer:
   - Lembro-me que acordei uma manh no quarto de um motel. Essa  a primeira lembrana que tenho da minha infncia. Tinha quatro anos. Talvez cinco. Quando penso
no passado, fico consciente que o motel no era nem sequer to grande como este, mas a mim parecia-me enorme. Enorme e vazio - falava como se tudo tivesse acontecido
com outra pessoa. - Os meus pais tinham-se ido embora a meio da noite, deixando no motel tudo o que no queriam levar com eles. Eu era uma das coisas que eles no
queriam levar.
   Kristina abriu os olhos como holofotes.
   - Oh, Max, lamento muito.
   Max aclarou a garganta. No tinha a menor ideia de como tinha chegado quela situao. Ele s pretendia
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   manter uma conversa com Kristina para saber como se sentia. No tinha inteno de reviver algo em que no pensava h anos. Algo em que nem sequer se tinha atrevido
a pensar.
   - No h nada que lamentar. A verdade  que estou melhor sem eles. Se no me tivessem abandonado, nunca teria conhecido os Murphy.
   Algo que agradeceria sempre, porque os Murphy tinham salvo a sua alma, tinham convertido um adolescente destinado a viver na ilegalidade numa pessoa decente graas
ao seu exemplo.
   De certeza que estariam orgulhosos dele naquele momento, pensou com ironia, enquanto olhava para Kristina.
   - Suponho que no final tudo acabou da melhor maneira possvel - murmurou Kristina. Deixou a chvena de caf vazia na mesa-de-cabeceira. - Espero que isso tambm
se possa aplicar a mim.
   - De certeza que sim.
   Kristina desejou poder acreditar nele. Desejou poder acreditar em alguma coisa, no que quer que fosse.
   - Pareces muito certo de que vou pr-me boa.
   - O mdico confia em que seja algo temporrio. Disse-me que qualquer coisa pode fazer-te recuperar a memria.
   - Uma informao reconfortante - Kristina suspirou e esticou-se na cama. - Estava muito bom
   - comentou, apontando para a bandeja.
   - Direi a Sam.
   - Sam?
   - Sim, Samuel, o cozinheiro.
   Kristina no conseguiu atribuir um rosto quele nome, mas tentou no se deixar abater.
   - Tenho a sensao que ainda tenho muito que aprender.
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   Max tinha que se ir embora dali antes de cometer alguma estupidez, como acabar por dizer-lhe a verdade, por exemplo, pensou. Se Kristina se lembrasse de quem
era, no teriam qualquer oportunidade.
   - Tenta no ficar nervosa. Todos tentaremos ajudar-te no que pudermos. Hoje tira o dia e, se te apetecer, amanh poders comear a trabalhar.
   - Gostaria muito de comear a trabalhar amanh. Quanto mais depressa voltar  minha rotina habitual, mais cedo poderei recuperar a memria.


   Sete
   Quando no dia seguinte pela manh abriu os olhos, a memria de Kristina era to limitada como no dia anterior.
   O mdico que tinha ido v-la tinha sido muito amvel com ela. Ele e Max tinham-na levado ao hospital para fazer uns exames, mas l tinham chegado h mesma concluso:
no havia nada que indicasse a existncia de um dano fsico, de modo que, provavelmente, a amnsia seria temporria.
   A nica coisa que podia fazer era esperar.
   E assim fez.
   Tinha sonhado durante a noite, mas, ao acordar, no sabia nem onde nem com quem.
   A frustrao consumia-a. Sentia-se to indefesa, to exposta! Teria algum segredo? Haveria algo importante na sua vida que precisasse de saber? Haveria algum
que se preocuparia se no lhe telefonasse?
   Mas ningum lho diria.
   Obrigou-se a soltar o ar lentamente, tentando tranquilizar-se. No podia deixar-se abater quando s contava com as suas prprias foras.
   91
   Afastou os lenis; estava muito nervosa para ficar na cama. Olhou para o relgio. Ainda era muito cedo. Perguntou-se se estaria acostumada a levantar-se cedo
ou se fora a ansiedade que a tinha acordado. Aquilo era o pior, no saber nada de si mesma. Nem sequer como se penteava habitualmente.
   Kristina olhou para o seu reflexo no espelho e passou as mos pelo cabelo comprido. Usaria o cabelo solto ou apanhado? Com o risco ao meio ou ao lado?
   Experimentou com curiosidade vrios penteados e decidiu deix-lo solto. Sentia-se como um beb a dar os seus primeiros passos, sem saber se ia chegar ao outro
lado do quarto ou se acabaria por cair muito antes.
   Estava a acabar de se vestir quando bateram  porta.
   - Sim?
   -  Max.
   Max ficou surpreendido quando abriu a porta. Kristina parecia alegrar-se sinceramente de o ver.
   - Pensei que poderias comear a trabalhar esta manh. A menos que no te sintas bem.
   - Oh, eu estou bem - respondeu num instante.
   - Ou pelo menos, o mximo que posso estar nestas circunstncias - baixou os olhos para a roupa que acabava de vestir. - Esta roupa est bem? No tenho que levar
uniforme ou algo parecido?
   Max felicitou-se pela sua capacidade de previso. Na tarde anterior, enquanto Daniel e ele levavam Kristina ao hospital, Sidney tinha pendurado toda a roupa de
Kristina no armrio. Se Kristina tivesse descoberto a sua mala por desfazer, poderia ter-lhe feito perguntas que ele ainda no estava em condies de responder.
Naquele dia, Kristina tinha vestido uma saia de ganga e uma blusa do mesmo tecido. Um modelo
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   aparentemente simples, mas que, sem dvida alguma, levava a marca de um bom estilista.
   - Assim ests muito bem. Aqui ningum usa uniforme. Ns gostamos de coisas simples. Se j ests pronta, por que no desces comigo at  sala de jantar?
   Kristina seguiu-o at s escadas.
   - Sonhei contigo - disse de repente. - Ou pelo menos, acho que eras tu - mas nem sequer disso podia lembrar-se nitidamente. - Parece que no posso lembrar-me
de nada.
   Max parou ao fundo das escadas e deslizou o brao pelos seus ombros com a benevolncia de um irmo mais velho.
   - Lembrar-te-s, Kris, acabars por te lembrar a nica coisa que esperava era que no o fizesse to cedo.
   Max conduziu-a at  sala de jantar. Dada a hora que era, sabia que Sidney estaria l, a preparar as mesas para os hspedes. De vez em quando, tambm iam ao hotel
pessoas dos arredores, mas isso era principalmente durante os fins-de-semana.
   Naquele momento, no havia ningum na sala de jantar excepto Sidney. Esta levantou os olhos ao ouvi-los entrar e a sua expresso amistosa desapareceu ao ver Kristina.
   - Bom dia - cumprimentou com frieza.
   - Bom dia, Sidney. Kris diz que hoje se encontra melhor.
   - Que bom - murmurou Sidney sem levantar os olhos.
   Max pousou a mo nas costas de Kristina e detectou a tenso dos seus ombros. Quase se compadecia dela. Mas s quase.
   - Temo qu vais ter de ensinar a Kris a fazer as suas tarefas outra vez.
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   Sidney encolheu os ombros e assentiu.
   - Claro, Max, se  isso que tu queres.
   Kris no tinha memria nem qualquer experincia que a ajudasse a julg-lo, mas jurava que havia condenados  morte que tinham recebido convites mais sinceros.
   Ficou completamente paralisada. De onde tinha surgido aquela ideia? Conheceria algum que tivesse sido acusado de assassinato? Bastou pensar nisso para que o
seu corao comeasse a bater violentamente, mas no se lembrou de nada.
   De certeza que aquela reaco tinha sido provocada pelos nervos e pela insegurana, disse a si mesma. A sua mente continuava em branco e por isso tinha tendncia
a ampliar qualquer pensamento.
   Max notou a sua mudana de expresso.
   - Que se passa? - perguntou-lhe.
   - Nada. Achava que ia lembrar-me de alguma coisa - suspirou, - mas foi impossvel.
   - No te esforces. Lembrar-te-s quando menos esperares - sentiu os olhos de Sidney fixos nele e, ao levantar os olhos, descobriu nos seus lbios a sombra de
um sorriso. - Ver-te-ei esta noite - prometeu a Kristina.
   Kristina olhou para ele, aterrada.
   - Vais-te embora?
   Max comeou a aproximar-se da porta. Tinha a sensao que, se no se fosse embora nesse momento, no seria capaz de ir. E no podia dar-se ao luxo de abandonar
a sua empresa.
   - Tenho que ir. Tenho uma empresa de construo a dirigir.
   Kristina cada vez estava mais confusa. Olhou para Sidney e depois para Max
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   - Mas eu achava que tinhas dito que eras o director do hotel.
   - E  - interveio Sidney, e agarrou-a pelo brao, - mas a empresa de construo  algo que levantou por si mesmo - Sidney dirigiu a Max um ltimo olhar, acompanhado
naquela ocasio por um carinhoso sorriso que contrastava notavelmente com a frieza com a qual olhava para Kristina.
   - Vejo-vos esta noite - repetiu Max.
   Sidney apenas sorriu como resposta. E o sorriso desapareceu completamente dos seus lbios quando Max se foi embora.
   - Vamos - disse para Kristina. - Temos que limpar dezasseis quartos antes da hora do almoo.
   - Dezasseis? - Kristina seguiu Sidney enquanto esta saa da sala de jantar. - Esto todos ocupados?
   - Agora s h quatro casais hospedados, mas no deixa de haver p nos quartos l porque no h pessoas neles. Limpamo-los todos os dias.
   Sidney tinha a sensao que aquele ia ser um dia muito longo. Com um gesto de resignao, conduziu Kristina para o pequeno quarto no qual guardavam os produtos
de limpeza.
   Kristina no tardou muito a compreender que aquele no era um dos seus melhores dias. A sensao de frustrao e inaptido foi crescendo ao longo de todo o dia,
ao mesmo ritmo que parecia esgotar-se a pacincia de todos.
   Comeou a trabalhar sob a tutela de Sidney e, quando esta a enviou para o quarto nmero quatro e lhe pediu que fizesse a cama, no foi capaz de fazer um trabalho
aceitvel.
   - Deixaste a dobra do lenol muito curta -
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   apontou Sidney. - Deixa que eu fao - deu uma cotovelada a Kristina para a afastar do seu caminho.
   -  impossvel que algum possa fazer isto mal.
   Kristina tambm pensava o mesmo.
   At que partiu um objecto de um dos quartos.
   - Oh, meu Deus! - apanhou os cacos e saiu para o corredor para ver se Sidney estava por perto.
   No estava. Rapidamente, levou os bocados partidos para o seu quarto. Com um pouco de sorte, poderia restaurar a figura antes que notassem o seu desaparecimento.
   Com um pouco de sorte, pensou com pesar. Mas at a esse momento, no parecia ser uma mulher de sorte.
   Sidney encontrava erros em tudo o que fazia. Kristina estava consciente que estava a fazer um mau trabalho, mas a verdade era que se sentia completamente fora
de lugar. Enquanto estava a passar o aspirador pelos quartos, tinha a sensao de no ter feito nada parecido em toda a sua vida e esteve quase a engolir uma cortina
toda com o aspirador.
   Sidney, farta da sua lentido, tirou-lhe o aspirador das mos e mandou-a ir trabalhar com Jimmy, o jardineiro.
   Jimmy estava de joelhos na parte de trs da casa, a cuidar de umas bonitas margaridas.
   Kristina aclarou a garganta, mas ele continuou a ignorar a sua presena. Finalmente, a jovem disse:
   - Sidney disse-me para vir ajudar-te.
   Jimmy levantou ento a cabea e semicerrou os olhos, tentando focar o olhar no seu rosto. Na realidade, no via praticamente nada que estivesse a mais de um metro
de distncia. No havia necessidade
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   nenhuma de usar culos, j que todo o seu trabalho consistia em aproximar-se das plantas.
   - Lembra-me de agradecer a Sidney pela sua considerao - nem sorriu nem franziu o sobrolho. Por outro lado, olhou para ela com resignao e apontou-lhe uma luva
de jardinagem. - Bom, suponho que poders fazer algo de til. Podes arrancar as ervas daninhas. E tenta ter muito cuidado com ela.
   - Com ela? - pensou que estava a tentar avis-la sobre Sidney e achou estranho.
   - O jardim. Trata-o como a uma dama - advertiu-lhe. - Ele notar se no o fizeres.
   O jardineiro apontou para o lugar no qual queria que comeasse a trabalhar. Estava a uma distncia considervel dele e Kristina perguntou-se se estaria a faz-lo
de propsito.
   O sol brilhava com fora enquanto ela ia arrancando as ervas daninhas e sacrificando todas as suas unhas. No fazia a mnima ideia de que havia tantos tipos diferentes
de ervas daninhas. Algumas tinham folhas pontiagudas, algumas arrancavam-se facilmente e outras pareciam resistir com todas as suas foras. Kristina pensou que estava
a fazer bem o seu trabalho at que ouviu um grito de protesto atrs dela.
   Levantou os olhos e viu Jimmy a fulmin-la com o olhar enquanto apontava para as ervas daninhas que tinha ido amontoando.
   - Mas o que  que ests a fazer, rapariga?! No sabes distinguir as ervas daninhas da cobertura vegetal do jardim?
   Aparentemente no. Kristina levantou-se.
   - Tenho muita pena.
   Jimmy no pareceu ouvi-la. Agachou-se, levantou uma planta e susteve-a em frente a Kristina, obrigando-a a enfrentar o seu crime.
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   No fazes a menor ideia de quanto me custou a fazer crescer esta planta, no ?
   - No - sussurrou Kristina.
   Jimmy lembrou-se do desprezo com o qual Kristina tinha olhado para as suas adoradas flores quando chegou.
   - No, tenho a certeza que no tens a menor ideia. Vai para dentro.
   Kristina tentou desculpar-se outra vez, mas Jimmy no a ouvia, continuava a refilar sobre a sua inaptido e sobre os assassinos de plantas. Com os olhos cheios
de lgrimas, Kristina dirigiu-se para o interior do hotel. No tinha a menor ideia de onde encontrar Antnio. Nem sequer sabia que aspecto tinha.
   Em qualquer caso, no teve que o procurar. Porque tropeou com ele, literalmente. Antnio era um homem alto e forte como uma parede de tijolo, mas a caixa de
ferramentas que levava entre as mos, no. A caixa acabou no cho depois daquele encontro e as ferramentas saram lanadas em todas as direces.
   - Oh, sinto muito! - Kristina ajoelhou-se e comeou a guardar as ferramentas na caixa.
   - No foi nada - Antnio levantou a caixa e comeava a escapar quando Kristina lhe perguntou:
   -  o Antnio?
   Antnio voltou-se para ela, incomodado.
   - Sim, porqu?
   - Jimmy disse-me que devia ajudar-te.
   - Oh, disse-te isso? - Ao fim de algum tempo, apareceu um sorriso nos seus lbios. - De acordo, vamos. Suponho que no me far mal nenhum ter  frente uma cara
bonita enquanto trabalho.
   Mas rapidamente descobriu quo errado estava. Kristina no soube entender as suas instrues
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   quando estava a arranjar a banheira de um dos quartos e abriu a torneira da gua. Numa questo de segundos, Antnio ficou completamente encharcado e acabou por
mandar Kristina para a cozinha.
   Sam no se mostrou muito entusiasmado ao v-la chegar. A sua reaco, acrescentada  dos outros, terminou de minar a pouca confiana que Kristina tinha em si
mesma. No podia compreender por que tinha decidido ficar a trabalhar com todas aquelas pessoas que, evidentemente, no gostavam dela.
   Mas porque  que no gostavam dela? Ter-lhes-ia feito alguma coisa? Perguntaria a Max quando tivesse oportunidade.
   Decidida a fazer as coisas da melhor maneira, aplicou-se com entusiasmo na tarefa que Sam lhe indicou.
   Mas descascar batatas tambm no era para ela, descobriu. No tinha a menor ideia de como agarrar na faca e desperdiava quase toda a batata. Depois de uns minutos,
Sam amaldioou-a num idioma que Kristina no entendeu e tirou-lhe a faca.
   Com a outra mo, apontou para as batatas que Kristina tinha deixado num alguidar.
   - Olha o que fizeste! Deixaste-as do tamanho de um berlinde! Meu Deus, vai para a sala de jantar pr as mesas e deixa-me em paz enquanto tento solucionar isto.
Sidney! - gritou. - Leva-a daqui!
   Resignada, Sidney voltou a assumir a sua tutela.
   Max chegou ao hotel por volta das sete, completamente esgotado. Tinha estado quase a ir da obra directamente para casa, mas a conscincia pesada e a curiosidade
no lho tinham permitido. Queria saber como tinha sido o primeiro dia de trabalho de Kristina no hotel.
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   E essa foi a primeira pergunta que saiu da sua boca quando chegou ao hotel aquela noite.
   June estava sentada atrs do balco da recepo, a ler. Parecia tranquila, e isso fez Max ter esperanas de que as coisas tivessem corrido sem problemas. No
tinha recebido nenhum telefonema de emergncia. E isso pelo menos indicava que Kristina ainda no se tinha lembrado de quem era.
   - Ol, June, que tal foi Kristina?
   Antes que June pudesse responder, ouviu-se um estrondo na sala de jantar.
   - Deve ter sido ela - comentou June.
   - Genial - Max compreendeu pelo seu tom de voz que aquela era uma indicao de como o dia tinha corrido. Suspirou. - Estarei no meu escritrio se precisares de
mim.
   Uma vez no seu escritrio, Max permitiu-se entregar-se ao cansao que tinha estado a persegui-lo durante todo o dia. Esticou as pernas e fechou os olhos. Talvez
no tivesse sido uma boa ideia pr Kristina a trabalhar, pensou.
   De facto, nesse momento, no lhe parecia nada uma boa ideia. Aquele tinha sido um dia muito longo para ele. Dois dos pedreiros no tinham podido ir trabalhar
e outros dois, que tinham sido contratados, eram muito inexperientes para trabalhos que diziam ser capazes de realizar com os olhos fechados.
   Estava a pensar nisso quando ouviu algum entrar no seu escritrio. Virou-se,  espera de encontrar qualquer um dos empregados, mas era Kristina. A Max lembrou-lhe
uma menina abandonada.
   - Max, posso falar um momento contigo?
   - Claro - Max endireitou-se na cadeira e fez-lhe um gesto para a convidar a entrar. Senta-te.
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   - Obrigada, mas prefiro ficar de p - parecia to nervosa que Max no pde deixar de se perguntar se teria recuperado a memria. - Isto no foi uma boa ideia.
   A desolao que o seu rosto reflectia despertou a compaixo de Max.
   - O que  que no foi uma boa ideia?
   - Trabalhar aqui - Kristina soprou. Doa-lhe ter de reviver o ocorrido durante o dia, mas sendo o seu chefe, Max tinha o direito de saber e preferia contar-lho
pessoalmente, antes que os outros o fizessem. - Parece que sou incapaz de fazer as camas, no sei distinguir as ervas daninhas do jardim e tambm no sei descascar
batatas.
   Recitou toda a lista de erros que tinha cometido. Todos eles pareciam insignificantes. Mas no eram, pelo menos para ela e para as pessoas com as quais tinha
trabalhado. Mostrou as mos a Max para que as visse. As suas unhas arranjadas estavam partidas, e tinha feridas em vrios dedos.
   O seu primeiro dia de trabalho, pensou Max, mas no experimentou a satisfao que tinha antecipado.
   Kristina suspirou e acrescentou:
   - Alm disso, deixei cair uma bandeja cheia de copos.
   Max teve que fazer um esforo para esconder o sorriso que assomava aos seus lbios.
   - J tinha ouvido.
   No parecia zangado, pensou Kristina. No teria entendido o que lhe estava a dizer?
   - Acho que sou um estorvo no hotel.
   Max ficou surpreendido que parecesse to afectada pelos seus defeitos. Surpreendeu-o e comoveu-o de uma maneira estranha.
   - No te preocupes com isso - disse-lhe suavemente.
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   Mas ela preocupava-se. Preocupava-se pelo mal que a fazia sentir-se a sua inaptido. No gostava de ser um estorvo. E no entendia por que Max o encarava com
tanta tranquilidade.
   - No te importas?
   Max levantou-se e deu a volta  secretria para se aproximar dela.
   - As pessoas precisam do seu tempo para se acostumarem a um posto de trabalho. Para ti, agora  como se tivesses que te adaptar a um trabalho completamente novo.
S espero que tentes no continuar a partir os copos - acrescentou com um sorriso.
   - Foi um acidente - disse ela num instante.
   - Esperava que no o tivesses feito de propsito.
   - Porque  que ia faz-lo de propsito?
   - Oh, podias estar zangada ou frustrada por causa de alguma coisa.
   - Eu nunca faria uma coisa assim - olhou para ele fixamente, perguntando-se se Max estaria a tentar insinuar alguma coisa. - Ou sim?
   - No, suponho que no - pelo menos, no a Kristina que estava a conhecer depois do acidente.
   Kristina mediu cuidadosamente as suas palavras.
   - Acho que devia ir-me embora, Max. Este trabalho no  para mim.
   Mas Max no podia permitir que se fosse embora naquelas condies. Se tentasse pr-se em contacto com a sua famlia, no sabia que tipo de dificuldades poderia
chegar a encontrar.
   - Claro que  para ti. S precisas de dar tempo ao tempo. Alm disso, todos se enganam alguma vez. Todos ns nos enganamos.
   Viu gratido no olhar de Kristina, e tambm algo mais que no conseguia decifrar.
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   - Que se passa?
   - Eu... acho que os outros empregados no gostam de mim.
   E isso parecia incomod-la. Quem  que teria imaginado?
   - Isso  s imaginao tua. No te esqueas que ests submetida a uma situao de muito stress. No sabes quem s nem onde ests.  lgico que estejas um pouco
paranica.
   Mas Kristina sabia que no era esse o problema. E no queria ficar num lugar no qual no a apreciavam. Mas a ideia de se ir embora tambm a fazia sentir-se incmoda.
Para onde poderia ir?
   - No sei - mordeu o lbio. - Tens a certeza que queres que eu fique?
   - Claro. Alm disso, para onde irias? - Max desejou esbofetear-se pelo que acabava de dizer, mas era a nica maneira de conseguir que Kristina ficasse no hotel.
- No tens ningum.
   Aquilo foi um duro golpe para Kristina. No se lembrava de ningum, mas saber que quando recuperasse a memria tambm no teria ningum a quem recorrer parecia-lhe
devastador.
   - No tenho ningum?
   Max desviou o olhar para poder responder:
   - No. Pelo menos, foi isso que me disseste. Chegaste aqui a tentar afastar-te de lembranas muito dolorosas. Depois de te divorciares - acrescentou. - E enquanto
estiveste aquijune disse que no recebeste nenhum telefonema pessoal.
   - Suponho que isso significa que sou uma mulher solteira. Mas no me lembro... - e aquilo estava a p-la maluca.
   - Pacincia - aconselhou-lhe Max. - De certeza que em breve te lembrars de tudo.
   Kristina estava a comear a criar certas dvidas a
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   esse respeito, mas parecia-lhe injusto. Reconfortada pela preocupao que Max mostrava, dirigiu-lhe um sorriso.
   - Se tu o dizes...
   Max desejou que a jovem no tivesse tanta f nele.
   - Eu digo. E agora, chega de conversa.
   - Sim, chega de conversa - repetiu Kristina. Obrigada por perderes o teu tempo a falar comigo
   - virou-se para se ir embora, mas antes de sair, perguntou: - Posso trazer-te alguma coisa?
   Max, que tinha comeado a rever os papis que June tinha acumulado na sua secretria durante as ltimas trs semanas, levantou o olhar para ela.
   - O qu?
   - Ainda no jantaste - lembrou-lhe. - A cozinha est quase a fechar. Pensei que poderia trazer-te alguma coisa. Sempre e quando Sam no me encontre na sua cozinha,
 claro - acrescentou com pesar. - Acho que me odeia.
   Max riu.
   - Sam no te odeia, mas  muito temperamental. Dir-te-ei qual  o segredo para trabalhar com Sam: necessita que o mimem um pouco, mas vale a pena.  um magnfico
cozinheiro.
   - Ento, o que  que est a fazer aqui? - Corou, esperando no ter sido muito franca. A ltima coisa que queria era ofender Max. - Refiro-me a se no preferiria
trabalhar num restaurante mais elegante.
   Quer dizer que comeava a regressar parte da antiga Kristina, pensou Max, incomodado. Claro, aquele comentrio era muito prprio dela.
   - No, gosta de trabalhar aqui. June contou-me que Sam veio para este hotel num Vero, para se recuperar de uma operao. O cozinheiro que tnhamos no chegava
ao nvel que Sam exigia e ele ofereceu-se
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   para lhe fazer algumas sugestes. At chegou a preparar alguns menus de vez em quando. A minha me adoptiva ofereceu-lhe um lugar para ficar a trabalhar aqui
e ele nunca regressou ao seu antigo posto de trabalho.
   - E o que se passou com o outro cozinheiro? Kristina, depois da sua experincia, tinha chegado  concluso que ali no despediam ningum.
   - Continuou a trabalhar como ajudante - Max pensou nisso um momento. Phil tinha-se ido embora trs anos antes, precisamente quando ele se tinha encarregue do
hotel. - Foi viver com a sua filha h trs anos. Desde ento, Sam tem sido o nico tirano da cozinha. Nem sequer a abandona para tirar frias - sorriu. - Diz que
tem medo que venha outro cozinheiro de frias e fique com ela.
   Kristina riu suavemente e voltou-se para Max. Tinha um rosto amvel. E forte, pensou. O rosto de um homem no qual se podia confiar.
   - Tenho a impresso que acabas de inventar essa histria.
   -  demasiado m para ser inventada. Este hotel atrai pessoas desse tipo. Pessoas que tendem a considerar o hotel como o seu prprio lar. Ou pelo menos, costumava
ser assim - acrescentou.
   Kristina sabia que devia ir-se embora, mas vacilou. Gostava de estar ali, com Max.
   - E todos tm uma histria como essa?
   - Mais ou menos - respondeu. Estava a comear a sentir-se muito cmodo com ela, pensou. Comentaste que ias trazer-me alguma coisa para comer?
   - Oh, sim, claro - provavelmente Max pensava que estavam a ter demasiada intimidade. Ao fim e ao cabo, ele era o chefe. - Trar-te-ei o menu especial da casa.
   Max assentiu, fingiu concentrar-se nos seus papis e no voltou a levantar o olhar at ter a certeza que Kristina tinha desaparecido.
   Maldita fosse, estava a ser encantadora, pensou. E embora isso facilitasse o seu trabalho, criava-lhe mais problemas de conscincia.
   Max lembrou-se da histria que acabava de contar a Kristina. Pelo bem de Sam e do resto dos empregados, teria que continuar com aquela farsa.
   Kristina hesitou na ombreira da porta da cozinha. O lugar estava imaculadamente limpo.
   - Sam?
   Sam estava inclinado sobre a bancada, a terminar de dar o toque final a um souffl que pretendia dar a provar aos empregados. Ao ouvir a voz de Kristina, levantou
o olhar.
   - Oh, s tu. Ests  procura de alguma coisa para partir?
   Kristina teve vontade de dar meia volta e sair a correr, mas ficou onde estava. Fugir no ia servir-lhe de nada.
   - No, Max voltou e gostaria de comer alguma coisa.
   Sam assentiu bruscamente e tirou uma bandeja. Cortou vrias fatias da carne que tinha preparado para o jantar e serviu-as num prato, juntamente com um punhado
de batatas fritas e um pouco de brcolos cozidos.
   - Toma, j est.
   - Sinto muito o que se passou.
   Sam arqueou as sobrancelhas com expresso duvidosa.
   - Sinto muito pelos copos, pelas batatas e tudo o resto. Sam, sinto-me como se nunca tivesse feito todas estas coisas, mas todos dizem que as fiz, por isso suponho
que a amnsia no s afectou a minha memria, mas tambm me converteu numa inapta. Sam suspirou. Ele no pretendia faz-la sentir-se to mal.
   - No s nenhuma inapta. S s um pouco desajeitada,  s isso. Olha, por que no vens aqui depois de levar o jantar a Max? Talvez te possa ensinar algumas coisas
para que amanh no te sintas to perdida na cozinha.
   - Adoraria - agarrou na bandeja e saiu a correr. O sorriso com o qual se despediu deixou Sam a pensar enquanto servia o souffl. Talvez, como o prprio Max tinha
dito, no fosse assim to m.


   Oito

   At muito tarde, Kristina no pde voltar para o seu quarto. Uma vez l, tirou o tubo de cola que June lhe tinha dado e espalhou as peas do objecto partido sobre
a secretria.
   No estava to mal como tinha pensado e disse para si mesma que, se tivesse calma, talvez fosse to divertido como fazer um quebra-cabeas. Aquela ideia sugeriu-lhe
uma pergunta: gostaria de fazer quebra-cabeas quando era nova?
   Fixou o olhar na televiso. Como teria sido a sua infncia? Teria sido uma menina querida ou teria sido abandonada como Max?
   - Se no deixares de te questionar, nunca vais acabar de juntar todas essas peas - murmurou para si.
   Sentou-se atrs da secretria e comeou a trabalhar. Ao apertar o tubo, saiu um jorro de cola branca que cobriu totalmente uma das peas que pretendia unir. Foi
um autntico desastre.
   Suspirou enquanto limpava com um leno de papel  a cola a mais. Mas algum a bater  porta a sobressaltou nesse instante.
   Abriu uma fresta da porta e viu Max  espera no corredor. Em qualquer outra circunstncia, teria adorado v-lo, mas no naquele momento, quando tinha todas as
peas do objecto espalhadas sobre a secretria.
   - Passou-se alguma coisa? - perguntou a Max.
   Kristina agarrava-se  porta como se no quisesse deix-lo entrar. Evidentemente, tinha acontecido alguma coisa.
   - Eu vinha perguntar-te o mesmo. June disse-me que lhe pediste cola.
   -  verdade - respondeu Kristina com expresso de culpa.
   - E para que precisas tu de cola?
   Kristina pareceu pensar sobre isso um pouco e a seguir abriu a porta sem vontade.
   - Enquanto limpava o p num quarto, parti um objecto - mais uma coisa para acrescentar  lista de erros.
   Aproximou-se da secretria e apontou para a sua tentativa falhada de colar o objecto.
   - Pretendia col-la antes que algum desse conta.
   Max agarrou num dos bocados partidos e fingiu olhar para ele com ateno para esconder a sua surpresa. A diferena de atitude de Kristina era enorme. Kristina
no se tinha sentido nada culpada por se desfazer da tapearia de Sylvia Murphy, mas sentia-se responsvel por algo completamente insignificante.
   Kristina voltou a sentar-se  frente da secretria e tentou colar as peas. Max abanou a cabea.
   - No te incomodes. Posso comprar outra, no  muito cara.
   Talvez no fosse cara, mas ela tinha-a partido e ia consert-la, pensou Kristina enquanto se empenhava em colocar a cola.
   - Eu sei, mas no devia t-la quebrado.
   Max observou, divertido, como tentava encaixar as peas. Estava to sria que qualquer um teria dito que estava ocupada com alguma coisa fundamental para a segurana
nacional.
   - s muito conscienciosa.
   - No, sou muito desajeitada. No paro de partir coisas. Ou de as aspirar. Esta manh estive quase a aspirar uma cortina com o aspirador.
   Max riu e levantou as mos. Queria evitar-lhe a vergonha de lhe contar todos os pormenores.
   - No me digas mais nada. Posso imaginar perfeitamente a cena.
   - E ainda no mudaste de opinio?
   - Sobre o qu?
   Kristina agarrou noutro bocado do objecto antes de responder.
   - Sobre permitires que eu conserve o meu posto de trabalho.
   Mas se tinha mudado de opinio, se a despedisse, para onde iria? Teria suficiente dinheiro economizado para aguentar at que encontrasse um novo trabalho? E se
assim fosse, seria capaz de localizar a sua conta bancria? Eram muitas as perguntas que se amontoavam na sua mente e no tinha resposta para elas.
   Por enquanto, at que organizasse a sua vida, teria que ficar ali. Mas isso dependia de Max.
   Sim, gostaria disso, pensou Max. Gostaria que ela ficasse com eles, tal como estava. Achava aquela nova Kristina infinitamente prefervel  que tinha conhecido
antes. Era uma mulher doce, voluntariosa e parecia decidida a fazer as coisas bem.

   110
   Kristina teve que fazer um esforo para no afastar os olhos de Max. Aquele homem tinha uma maneira de olhar para ela que fazia com que lhe despontassem sentimentos
que at ento tinham permanecido fechados.
   Talvez estivesse particularmente vulnervel. Ou talvez fosse porque era a primeira pessoa que tinha visto ao abrir os olhos. Fosse qual fosse a razo, havia algo
em Max que lhe fazia desejar descobrir at que ponto poderia estar unida a ele.
   Ao fim de alguns segundos, tapou o tubo de cola e estudou o resultado do seu trabalho. Infelizmente, notavam-se excessivamente as fissuras.
   - Poderia ir contigo?
   - Onde?
   -  cidade. Para comprar outro objecto. Quero pagar do meu prprio bolso - acrescentou rapidamente. - E tambm gostaria de pagar os copos que parti...
   Estava a ser demasiado severa consigo mesma.
   - Est bem, da prxima vez, virs comigo  cidade - gostava da ideia de sair com ela. - At deixarei que me convides para uma cerveja.
   - Uma cerveja - Kristina podia imaginar Max sentado num lugar cheio de fumo, com uma cerveja nas mos enquanto ao fundo se ouvia uma cano de amor. - Gosto de
cerveja?
   Max ps as mos nos bolsos e estudou o rosto de Kristina. Duvidava seriamente que Kristina Fortune fosse apreciadora de cerveja. Mas talvez a Kris Valentine gostasse.
   - Na verdade, no sei.
   Impulsionada por uma necessidade repentina, Kristina aproximou-se dele e perguntou-lhe:
   - Que sabes sobre mim, Max? Alguma vez te falei sobre a minha famlia?
   111
   - No, nunca - isso era verdade, - mas dava a impresso que se tinhas famlia, estavas muito distante dela.
   Kristina olhou  sua volta.
   - No tenho nenhuma fotografia no meu quarto.
   - No - reconheceu Max com receio, perguntando-se onde poderia aquilo lev-los.
   - De modo que suponho que tens razo. Se estivesse mais unida  minha famlia, teria fotografias suas - olhou para ele. -  como se a minha vida passada no tivesse
existido antes de vir para aqui.
   Ao ouvi-la, Max no pde seno identificar-se com a sensao que ela estava a expressar.
   - Sim, isso foi o que eu sempre senti. Que da minha vida s conta o que aconteceu a partir do momento em que cheguei ao hotel.
   Kristina desejava que Max a abraasse. Que a apertasse entre os seus braos e a fizesse sentir-se a salvo, como tinha feito no dia anterior, quando ela tinha
acordado com a mente completamente em branco. Levantou o queixo, olhou-o nos olhos e disse com uma voz grave e sedosa:
   - J temos uma coisa em comum.
   Max quase podia sentir a pele de Kristina a deslizar contra a sua. Fazia-lhe ficar com gua na boca.
   - Suponho que sim.
   Mas no tinha nenhum sentido tornar-se ntimo de uma pessoa que na realidade no existia. Max virou-se bruscamente e dirigiu-se  porta.
   - Ser melhor que durmas, Kris. Amanh tens que te levantar cedo.
   Kristina assentiu e seguiu-o at  porta. Deslizou o olhar pelos seus ombros e reparou em como o seu tronco se estreitava at chegar s ancas. Sentiu um n no
estmago.
   112
   - Max?
   Max sabia que aquilo era um erro. Que devia sair imediatamente dali. Mas virou-se para ela.
   - Sim?
   Num impulso, Kristina apoiou a mo no seu peito e ps-se em bicos de p para lhe dar um beijo fugaz nos lbios.
   Tanto o beijo como a doura que detectou nos seus lbios foram completamente inesperados para Max. Olhou para ela, mais estupefacto que quando lhe tinha atirado
o bocado de madeira na praia.
   - Para que foi isso?
   Kristina esboou um sorriso que deu um novo resplendor aos seus olhos.
   - Foi s para te agradecer. Por seres to bom. Por seres tu.
   Kristina olhou-o nos olhos, procurando neles um lugar para ela. A vulnerabilidade que Max reconheceu no seu olhar foi mais do que pde resistir. Ento abraou-a
com fora e beijou-a. Beijou-a de verdade. Beijou-a com uma paixo que envolveu os dois.
   Kristina sentiu-se viva pela primeira vez desde que tinha aberto os olhos no quarto e se tinha encontrado completamente perdida. Inclinou a cabea para trs,
deleitando-se com a variedade de sabores da sua boca, como se fosse um pardal a beber a gua que a chuva deixava sobre as folhas.
   Kristina sentiu-se a renascer. Ou talvez a nascer pela primeira vez.
   Aquela era a primeira vez que Max a beijava. Saberia se assim no tivesse sido. Lembrar-se-ia. Com amnsia ou no, teria sabido de alguma maneira. Algo assim
no podia apagar-se completamente da cabea.
   E muito menos do corao.
   Rodeou-lhe o pescoo com as mos e pressionou-o.
   Poderia ter-se entregue s sensaes que corriam pelo seu corpo sem pensar em nada.
   O protesto que escapou dos seus lbios converteu-se num gemido quando Max lhe agarrou as mos para a separar dele.
   Confusa, levantou os olhos para Max,  procura de uma explicao.
   - Acho que  melhor pararmos agora disse-lhe Max. Sabia que se voltasse a toc-la, o seu lado mais nobre perderia a batalha que h vrios minutos travava consigo
mesmo.
   Totalmente desconsolada, Kristina chegou  nica concluso possvel: tinha cometido um erro. Um erro terrvel.
   - Max, h mais algum?
   Sim, pensou Max, havia outra mulher. Mas que tambm era ela. A outra Kristina, aquela que tinha desaparecido juntamente com a sua memria, mas que, no tinha
dvida nenhuma, no tardaria a voltar. At que isso acontecesse, no podia aproveitar-se da mulher na qual Kristina se tinha convertido.
   No respondeu  sua pergunta. Pelo contrrio, soltou-lhe as mos e deu meia volta.
   - Vai dormir, Kris.
   Saiu, deixando-a com o olhar fixo na porta fechada.
   E a sentir-se cada vez mais perdida.

   Sidney olhou para Kristina com receio. Naquela manh, Kristina tinha ido procur-la e tinha um brilho no olhar que no tinha no dia anterior. Estava a vibrar,
pronta para fazer qualquer coisa. Via-a mais confiante. Teria recuperado a memria durante a noite?
   Mas se assim fosse, teria descido a dar ordens ou  procura de vingana, e no como se estivesse contente de ter de comear a limpar quartos.
   - Pronta para outro dia de trabalho? - perguntou-lhe com receio.
   - Sim - respondeu Kristina com veemncia. Se no dia anterior se tinha sentido perdida, naquela amanh sentia-se como uma autntica exploradora, decidida a traar
um novo caminho.
   Ter beijado Max tinha-lhe feito ver o mundo de forma diferente. Talvez at ento no tivesse havido nada entre eles, mas ia haver. No podia explicar porqu,
mas era a sensao que tinha.
   Alguma coisa tinha acontecido. Tinha que haver alguma explicao para aquela mudana, pensou Sidney.
   - Ests bem? - perguntou.
   - Estou muito bem.
   Agarrou no avental que Sidney lhe deu e atou-o  cintura. Meu Deus, sentia-se maravilhosamente bem. Estava feliz. E perguntava-se se aquilo seria uma nova experincia
para ela.
   Sidney olhava para ela fixamente.
   - Sinto muito o que aconteceu ontem - desculpou-se Kristina. - No queria dar-te mais trabalho. Diz-me o que tenho que fazer e tentarei fazer as coisas o melhor
que possa.
   Se Kristina estava disposta a fazer aquele esforo, o mnimo que Sidney podia fazer era ajud-la. A jovem tentou afastar todos os seus maus sentimentos. Afinal,
esses sentimentos tinham a ver com a snobe que tinha chegado ao hotel e no com a mulher que estava naquele momento ao seu lado.
   - Muito bem. Hoje podes comear pelo quarto nmero cinco. June quer que esteja preparado para as onze. Hoje chegam os Hennessey. E vm com a sua filha. Meu Deus!
- Sidney suspirou, desolada.
   - No pareces muito contente com a sua chegada.
   - E no estou. Tm uma filha de cinco anos que  uma autntica selvagem. Chama-se Heather. Os pais no acreditam na disciplina e so to insuportveis como...
costumam ser quase todos os ricos corrigiu-se no ltimo momento. Tinha estado quase a comparar os Hennessey com Kristina.
   Kristina descobriu que o segundo dia de trabalho foi muito melhor que o primeiro. Limpou o quarto rapidamente, e daquela vez sem partir nada. E s passou o aspirador
por onde achava que tinha que passar. Estava muito satisfeita consigo mesma.
   E Sidney tambm estava contente, pois descobriu que Kristina era uma companhia agradvel. Trabalharam lado a lado e Sidney no demorou muito at se abrir com
Kristina. Era muito agradvel poder falar com uma mulher da sua idade. At lhe confessou que estava apaixonada por Antnio. Enquanto a ouvia, Kristina pensou em
Max.
   A tarde passou-a na cozinha. A mquina de lavar loia tinha-se estragado e Sam tinha deixado uma montanha de pratos e panelas das duas refeies. Kristina ofereceu-se
para os lavar, para surpresa de Sidney, que tinha evitado fazer ela o trabalho.
   Tambm Sam ficou surpreendido com o facto de Kristina no se importar de se sujar com gordura.
   - Sam?
   - Sim? - Sam virou a cabea na sua direco, mas no se deu ao trabalho de afastar o olhar do guisado que estava a fazer.
   - Sabes se Max... est sozinho?
   - Queres saber se  solteiro? Sim.
   Fez-se um parntesis na conversa enquanto Kristina enfrentava uma grelha e Sam se debatia entre duas especiarias antes de as juntar ao guisado.
   Kristina voltou a tentar.
   - H algum especial na sua vida?
   Sam riu ao pensar na antiga Kristina e em Max.
   - H tantas mulheres especiais que j lhe perdemos a conta. O Max gosta de relaes curtas.
   No era isso que Kristina queria ouvir. Com um suspiro, baixou o olhar para a frigideira que estava a lavar.
   - Oh!
   A sua resposta quase se perdeu entre o rudo da cozinha, mas Sam ouviu-a.
   - Porqu? Gostas dele?
   Kristina teve a sensao que Sam era um homem que no aceitava bem evasivas. Ou se confiava nele ou no se confiava. E ela precisava de confiar em algum.
   - Acho que sim. Quando me beijou...
   O cozinheiro arqueou de tal forma as sobrancelhas que pareciam estar quase a sair da testa.
   - Beijou-te?
   - Bom, na realidade eu beijei-o primeiro, s para lhe agradecer por tudo. E ento... - sorriu e corou suavemente. - Bom...
   - Sim, bom.
   Max gostava dela. E ela gostava de Max. Aquilo tinha todos os indcios para se converter numa situao interessante. Sam interrompeu-se por uns momentos, pensando
na sua total lealdade para com Max. Mas, na realidade, aquela no era a Kristina Fortune. Gostava da mulher que apareceu depois do acidente. De modo que talvez no
fosse demais fazer-lhe alguma advertncia.
   - Max  um bom homem, mas  muito inconstante nas relaes. Talvez seja porque no teve uma infncia estvel. Ou talvez pense que h muitas mulheres bonitas e
a vida  muito curta.
   Definitivamente, aquilo no era o que queria ouvir. Kristina comeou a esfregar furiosamente a frigideira.
   Kristina e Sidney estavam atrs do balco da recepo enquanto June recebia o casal que acabava de chegar com a to temida Heather. A sua me agarrava a pequena
ruiva pela mo e nenhuma das duas parecia muito contente com aquela unio.
   Heather olhou  sua volta. Quando a viu, Kristina compreendeu que estava a ponto de sofrer um acidente. Numa dcima de segundo, Heather conseguiu derrubar o candeeiro
que estava em cima de uma das mesas.
   June no perdeu o sorriso enquanto o candeeiro se fazia em fanicos no cho.
   - No  nada, agora mesmo apanhamos os cacos.
   - Certamente que sim - disse a senhora Hennessey, chateada. - No quero que Heather se magoe.
   Kristina irritou-se por os pais de Heather no terem pelo menos a decncia de se desculpar pelo que a filha acabava de fazer.
   - Sidney - disse June, - poderias conduzir os Hennessey ao seu quarto, por favor? Corresponde-lhes o quarto nmero cinco.
   Elaine Hennessey olhou para chave do quarto como se a contaminasse.
   - Eu pensava que amos ficar no de sempre. Pedi especificamente o quarto nmero quatro...
   - Estamos a renov-lo - explicou-lhe Kristina rapidamente, antes que June pudesse dar alguma desculpa.
   June no mudou de expresso, mas havia agradecimento no seu olhar.
   Heather libertou-se da mo da sua me enquanto os pais se dispunham a seguir Sidney at ao quarto.
   - No, eu quero ver o mar.
   A senhora Hennessey suspirou, com evidentes sintomas de esgotamento.
   - Mais tarde, querida - disse entre dentes. Heather bateu no cho e olhou para a sua me com os olhos semicerrados.
   - Agora. Disseste que podia. Disseste que ia ver o mar quando chegasse - insistiu.
   A mulher tentou agarrar novamente a mo da filha.
   - Sim, mas agora estou a dizer-te que iremos v-lo mais tarde.
   Heather levantou as mos, afastando-as do alcance da sua me.
   - Heather - advertiu-lhe a senhora Hennessey, - comporta-te.
   Kristina interps-se entre me e filha antes que aquela discusso acabasse numa cena.
   - Senhora Hennessey, ficaria encantada de levar a Heather a dar um passeio pela praia enquanto a senhora e o seu marido se instalam no quarto.
   A menina olhou para Kristina com receio. E no foi a nica. June e Sidney tambm se entreolharam, admiradas com aquela oferta.
   A senhora Hennessey no vacilou. De facto, a sua expresso suavizou-se consideravelmente.
   - Seria maravilhoso.
   Kristina agachou-se para se pr  altura da menina. Havia algo na sua atitude beligerante que lhe lembrava alguma coisa. Intuitivamente, compreendia
   119
   que Heather sentia que aquela era a nica maneira que tinha de chamar a ateno.
   Heather, chamo-me Kris. Ficaria muito contente de te levar a dar um passeio pela praia, se te apetecer.
   Heather pareceu pesar as suas opes. E no final ganhou o mar. Deu a mo a Kristina.
   Embora no pudesse explicar porqu, Kristina sentiu uma profunda satisfao. Caminharam juntas at  porta principal.
   - Voltaremos dentro de uma hora - prometeu  senhora Hennessey.
   Pela primeira vez desde que tinham chegado, o senhor Hennessey pareceu relaxar.
   - Obrigado - disse, e dirigiu um olhar inconfundvel  sua esposa.
   Kristina sorriu enquanto saam.
   - Ou talvez de duas - acrescentou.
   - Est l fora, na parte de trs - disse June a Max quando este chegou  noite ao hotel.
   - O dia foi assim to mau?
   - No - respondeu June alegremente. - Hoje correu tudo muito bem. Podes comprov-lo por ti mesmo.
   Max no tinha tempo para mistrios. Tinha estado a fazer clculos a noite anterior e tinha descoberto que, para poder manter todos os empregados do hotel, este
teria que comear a aumentar a sua margem de lucros. Caso contrrio, no poderia pagar todos os salrios.
   Algo que no o fazia nada feliz.
   Preparando-se mentalmente para se deparar com qualquer coisa, Max saiu do hotel e deu a volta ao edifcio.
   120
   Ouviu Kristina antes de a ver. Estava a ler algo sobre a filha de um moleiro que tinha um dom especial para converter palha em ouro. Tinha um livro enorme debaixo
do brao e a seu lado, uma menina de uns cinco anos que olhava para ela absolutamente fascinada. Seduzido por aquela imagem, Max parou e ouviu com ateno.
   Kristina fazia as vozes das diferentes personagens e entregava-se  histria como se estivesse a ler Shakespeare.
   Embora estivesse de costas para ele, Kristina sentiu Max chegar. Umas ccegas na pele e uma felicidade desconcertante advertiram-na da sua presena. Interrompeu
a histria e virou-se para ele.
   - Ol.
   Heather fulminou o intruso com o olhar.
   - Ol - respondeu Max, e sentou-se na erva, ao lado de Kristina. - Que ests a fazer?
   - Est a ler-me uma histria - respondeu Heather.
   - Esta  Heather - apresentou-a Kristina. - E este  o Ano Saltito - acrescentou, apontando para o livro que tinha no seu colo.
   - No conheo essa histria.
   J tinham praticamente acabado, e Kristina estava disposta a ler outro conto.
   - E qual  que tu sabes? Neste livro parecem estar quase todos.
   Depois do passeio pela praia, Heather tinha ido ao quarto dos seus pais e tinha sado minutos depois com um livro debaixo do brao e uma ordem nos lbios: "l-mo".
   Max fixou o olhar no horizonte. O sol estava a comear a esconder-se. Ainda havia vrios minutos de luz.
   - Nenhum.
   121
   Kristina inclinou a cabea.
   - No te liam histrias quando eras pequeno?
   Fazia-o parecer to triste!, pensou Max. No entanto, aquela no era uma das coisas das quais ele tinha saudades na vida.
   - No.
   - E por que no ficas connosco e eu leio uma histria aos dois? - Sem esperar por resposta, Kristina comeou a ler.
   Era uma proposta ridcula. Mas tinha uma voz to carregada de lirismo que as palavras pareciam ganhar vida nos seus lbios. E ele estava cansado.
   Ento, que mal podia fazer-lhe ficar com elas mais uns minutos?
   Nove

   - O que  isto tudo? - June afastou-se enquanto Max punha uma enorme caixa de carto em cima do balco. Momentos depois, outra caixa mais pequena juntou-se 
primeira.
   - Vamos entrar na era dos computadores - explicou-lhe Max enquanto voltava ao carro para tirar a caixa que continha o teclado.
   - Pensava ter-te ouvido dizer que no precisvamos de computadores - June abanou a cabea, a olhar para as caixas que tinha  sua frente. At o seu tamanho parecia
intimidante.
   - Pois estava errado - respondeu Max. Colocou a ltima caixa em cima das outras duas
   e tirou um canivete.
   - O que  que est a acontecer aqui? - perguntou Sidney do salo.
   - Max pretende levar-nos para o sculo XXI pela sua expresso, era evidente que June no achava muita graa  mudana.
   Sidney observou Max enquanto este abria as caixas.
   123
   - Bom, no  que eu seja contra o progresso, mas a que se deve esta mudana? - perguntou a jovem.
   Max olhou para Kristina quando esta se juntou ao grupo. Na realidade, a ideia do computador tinha sido sua. Tinha-lhe dito uma coisa que lhe tinha feito ficar
a pensar que de facto estava a resistir  mudana por motivos sem sentido. Devia isso aos seus pais adoptivos, conservar o melhor que pudesse aquele hotel, que para
eles tinha representado anos de trabalho.
   - Pensei que j era altura de o fazer,  s isso. June riu suavemente enquanto Max tirava o monitor da caixa.
   Atrados pelo som das suas vozes, Antnio e Sam aproximaram-se da recepo.
   - Que  isto tudo? - perguntou Sam com o sobrolho franzido.
   - Max acaba de investir o nosso futuro aumento num computador - explicou-lhe June.
   - Agora vamos ter computador? - perguntou Sam.
   -  verdade que nos ia aumentar? - quis saber Antnio.
   - No - respondeu Max, com o olhar fixo nos cabos do computador, - no gastei o vosso salrio num computador. E sim,  possvel que lhes aumente o salrio, quando
o negcio melhorar um pouco - acrescentou prudentemente.
   A balbrdia geral indicou-lhe que nenhum deles tinha muita f em que isso acontecesse. Nenhum, excepto Kristina, que no disse absolutamente nada. Durante as
ltimas duas semanas, tinha-se adaptado ao trabalho muito melhor do que Max tinha acreditado ser possvel.
   E ele tinha-se descoberto a si mesmo a regressar cada noite ao hotel para a ver, embora soubesse que estava a entrar num terreno muito perigoso.
   Max olhou para os livros de instrues e estendeu-os a June.
   - O que  suposto fazer com eles? - quis saber ela.
   - L-los, para aprenderes a utilizar o computador - animou-a Max.
   - Eu ajudar-te-ei - ofereceu-se Kristina, agarrando no manual de funcionamento. - O computador ser uma grande ajuda. Pode ajudar-nos a organizar a contabilidade.
E h um programa que nos ajudar a classificar os diferentes tipos de clientes e coisas desse tipo.
   Kristina pestanejou, como se de repente tivesse conscincia do que estava a dizer.
   - No tenho ideia de como  que sei isto tudo - sussurrou.
   - Comentaste comigo que tinhas feito alguns cursos de informtica na escola de adultos antes de vires para aqui - explicou-lhe Max, cruzando olhares com os outros.
- Suponho que l falariam desse programa.
   Durante as ltimas duas semanas, Max tinha respondido s perguntas de Kristina com explicaes que at ento tinham conseguido satisfaz-la. Mas perguntava-se
at quando poderia durar-lhe a sorte.
   - Sim, acho que foi isso - no podia haver outra explicao. Educadamente, tirou o cabo que Max tinha na mo e ligou-o ao computador.
   Com uma percia que a surpreendeu, ligou todos os componentes do aparelho e numa questo de segundos p-lo em funcionamento.
   - Acho que devias ser tu a us-lo - sugeriu June, olhando, receosa, para o aparelho. - Eu j sou muito velha para este tipo de coisas.
   Nunca se  muito velho. Eu ensinar-te-ei como funciona - insistiu Kristina.
   E poderias ensinar-me a mim? - perguntou Antnio.
   - Quando tiver acabado de ensinar a June disse Max.
   O processo podia levar tempo, pensou ao ver a expresso de dvida de June. Mas confiava na palavra de Kristina, que abraava todas as suas tarefas com um entusiasmo
contagioso.
   Virou-se para June.
   - Como vo as contas do ms?
   June alegrou-se por a conversa se afastar finalmente dos computadores.
   - Por enquanto, temos doze reservas para o fim-de-semana de So Valentim. Essa  a boa notcia. A m  que, at l, no temos praticamente nada - June olhou para
o computador como se fosse seu inimigo. - Di-me diz-lo, mas vamos ter de fazer alguma coisa, Max - olhou para os outros e todos concordaram. - Isto no pode continuar
assim.
   Max suspirou, frustrado. June estava a expressar o que ele tinha andado a pensar desde que Kristina tinha chegado com a sua proposta de mudana.  parte da opinio
dela, a verdade era que lhe tinha feito pensar.
   Kristina deixou os manuais de instrues ao lado do computador.
   - Que acontecer se as coisas no mudarem? Max ps os polegares nas presilhas das calas de ganga.
   - Teremos que fechar - ele tinha o seu prprio negcio e fechar o hotel suporia o fim de muitas dores de cabea.
   Mas tambm suporia muitas outras coisas. O fim
   126
   de uma era, por exemplo. E ele no queria que isso acontecesse.
   - Mas seria terrvel que tivesses que fechar um lugar to bonito como este - lamentou-se Kristina.
   - Alm disso, para onde iramos todos ns?
   Sidney encolheu os ombros.
   - Suponho que teramos que arranjar outro trabalho - respondeu, mas a simples ideia entristecia-a.
   June abanou a cabea.
   - Eu no poderia. Quem  que vai contratar uma mulher de meia-idade?
   Jimmy, que tinha entrado discretamente no meio da conversa, pigarreou para chamar a ateno.
   - Tu s uma franganota comparada comigo. Kristina foi percorrendo um por um o rosto de todos os empregados do hotel. Pelo que sabia at ento, aquela podia ser
a nica famlia que tinha, e no queria perd-la.
   - Max, tens que fazer alguma coisa. No podemos deixar que isso acontea.
   Kristina estava a expressar os sentimentos que ele tinha querido incutir-lhe. Mas ento, porque  que se sentia como se tivesse feito alguma coisa de mal?, perguntou-se
Max. Abanou a cabea, tentando afastar aquela sensao.
   - Sim,  o que eu tambm acho. Temos que fazer alguma coisa para modernizar o hotel, para que possa competir com outros estabelecimentos.
   - No - disse Kristina lentamente, enquanto a sua mente formulava pensamentos que lhe custava a reconhecer como seus, - no temos que competir com ningum, o
que devamos conseguir  que fosse um lugar diferente de qualquer outro - enquanto falava, o seu entusiasmo ia crescendo. - Diferente,
   127
   mas que possa ser atraente a um leque mais amplo de pessoas.
   Soava bem. June assentiu, olhando para Max.
   - Qual  a faixa etria mais numerosa desta zona? - perguntou Kristina.
   Antnio encolheu os ombros.
   - A gerao do Baby boom? - sugeriu Sam.
   - Boa resposta - disse Kristina de repente, mas foi ao lado - de onde vinham aquelas ideias? Por que se sentia to cmoda a falar daquele assunto? - H uma faixa
etria ainda maior: a dos recm-casados e das pessoas que esto a tentar recuperar a magia dos primeiros anos de casamento.
   - Sabes? - Sam olhou para Max. - Essa poderia ser uma boa ideia.
   - Trabalharemos nisso - props Max. Pensou ento nos documentos que Sidney tinha tirado da mala de Kristina na primeira noite. Neles figuravam os planos de Kristina
para o hotel. Teria que voltar a rev-los.
   - At l - a voz de June f-los voltar para o presente, - poderamos ir pensando em mudar a decorao para o prximo fm-de-semana. Talvez possamos criar um ambiente
que motive os casais que vo passar aqui o feriado de So Valentim a virem ao hotel mais de uma vez por ano.
   No hotel, festejava-se o dia de So Valentim todos os anos, pensou Max. Ali era onde ele tinha beijado a sua primeira namorada. No ano anterior no tinha estado
l, mas presumia que tambm o teriam decorado.
   - No o decoramos todos os anos?
   June e Sidney olharam uma para a outra, desesperadas.
   - Sim, decoramo-lo, se te referes a colocar coraes e cupidos que deveriam comear a pensar em aposentar-se - respondeu June.
   Kristina achava que entendia o que June estava a sugerir. Olhou  sua volta, imaginando o espao decorado com grinaldas cor-de-rosa e brancas, bales e jarras
com flores estrategicamente colocados. Sim, o lugar tinha muitas possibilidades.
   Voltou-se e, ao faz-lo, tocou involuntariamente em Max. Entre eles aconteceu uma reaco similar  que podia ter provocado um choque elctrico. Por um instante,
Kristina esqueceu-se de todos os outros. E pela expresso de Max, soube que ele estava a sentir o mesmo.
   - Por que no vou at  cidade para ver o que podemos encontrar? - sugeriu a jovem precipitadamente, tentando concentrar-se nos projectos para o hotel.
   - E como  que vais? No tens carro e no sabes conduzir.
   - Podes levar-me tu? - sugeriu Kristina impulsivamente.
   O mais inteligente teria sido responder que no. Ficar a ss com Kristina no era a atitude mais sensata quando a desejava de uma forma to desesperante.
   Mas no era capaz de lhe dizer que no ou que fosse com Antnio. De modo que continuou a olhar para ela sem dizer nada.
   June abanou a cabea.
   - Vai com ela, Max. No temos tempo a perder
   - olhou para os demais, advertindo-lhes que no dissessem nada que pudesse contradiz-la. - E todos ns estamos muito ocupados.
   - Ah sim? - perguntou Antnio, que no era muito experiente em apanhar as coisas no ar.
   Sidney agarrou-o pelo brao.
   - Sim, estamos muito ocupados.
   Jimmy levantou-se lentamente da sua cadeira.
   129
   - Bom, j perdi muito tempo. Agora tenho que ir tratar um pouco do jardim.
   Sam j estava a sair da recepo.
   - E eu quero planear um menu novo.
   - E Sidney? - perguntou Max, fazendo uma ltima tentativa de se salvar.
   - Eh, Sidney e eu vamos estar a dar a volta ao miolo com esta coisa que tu compraste - June apontou para o computador e apertou os lbios.
   Max, rendendo-se ao inevitvel, foi buscar o jipe.
   Max deixou o carro no estacionamento das galerias e voltou-se para Kristina. Ainda no entendia como tinha chegado at ali. Ir s compras era uma das coisas que
mais detestava.
   - Muito bem, tudo isto foi ideia tua. Por onde comeamos?
   Provavelmente tinha estado ali dezenas de vezes, pensou Kristina, mas nada lhe parecia familiar. Examinou a zona,  procura de alguma coisa que pudesse dar-lhe
alguma pista. Odiaria ter trazido o Max at ali para nada.
   - Por ali - apontou para uma loja que estava entre uma pizzaria e uma loja de loias para casa de banho.
   Quando comearam, foi praticamente impossvel det-la. Podia ter perdido a memria, pensou Max, mas no tinha perdido a sua intuio. Escolheu e comprou com um
olho infalvel.
   A lista de coisas que precisavam crescia  medida que iam visitando lojas. A nica forma de a parar foi alegar esgotamento.
   - No ests cansada? - perguntou-lhe Max, incrdulo, enquanto carregavam as ltimas caixas no assento de trs.
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   - No - era um dia bonito e Kristina sentia-se muito bem, porque estava a pass-lo com Max. Agora vai comear a segunda ronda.
   - No. A primeira j me custou uma fortuna.
   - Dinheiro chama dinheiro - enquanto pronunciava aquela frase, Kristina olhou para Max, estupefacta. - s vezes sinto-me como se fosse um boneco e um ventrloquo
estivesse a falar por mim. No tenho a menor ideia de onde isto saiu.
   De certeza que era a antiga Kristina que estava a tentar emergir, pensou Max. Algumas das coisas que tinha dito durante as duas ltimas semanas lembravam-lhe
a Kristina que tinha conhecido antes da amnsia. E sabia que era s uma questo de tempo para que o resto regressasse.
   - Foi por isso que me beijaste na outra noite? Porque um ventrloquo te ordenou que o fizesses?
   Estava a brincar, mas na realidade queria saber se algo de inconsciente tinha motivado a sua conduta ou se tinha sido a nova Kristina que o tinha beijado.
   - No - respondeu Kristina com sinceridade.
   - Beijei-te porque quis - e acrescentou: - E algo me diz que vou sempre atrs do que quero.
   Aquele era o momento no qual se supunha que ele deveria dizer alguma coisa galante e retirar-se. Deveria, mas no o fez. Porque queria uma resposta.
   - E o que  que queres? Kristina humedeceu os lbios.
   - Comer - respondeu, olhando-o nos olhos.
   Max riu. Comer. Sabia que havia um bom restaurante perto dali. Deu-lhe o brao e afastou-se das lojas com ela.
   - Suponho que isso tambm terei de ser eu a pagar - disse, fingindo lamentar-se.
   -  lgico que tenhas que me incentivar.
   Chegaram ao restaurante e Max abriu-lhe a porta para a convidar a entrar.
   - Eu achava que j tinha sido incentivo suficiente no te fazer pagar os copos que partiste.
   Kristina olhou  sua volta ao entrar. Atrs do balco de entrada, havia uma espaosa sala de jantar com mesas pequenas distribudas aleatoriamente. Duas enormes
janelas ofereciam uma vista para o porto. Uma vista que no era nem de longe to maravilhosa como a da sala de jantar do hotel, pensou com certo orgulho.
   - Mesa para dois - pediu Max  recepcionista.
   - Tu mesmo disseste que tudo isto fazia parte do processo de aprendizagem - lembrou-lhe Kristina enquanto os conduziam a uma mesa.
   Max ajudou-a a sentar-se e depois sentou-se em frente a ela.
   - Sim, mas ento no sabia que pretendias levantar sozinha a economia de La Jolla.
   Kristina agarrou na ementa e comparou o menu com o que Sam oferecia.
   - No comprmos muitas coisas.
   - Cem velas vermelhas, roupa de cama para dezasseis quartos, toalhas com coraes vermelhos e grinaldas suficientes para decorar toda a Casa Branca... meu Deus,
eu acho que  mais que suficiente!
   No se incomodou em abrir a ementa. Tinha estado ali vrias vezes e j sabia o que lhe apetecia. Alm de estar com Kristina, pensou com pesar.
   Kristina deixou a ementa de lado.
   - No so muitas grinaldas e acho que os lenis de renda ajudaro a criar o ambiente romntico que procuramos.
   Era meio-dia e no restaurante havia uma vela acesa em cada mesa. Max observou-as, atento ao reflexo
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   dourado que iluminava o rosto de Kristina. E pensou que talvez tivesse razo.
   - At agora, a maioria das pessoas que vm para o hotel est mais prxima da reforma do que do romantismo.
   Kristina inclinou-se para a frente.
   - No so conceitos que se excluam, Max.
   Max jurava que tinha chegado at ele a fragrncia do seu champ. Um champ de ervas. A sua pulsao ficou mais acelerada, como se fosse um adolescente no seu
primeiro encontro.
   - E o que  que te converte numa perita no assunto?
   - No sei - mesmo assim, a confiana em si mesma crescia com cada uma das suas palavras. Pelo menos todas estas coisas me ocorrem quando penso em como me abraaste
naquela noite - sorriu ao v-lo mexer-se nervoso na cadeira. - Desde ento, tens vindo a evitar-me.
   - No  verdade. Vemo-nos todas as noites.
   - Mas no a ss.
   Aquelas palavras deslizaram na sua mente, suaves, sedutoras... Meu Deus, aquela mulher era fatal. E nem sequer estava consciente disso.
   - No - admitiu, - no a ss.
   " agora ou nunca", disse Kristina para si. Com um elaborado movimento, estendeu o guardanapo no seu colo e levantou os olhos para Max.
   - Nunca respondeste  pergunta que te fiz. H outra mulher?
   Max poderia ter mentido e liquidado imediatamente a questo, mas algo lhe fez dizer:
   - No, no h ningum.
   Kristina bebeu um longo gole de gua. Sentia a garganta repentinamente seca. Talvez estivesse a ficar nervosa.
   133
   - Sam disse-me que havia mulheres suficientes na tua vida para povoar uma cidade pequena - vacilou antes de continuar. - Mas nunca te vi com nenhuma.
   - S ests h duas semanas aqui - disse Max,
   - e estive muito ocupado. Agora mesmo acabo de terminar uma relao e estou a comear outra partiu o po que havia sobre a mesa e ofereceu-lhe a outra metade.
   Kristina assentiu para lhe agradecer. O sorriso que apareceu nos seus lbios indicava que no tinha acreditado.
   - Poderia perguntar-te se s sempre to franca
   - continuou Max, - mas suponho que no sabes.
   - No, no sei - respondeu Kristina. - Mas j no me importa.
   - Porqu?
   - Porque tu me disseste que no havia ningum na minha vida,  excepo de um doloroso incidente que suponho que  melhor que permanea no esquecimento. Eu prefiro
concentrar-me no aqui e agora - susteve-lhe o olhar enquanto levava um pedao de po  boca. - E no que tenho  minha frente.
   Max comeava a deparar-se com srios problemas.
   - Sam ficar feliz por saber que na cidade no h ningum que possa competir com ele - comentou Max com Kristina quando, uma hora depois, abandonaram o restaurante.
   Kristina assentiu. Sam estava to orgulhoso da sua cozinha como Jimniy do seu jardim. E ela tinha um grande carinho pelos dois.
   Como fazia frio, agarrou-se ao brao de Max e foi-se aproximando inconscientemente dele  medida que caminhavam.
   - Seria uma pena que tivesses que vender o hotel.
   Max perguntava-se se saberia o que lhe estava a fazer. Seria realmente to inocente como parecia?
   - E quem falou de vender o hotel?
   - Bom, disseste que se no conseguisses torn-lo rentvel, no terias outra opo.
   - Tenho a certeza que poderemos torn-lo rentvel - Parou  frente do jipe. - Estive a pensar no que disseste sobre a possibilidade de converter o hotel num estabelecimento
destinado a luas-de-mel.
   - Eu disse isso? - perguntou Kristina, tentando lembrar-se.
   - Bom, no com essas palavras - Censurou-se por aquele deslize. Parecia-lhe to fcil falar com Kristina que quase no se lembrava de quem era. Mas insinuaste
isso quando comentaste que um dos sectores a que nos deveramos dedicar era o dos recm-casados.
   - Ah, sim, e o que  que propes?
   Max tentou lembrar-se do que Kristina tinha dito, mas naquela poca estava to ocupado a ir contra as suas propostas que no lhe tinha prestado ateno suficiente.
   - Talvez possamos reformar os quartos e fazer l dentro casas de banho. Eu mesmo poderia ocupar-me desse trabalho - Estudou o seu rosto com ateno,  espera
de algum indcio de reconhecimento.
   Mas Kristina limitou-se a ouvir e assentir.
   - Parece-me uma boa ideia.
   Logicamente, j que tinha sido sua, pensou Max.
   Por um momento, permaneceram em silncio.
   Max observava como o vento brincava com o cabelo
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   comprido de Kristina. Lembrava-lhe a primeira noite que tinham estado juntos na praia. Tinha a sensao que, desde ento, tinham passado anos.
   Poderia uma amnsia como aquela durar para sempre?, perguntou-se. Sabia que era terrvel desejar algo assim, mas no podia evit-lo. Nunca se tinha sentido to
atrado por uma mulher.
   - Kris?
   Kristina levantou o rosto para ele.
   Max esteve a ponto de a beijar, mas deteve-se no ltimo momento. Ele s queria desfrutar da sua companhia, nada mais.
   - Ainda no quero voltar.
   - Eu tambm no - respondeu Kristina com um sorriso. - Mas no achas que os outros sentiro a nossa falta?
   - Acho que se arranjam bem sem ns.
   E quem era ela para discutir com o chefe?
   - E que sugeres que faamos?
   - Que te parece irmos ao cinema?
   - Adoraria.
   - O que  que te apetece ver?
   - No sei... surpreende-me. Efectivamente, Max surpreendeu-a. E tambm se surpreendeu a si mesmo, porque a levou a ver um filme de amor.
   Depois do filme, compraram gelados, que desfrutaram ao passearem pelas ruas da cidade enquanto a noite comeava a envolv-los.
   As estrelas comearam a aparecer. Enquanto olhava para elas, Kristina perguntou-se se alguma vez teria sido to feliz.
   - Pareceu-me muito bem - comentou, pensativa, enquanto mordiscava o seu gelado, - que o protagonista tenha sido capaz de renunciar a tudo por ela. Farias algo
assim? - perguntou-lhe de repente.
   - Renunciarias a tudo pela pessoa pela qual estivesses apaixonado?
   - No sei, e tu?
   - Agora mesmo, no tenho nada a que renunciar, por isso acho que a resposta  sim.
   - E se tivesses alguma coisa mais?
   - Suponho que depende do muito que amasse essa pessoa. E tu?
   - Eu nunca amei tanto ningum, por isso no sei. - Mas sabia que poderia, que, com a mulher certa, poderia chegar a faz-lo. -  possvel.
   Kristina comeou a caminhar outra vez.
   - De qualquer forma, no acho que tenhas que te preocupar. Duvido que alguma mulher te pea que renuncies a um lugar to especial como o hotel por ela.
   No entanto, j uma mulher o tinha feito.
   - Achas que o hotel  especial?
   - Claro. H algo de muito especial nesse lugar. Descobri isso quando deixei de partir tudo o que tocava e os outros deixaram de me ver como um desastre ambulante.
A verdade  que ainda no entendo por que fundaste uma empresa de construo.
   As razes de Max eram muito simples.
   - S queria fazer algo por mim mesmo. Naquela poca, o hotel ainda era dos meus pais.
   - Acho que te compreendo - murmurou Kristina lentamente, tentando explorar as razes daquele sentimento.
   - Acho que  melhor voltarmos.
   - Sim - Logo que acabou o gelado, Kristina atirou o guardanapo para o lixo. - Devamos voltar.
   A fragrncia de Kristina envolvia-o, uma fragrncia sedutora, sensual. Contava com a luz da lua, um cu estrelado e uma bonita mulher ao seu lado. Um
   137
   homem no podia resistir ao inevitvel durante tanto tempo.
   Max no pde evit-lo. Nem sequer tentou. Muito delicadamente, virou-a para ele. Pousou a mo na sua bochecha, procurou os seus lbios e fez o que h treze dias
desejava fazer.
   Dez
   Sentiu-o quando os seus lbios se encontraram. Foi como se todos os foguetes do quatro de Julho explodissem no seu interior. Desejava-a tanto que mal podia respirar.
   Desejou que o tempo parasse, para que pudesse prolongar o contacto dos seus lbios. E a sua boca foi arrastada pela doura que os lbios de Kristina lhe ofereciam.
   Como podia algo to maravilhoso ser ao mesmo tempo um grande erro?.
   E como podia ter deixado que aquilo acontecesse?
   Sentia o vibrar do sangue a acordar no seu interior, necessidades que no tinha conseguido acalmar desde a primeira noite que tinham discutido na praia. Era uma
atraco to forte, to poderosa, que ameaava arrast-lo...
   No, no se tinha enganado; Max sentia o mesmo que ela. Kristina podia sabore-lo, podia senti-lo. No era s um desejo imaginrio. Era real. Tinha a certeza.
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   - Acho que devamos continuar noutro lado sussurrou contra os seus lbios.
   Se Max quisesse lev-la aquela noite para o seu quarto, ela estava disposta a ir. No havia nenhum motivo para negar o que sentia, o que ambos sentiam. Kristina
sabia que estava preparada para fazer amor com ele. O seu corpo ardia enquanto esperava a resposta.
   Oh, meu Deus, por que tinha ele que passar por uma coisa assim? Se aceitasse o que lhe estava a oferecer sem dizer a Kristina quem era na realidade, ela acabaria
por odi-lo quando recuperasse a memria. Era um preo muito alto a pagar por uma s noite de prazer.
   Mas tinham a noite toda pela frente, e o futuro ainda estava to longe...
   Felizmente, voltou a si.
   - Noutra altura - foi uma das coisas mais difceis que tinha tido que dizer na sua vida.
   Sentindo-se como uma estpida, Kristina afastou-se rapidamente dele. Evitou olh-lo nos olhos e entrou directamente no carro. Teria percebido mal os sinais?
   Olhou para Max.
   No, maldio, no tinha confundido os sinais. Podia no saber muitas coisas, mas sabia o que sentia. E tambm o que Max sentia por ela.
   Max desejava-a, claro que a desejava. E ambos eram pessoas adultas. Onde estava ento o problema?
   O silncio que se fez no carro era quase de cortar  faca. Parecia engoli-los e impedia-os de se tratarem com naturalidade.
   - Max?
   Max no olhou para ela. Preferia no olhar.
   - Sim?
   A sua voz era distante, como a de um estranho. Mas no era um estranho. No para ela. Kristina escolheu as palavras com cuidado, tentando aproximar-se dele.
   - Tenho a sensao que h alguma coisa que no me ests a dizer.
   Max esticou as mos no volante e olhou para ela de soslaio.
   - De onde tiraste essa ideia?
   - No sei... Cada vez estamos mais prximos...
   - virou-se no seu assento para olhar para ele. Cada vez que me beijas, tenho a sensao que me queres, bem, que queres continuar. E depois recuas.
   Max ligou o rdio, tentando preencher o vazio que havia entre eles.
   -  s imaginao tua.
   Kristina baixou o volume do rdio at se tornar um barulho de fundo.
   - Eu acho que no.
   - Claro que no recuo - replicou Max com nfase, e aligeirou o tom. -  normal que tenhas essa sensao quando tudo te parece to estranho, to diferente. Mas
disse-te tudo o que posso.
   "Tudo o que posso", um comentrio muito revelador, pensou Kristina. No, corrigiu-se rapidamente, Max tinha razo, estava a ficar paranica.
   Suspirando, passou a mo pelo cabelo.
   - Muito bem, como quiseres - respondeu suavemente.
   Com os braos carregados de grinaldas, Kristina dirigiu a Max um olhar acusador. Tinha decidido esquecer-se do incidente do dia anterior. Aquele era um novo dia.
E com ele chegavam novas oportunidades.
   Sorriu-lhe.
   - L por seres o chefe, no significa que estejas isento de trabalho - tinha reservado de propsito alguns dos adornos  espera que Max chegasse. Queria que Max
tambm participasse no que ela encarava como uma espcie de ritual.
   - Tenho trabalho a fazer - disse ele. - Muito trabalho - enquanto o dizia, sentia como a sua vontade se ia debilitando. - E se tenho que levar adiante a minha
empresa e comear a fazer algumas mudanas no hotel, terei que administrar o meu tempo muito bem.
   Kristina ouviu-o pacientemente enquanto falava. Quando acabou, estendeu-lhe uma caixa cheia de enfeites e, a sorrir como se no tivesse dito uma s palavra, arrastou-o
at a um canto no qual tinha colocado uma escada.
   - E o que  suposto eu fazer com isto?
   - Segue-me e passa-me os enfeites quando tos pedir - comeou a subir a escada.
   Assaltado por uma repentina sensao de reconhecimento, Max deixou cair a caixa no cho e agarrou ambos os lados da escada.
   Antnio, que ia a caminho do armazm, olhou na sua direco. Ao passar  frente de Max, sorriu-lhe.
   - Parece que escolheste a parte mais fcil do trabalho.
   Max soprou. No tinha tempo para esse tipo de coisas. No tinha tempo para continuar a segurar numa escada e a olhar para o par de pernas mais bonito que se lembrava
de ter visto. Tinha coisas melhores para fazer.
   Embora naquele momento no lhe ocorresse nenhuma.
   Durante o pouco tempo livre de que dispunha, Max tinha estado a estudar os apontamentos de Kristina. E ao prescindir dos seus preconceitos, tinha comeado a perceber
quo acertadas eram as suas sugestes. Kristina tinha acertado em cheio com a ideia de converter o hotel num recanto para apaixonados.
   Quando aquele fm-de-semana acabasse, ia calcular exactamente quanto custaria acrescentar uma casa de banho a cinco dos quartos. Mesmo sendo ele a fazer o trabalho,
contava com uma quantia elevada. Mas Kristina tinha razo: dinheiro chama dinheiro. E ele tinha algumas economias se surgisse alguma emergncia.
   E aquilo era uma emergncia, pensou, enquanto deslizava o olhar pelas compridas pernas de Kristina. Levava cales vestidos. E Max sentia um calor sufocante a
crescer por dentro.
   - Porque no vestes umas calas de ganga? Kristina olhou para ele por cima do ombro e no fez nenhum esforo para dissimular o seu sorriso.
   - Por que no olhas para outro lado?
   - Porque esta vista  magnfica.
   - Ento no te queixes - respondeu Kristina enquanto colava um querubim de papel.
   Quando se esticou para agarrar na cabea do cupido, Max reviveu as imagens do acidente.
   - A srio que achas que devias estar a? Digo-o porque j caste da escada uma vez, e eu no gostaria que voltasse a acontecer.
   Kristina gostava que ele se preocupasse com ela. Decidiu pression-lo mais um pouco.
   - Nunca ouviste dizer que o melhor que se pode fazer depois de cair de uma escada  voltar a subir para perder o medo?
   - Isso  s em relao aos cavalos. Desce agora mesmo da.
   Kristina incomodou-se com o que ele disse, o que lhe fez pensar que talvez no gostasse de receber  ordens. Mas ele era o chefe. Ao fim de alguns segundos, comeou
a descer.
   Sem esperar que estivesse no cho, Max agarrou-a pela cintura, ajudou-a a descer e tirou-lhe o rolo das mos.
   - D-me isso. Agora segura tu na escada.
   - Sim, senhor - Kristina afastou-se para um lado enquanto ele ocupava o seu lugar e, ao ver-se na mesma posio na qual ele tinha estado minutos antes, sorriu.
   Aquele homem tinha um rabo espectacular.
   - Bonita vista - comentou. - Valeu a pena a mudana.
   Max perguntou-se se diria o mesmo quando recuperasse a memria.
   - Temos o hotel cheio - anunciou June a Max quando Sidney levou o casal que acabava de se registar no hotel.
   -  maravilhoso - disse Max. - Como nos velhos tempos - mas no era como nos velhos tempos, pensou. No voltaria a s-lo. - Vou continuar com as mudanas. No
poderemos comear at Maro, mas podemos comear a planear a publicidade para a nova imagem do local.
   - A publicidade? - repetiu June.
   - Eu gostaria de editar uns folhetos novos, por exemplo.
   Kristina, que estava a levar toalhas limpas para uma das casas de banho, ouviu a conversa e parou ao seu lado. As ideias pareciam estalar no seu crebro como
pipocas numa frigideira quente.
   - E por qu conformarmo-nos com uns folhetos? - June e Max viraram-se para ela. - No poderamos pr um anncio nos jornais da zona?
   - Ests a falar de muito dinheiro - respondeu Max.
   - Dessa forma poder-se-ia ganhar muito mais voltou a experimentar uma estranha sensao de ter vivido aquilo antes. Decidiu ignor-la e riu. Meu Deus, estou a
falar como uma importante executiva.
   - No tens por que te desculpar - disse Max rapidamente. No queria que aquela conversa a fizesse comear a pensar. - A mim parece-me uma boa sugesto, embora
demoremos algum tempo a poder lev-la a cabo.
   - Para pr um anncio s  preciso telefonar mais uma vez, voltou a ter a sensao que havia dentro dela uma espcie de piloto automtico. - Certamente, no tm
por que comear em breve. Quanto tempo achas que demorars a remodelar o hotel?
   - Por enquanto, tenho todos os meus trabalhadores entregues  segunda fase do complexo de moradias que estou a construir. De modo que eu sou o nico que est
disponvel para trabalhar.
   - E se contratasses trabalhadores temporrios?
   - Sim, isso estaria bem - respondeu Max, pensativo. Olhou de repente para Kristina com estranheza. - Mas que sabes tu de trabalhadores temporrios?
   Kristina mordeu o lbio.
   - No outro dia ouvi-te falar com algum chamado Paul por telefone. Comentaste com ele que querias contratar alguns.
   - Paul  o meu scio na empresa de construo
   - respondeu, um pouco incomodado. - Que mais ouviste?
   - Mais nada, porqu? Tens medo que tenha ouvido algum segredo?
   Max podia sentir o olhar de June sobre ele.
   - A minha vida  como um livro aberto - respondeu com ar de inocncia. - Era simples curiosidade.
   Kristina estava especialmente bonita aquela manh. De repente, esquecendo-se de todas as suas precaues, Max desejou estar a ss com ela ao luar.
   - Por que no paras de trabalhar e vamos dar um passeio pela praia?
   Kristina lembrou-se ento das toalhas. E dos Shoenberg, que estavam  espera delas.
   - Agora estou muito ocupada, no posso deixar o trabalho.
   - Mas eu conheo o chefe - Max piscou-lhe o olho. - Falarei com ele para que no seja muito duro contigo.
   Kristina esboou um sorriso que a Max lhe chegou ao corao.
   - Fars isso?
   - Palavra de honra.
   Meu Deus, como desejava aquela mulher! E no queria s t-la nos seus braos, queria lev-la para a cama. Mas tinha que ter cuidado. Um s movimento em falso
e teria que pagar por isso.
   Kristina, debatendo-se entre o sentido de responsabilidade e o desejo, respondeu:
   - Est bem, iremos depois de jantar. Prometi a Sidney que a ajudaria a servir  mesa.
   - O Antnio no pode fazer isso?
   - Chiu! - Kristina aproximou-se de Max e olhou  sua volta para ter a certeza que Sidney no estava por perto. - Foi  cidade comprar um ramo de rosas  Sidney.
   Max podia cheirar o seu cabelo. Cheirava a uma fragrncia de flores silvestres. Um aroma muito sedutor.
   Maldita fosse, estava a comportar-se como um adolescente  espera do seu primeiro encontro!
   - E por que foi ele comprar rosas  cidade? No jardim temos flores.
   - No  a mesma coisa - Kristina sorriu. Alm disso, Jimmy mat-lo-ia se o encontrasse a cortar um dos seus filhotes.
   Max olhou para ela, surpreendido pela facilidade com que Kristina se tinha envolvido nas vidas de todos os empregados do hotel. Precisamente como ele queria.
Com uma s excepo, claro.
   Porque Max no queria que se envolvesse de maneira nenhuma na sua vida. E no entanto, tinha-o feito, o que significava que ia mago-la terrivelmente quando finalmente
recuperasse a memria. E a sua vida. Daniel tinha-lhe dito que a amnsia ainda podia prolongar-se, mas no podia manter Kristina longe da sua famlia indefinidamente.
   Mas Max no queria pensar nisso ainda, com Kristina a seu lado, com um aspecto mais refrescante que a chuva primaveril.
   Kristina abraou-se s toalhas.
   - Volto j - e subiu a correr as escadas.
   June quase podia ler-lhe o pensamento. Conhecia Max desde que os Murphy o tinham tirado do orfanato e nunca o tinha visto to apaixonado.
   - Leste o Pigmalio? - perguntou-lhe.
   Max negou com a cabea, mas tinha entendido perfeitamente o que June queria dizer.
   - No, mas vi o My Fair Lady. E gostei.
   - Eu tambm. Tem um final feliz.
   - Mas a vida no  como os filmes - disse Max.
   - Acho que devias ter f, Max.
   Ia ser preciso muito mais do que f para sair daquela confuso, pensou Max. Aquela no era uma situao fcil de resolver. Tinha enganado Kristina e, provavelmente,
tinha deitado a perder a que podia ter sido a melhor relao da sua vida.
   Max permanecia na parte de trs do hotel, envolto na sensual escurido que cobria a terra. A impacincia percorria-o enquanto esperava e tentar raciocinar no
lhe estava a servir de nada.
   Tudo aquilo era um erro. Um erro no qual se afundava mais profundamente cada vez que estava a ss com Kristina.
   Mas no podia evit-lo. De alguma maneira, todos os caminhos o conduziam a ela.
   Kristina desceu lentamente os degraus de pedra que iam at  praia, tentando manter o equilbrio com uma chvena de caf em cada mo. June tinha-lhe dito onde
podia encontrar Max.
   Estava  espera dela, compreendeu. E sab-lo f-la ficar com mais calor do que as chvenas a fumegar que levava em cada mo.
   Virou-se para Max.
   - Toma.
   - O que  isso?
   - Caf. June pensou que te apeteceria alguma coisa que te ajudasse a aquecer. Esta noite faz frio - agarrou na sua chvena com as duas mos enquanto comeavam
a caminhar pela praia.
   - Pois eu no notei.
   A mar tinha subido, devorando metros e metros de praia. Apesar do frio, Kristina sentia a necessidade irresistvel de pr os ps na gua.
   De certeza que Max pensaria que estava louca. E talvez estivesse. Louca por no se fazer mais perguntas  sobre a vida que tinha perdido. Louca por estar com Max
lhe parecer mais que suficiente.
   - Esta noite h muito cansao no hotel - comentou aps beber um gole de caf.
   - Acho que tinhas razo - e em muitas coisas mais do que podia dizer-lhe. - O romantismo  um grande atractivo.
   - O mais antigo do mundo.
   Max observou os raios da lua no cabelo dela. E desejou poder afundar o rosto naquele cabelo comprido.
   - Kris, lembraste-te de alguma coisa? Kristina pensou um momento nisso.
   - S fragmentos.
   - Fragmentos de qu? - perguntou Max, tentando no parecer receoso.
   Kristina bebeu outro gole. O caf estava a arrefecer muito rapidamente. E ela tambm. Olhou para Max de soslaio.
   -  como... como quando ests a fazer um puzzle e encontras uma pea que poderia fazer parte do nariz, ou do p, ou de qualquer outra parte do corpo. Guarda-la
com a esperana de poderes encontrar o seu lugar quando a imagem comear a ganhar forma.
   No parecia que tivesse nada com que se preocupar, pensou Max. Kristina continuaria a ser Kris durante mais algum tempo.
   - E mais nada?
   - No - acabou o caf e brincou com a chvena. - Continuo sem ter a sensao de que seja isto ao que me dedicava, embora cada vez me d melhor - disse com orgulho.
- No voltei a partir nada.
   - No s deixaste de partir coisas, como tambm melhoraste muito. Sam acha que podias chegar a ser uma grande cozinheira, June diz que, se no fosse por ti, ainda
no saberia utilizar o computador, e ouvi Jimmy dizer que tinha voltado a deixar-te trabalhar no jardim.
   - S para lhe levar os sacos de fertilizante.
   - Isso j  um princpio.
   Um princpio. Eram muitas as coisas que tinha comeado durante aquelas semanas, pensou Kristina com orgulho.
   - J encontraste o meu curriculum?
   Aquela pergunta apanhou-o completamente desprevenido.
   - No, porqu?
   - S queria v-lo. Gostaria de ter mais alguma lembrana para alm destas ltimas semanas.
   Max parou e virou-se para ela.
   -  assim to horrvel?
   - No, acho que no - olhou para ele a sorrir enquanto ele comeava a abra-la. - Vais deixar cair o caf - advertiu-lhe.
   - O que  a vida se no somos capazes de correr riscos?
   - Uma chatice - respondeu Kristina, sem deixar de o olhar nos olhos. - Uma completa chatice.
   - E eu nunca gostei de coisas aborrecidas.
   - Nesse caso, tentarei no te aborrecer.
   Meu Deus, era maravilhoso estar entre os seus braos!
   - Isso no aconteceria nem num milho de anos.
   Kris Valentine tinha nele o efeito contrrio; fazia-lhe desejar constantemente coisas que jamais poderiam acontecer.
   - Tens a certeza? - perguntou-lhe Kristina com total inocncia.
   - Nunca tive tanta certeza em toda a minha vida.
   - Ento beija-me, Max.
   Que Deus o ajudasse, porque estava perdido.
   - Estava a pensar precisamente nisso.
   E beijou-a, sabendo que teria que colocar um travo a essa situao, sabendo que no poderia ir mais alm do que aquele beijo. Assim, entregou-se todo nele: o
seu corao, a sua alma. Beijou-a como se no houvesse um amanh para eles.
   Porque, devido a tudo o que ele sabia, a sua relao no tinha futuro.
   Sterling Foster olhou com o sobrolho franzido para a mulher que estava no seu escritrio. A mulher que se tinha mantido escondida do mundo durante todos aqueles
meses. A mulher que tinha sido sua chefe e objecto tanto da sua ira como da sua admirao durante mais anos do que era capaz de se lembrar.
   - Sou contra, Kate. Nada mudou.
   Kate Fortune semicerrou os olhos de uma maneira que pareciam dois raios laser a fulminar o advogado.
   - No estou a pedir-te autorizao, Sterling. S estou a ser educada e a dizer-te o que pretendo fazer.
   Aquela era a mulher mais teimosa que conhecia. E provavelmente, pensou Sterling, tambm a mais fascinante.
   - Para tua informao, tudo mudou. O meu filho est a ser julgado.
   - Mas no podes fazer nada para o evitar.
   - Talvez no pessoalmente - reconheceu, mas posso estar ao seu lado.
   Sterling suspirou. Sabia que era um erro, mas era ela a nica que podia decidi-lo.
   - Suponho que no posso fazer nada para te fazer mudar de opinio.
   - Custou-te muito, Sterling - respondeu Kate com um sorriso, - mas por fim aprendeste.
   Com um guarda prisional atrs de si a vigiar cada um dos seus passos, Jake Fortune entrou na sala de visitas. Viu Sterling atrs do vidro e olhou para ele com
o sobrolho franzido.
   Que teria acontecido?
   A impacincia estava a mat-lo. Jake no tinha a menor ideia do porqu do advogado ter solicitado aquele encontro. Ele j tinha relatado tudo o que se relacionava
com a morte de Mnica de todos os ngulos possveis. Se tivesse que voltar a contar tudo outra vez, rebentaria. A priso tinha-lhe roubado a fria calma que o tinha
caracterizado durante toda a sua vida.
   A porta fechou-se atrs de Jake com uma firmeza que o aterrorizava. Cada vez que uma porta se fechava, sentia-se mais perto do escuro abismo que ameaava engoli-lo.
   - H alguma novidade? - perguntou. Sterling no respondeu. Pelo contrrio, olhou para a parede que havia atrs das costas de Jake. Jake virou-se, sobressaltado,
ao ouvir uma voz quente e profunda.
   - Ol, Jake, como ests?
   Por um momento, Jake pensou que estava a ter alucinaes.
   Que os interminveis dias passados entre as paredes da priso tinham acabado com o seu juzo.
   - Mam?
   Kate Fortune ficava com o corao despedaado enquanto aparecia por trs da porta para ver o seu filho. As lgrimas humedeceram os seus olhos e pestanejou para
as afastar. O que tinham feito ao seu pobre filho?
   - Ests mais magro - sussurrou. Aquilo era muito pior do que tinha imaginado. Kate podia suportar que lhe fizessem qualquer coisa a ela, mas no a um dos seus.
   - Mam? - repetiu Jake, incrdulo. Abanou a cabea,  espera que a imagem da sua me se desvanecesse. Mas os dedos longos que acariciaram o seu rosto eram reais.
- Como podes estar aqui? Ests morta.
   Um sorriso abrandou as feies aristocrticas de Kate.
   - Digamos que exageraram um pouco a histria da minha morte.
   A surpresa de Jake deu lugar  irritao. A sua me estava viva enquanto todos eles choravam a sua morte!
   - Como podes ter-nos deixado pensar que estavas morta?
   - No grites com a tua me - ordenou-lhe Sterling.
   Kate fez-lhe um gesto para que permanecesse em silncio.
   - Tem direito a gritar-me, Sterling. Isto sups um enorme impacto para ele.
   - Um enorme impacto? - A fria apoderou-se dos inexpressivos olhos de Jake. - Foi muito mais que isso. Quem vais fazer aparecer a seguir? A Mnica?
   O advogado abanou a cabea.
   - A Mnica continua morta.
   - E tu? - perguntou Jake  sua me. - Por que fingiste a tua morte?
   Kate no estava acostumada a que Jake lhe falasse naquele tom. Ele sempre tinha sido um homem frio e controlado.
   - Porque algum tentou matar-me e queria descobrir quem era.
   Jake no podia acreditar no que estava a ouvir.
   - E pensaste que podia ter sido algum de ns?
   - No sabia o que pensar - respondeu Kate com repentino cansao.
   Jake sentou-se e enterrou o rosto entre as mos. Demorou alguns segundos a recuperar-se.
   - Obrigado pelo voto de confiana - levantou o olhar para a sua me. Milhares de lembranas amontoavam-se na sua cabea. - Mas naquela poca estavas suficientemente
perto de mim para me conheceres, no , mam?
   A comunicao nunca tinha sido muito fluente entre me e filho. Tinha havido sempre limites, barreiras. O aborrecimento, a culpa e a vergonha tinham-se interposto
sempre entre eles.
   - Se fui um pouco dura contigo...
   - E ests a perguntar?
   - Foi porque foste o meu primeiro filho e esperava muito de ti - Kate no estava acostumada a admitir os seus erros. - Oh, Jake, a verdade  que no sabia ser
me.
   - E queres saber se agora j aprendeste? - perguntou-lhe Jake a brincar.
   - Sim, pretendo tentar, e apoiar-te em tudo o que possa. Por isso estou aqui.
   - E esperas que te esteja agradecido? - perguntou Jake, desafiando-a.
   - No - respondeu ela com aquela voz crispada que a Jake lhe parecia to familiar. - Espero provar a tua inocncia.





























   Captulo Onze
   
   Paul encontrou Max a falar com o novo electricista que tinham contratado. Tanto Max como Paul estavam na obra desde as sete horas, como todos os dias. Era quase 
meio-dia e aquela era a primeira oportunidade que tinha tido em toda a manh de falar com ele.
   Paul passou a Max uma lata de sumo que tinha tirado do frigorfico da casinha da obra, decidido a descansar, deu um gole no seu prprio refresco e comentou, olhando 
para o seu scio de soslaio:
   - Ento, que tal vo as coisas com a Lady Fortune?
   - Muito bem.
   A resposta foi deliberadamente vaga.
   - Ainda no recuperou a memria?
   - No - respondeu Max, com o olhar fixo na lata de sumo.
   - Ainda no se lembra de nada? Max encolheu os ombros.
   - Diz que tem algumas imagens a flutuar na cabea, mas no consegue uni-las - e ele vivia com medo, a pensar no dia em que o fizesse. 
   Paul expressou os pensamentos de Max em voz alta.
   - Durante quanto tempo achas que poders continuar com isto?
   Max riu, amolgou a lata que tinha na mo e caminhou a passos largos at  casinha para deitar o recipiente no lixo.
   - No sei.
   - No sabes? Se eu estivesse no teu lugar, acho que procuraria uma forma de lhe dizer a verdade antes que ela descobrisse por si mesma.
   Max atirou a lata para o lixo.
   - Sim,  uma boa teoria - virou-se para olhar para Paul com a cabea em Kristina. - Mas difcil de levar  prtica.
   Paul estudou o rosto do seu amigo. O seu scio parecia estranhamente pensativo aquele dia. Perguntou-se se a sua atitude teria a ver com a remodelao do hotel 
ou com Kristina em particular. Provavelmente era com aquela mulher.
   - Sabes? - comeou por dizer. - Como na realidade ests a utilizar tudo isto para levar a cabo as mudanas que ela tentou forar-te a fazer, acho que facilitaria 
as coisas se lhe dissesses quem  realmente. Alm disso, no acho que agora queira despedir ningum. Dizes que se d muito bem com os outros empregados, no ?
   - Na realidade, agora mesmo formam uma famlia feliz. June e Sidney tambm querem que lhe diga a verdade.
   - E?
   - E como dirias a algum que te aproveitaste da sua amnsia para lhe mentir, para lhe fazer pagar pelo seu comportamento, correndo o risco de que acabe por te 
odiar? 
   Paul assentiu. Alegrava-se de no estar no lugar de Max.
   - No  fcil.
   - Exactamente.
   - H mais, no h? - perguntou Paul tranquilamente.
   No tinha sentido tentar esconder nada a Paul. Quando se propunha a algo, era to teimoso como um pit bull.
   - Sim, h mais.
   Paul olhou-o e abanou a cabea.
   - Oh, no.
   Max olhou bruscamente para o seu amigo.
   - O que  que queres dizer com esse "oh, no"? Ainda no te disse nada.
   - No  preciso dizeres. Basta-me olhar para a tua cara. Ests louco por ela, no ?
   Max queria neg-lo desesperadamente, tanto a si mesmo como ao seu amigo. Mas sabia que no tinha sentido. Isso no mudaria a verdade.
   - Sim.
   - E isso  mau? - Era uma pergunta retrica. Podia ver na sua cara a resposta.
   A boca de Max esboou um sorriso irnico.
   - Isso depende do ponto de vista. Embora, pessoalmente, ache que  mau seja de que ponto de vista for. At que Kristina recupere a memria, no tenho a mais remota 
possibilidade de que isto v para a frente.
   - Talvez no recupere...
   - E que teria que fazer nesse caso? Mentir-lhe durante o resto da minha vida? - sabia que estava a responder-lhe de mau humor, mas no podia evit-lo. - Tudo 
comeou quase no princpio confessou-lhe. - Quando Kristina abriu os seus enormes olhos azuis e olhou para mim como uma menina abandonada. 
   Max encolheu os ombros, desejando poder desfazer-se da sensao de culpa que o paralisava.
   - Eu s lhe menti porque queria conservar os postos de trabalho dos meus empregados. Logicamente, no podia fazer nada sem o meu consentimento, mas ela  uma 
Fortune e os Fortune conseguem tudo o que querem.
   - E por que lhe mentes agora?
   - J te disse - a impacincia atazanava-lhe a cabea. - Porque no posso dizer-lhe a verdade sem sair prejudicado. E porque, at que a Kristina saiba a verdade, 
continua a ser Kris Valentine, uma mulher doce e cheia de vida que cheira como as flores silvestres e... - Meu Deus, estava a ficar poeta. Mas que raios se passava?
   - Ests apaixonado por ela.
   - No, no estou apaixonado - respondeu Max com veemncia. - S me sinto atrado por ela.
   - Ests apaixonado por ela. Vi-te com mulheres suficientes para reconhecer a diferena - Paul olhou para ele, preocupado. - Ests a repetir tudo o que aconteceu 
com a Alexis.
   Paul s estava a dizer o que Max tinha medo de admitir para si mesmo. A nica diferena era que no se tinha deitado com Kristina. Embora no lhe fizesse falta 
faz-lo para saber como se sentiria se o fizesse.
   - Sim, com o mesmo final "feliz"  minha espera no fim da histria. Kristina vai recuperar a memria e, se no me estrangular por ter estado a engan-la durante 
tanto tempo, acabar por voltar para um mundo a que eu no perteno.
   Franziu o sobrolho, lembrando-se da imagem daquele mundo que Alexis lhe tinha descrito antes de o abandonar.
   - No viveria nesse mundo nem que me pagassem  
   - acrescentou Max com firmeza. -  um mundo cheio de hipcritas que, em vez de ovelhas, contam dlares para adormecer.
   Paul olhou para o seu amigo, confuso.
   - E ela tambm  assim?
   - Kristina Fortune  - Tinham-lhe bastado cinco minutos na sua companhia para perceber isso. - Mas Kris no. Se pudesse fazer alguma coisa para que continuasse 
a ser assim, fazia, mas no posso - no tinha nenhum sentido continuar a enganar-se. - E qualquer dia algum da sua famlia telefonar ou aparecer no hotel - esfregou 
a cara, desesperado. - Meu Deus, conhecendo as pessoas da sua classe, provavelmente denunciar-me-o por rapto ou algo parecido.
   Aps acabar a sua explicao, Kristina desligou o computador e voltou-se para a sua aluna.
   - June? - A recepcionista arqueou uma sobrancelha e esperou pela sua pergunta. - Eu gostava do Max antes do acidente?
   - A verdade  que vocs s tinham trocado algumas palavras - June observou o rosto de Kristina, temendo encontrar nele algum sinal que indicasse que as suas palavras 
lhe tinham despertado a memria. - E se gostavas, a verdade  que o escondias muito bem.
   - Ento, no meio de tudo, tive sorte.
   June no estava muito certa do que Kristina pretendia dizer.
   - Que queres dizer? Kristina deitou-se no sof.
   - Talvez tenha sido uma sorte ter perdido a memria. Porque, desta forma, no deixei que o passado me inibisse - virou-se para June. - -me impossvel imaginar 
que no gostava de Max. Cada vez que olha para mim, sinto um n no estmago.
   June riu. No havia nada de que gostasse mais do que os incios de um romance.
   - Sim, o nosso Max  magnfico, nisso estou de acordo contigo. Se fosse mais nova, asseguro-te que lutaria por ele.
   Kristina olhou com inquietao para a porta. Aquela noite Max ia chegar tarde. E estava outra vez a chover. Talvez nem sequer dormisse no hotel.
   Suspirou.
   - As vezes, acho que Max est realmente interessado em mim e outras, tenho a sensao que  s imaginao minha.
   - Bem-vinda ao mundo do amor, um mundo no qual os caminhos esto sempre cheios de obstculos.
   - A quem o dizes! - murmurou Kristina. Sentou-se no brao do sof e abraou-se a uma das almofadas enquanto fixava o olhar na paisagem escura que via da janela. 
- Cada vez que acho que tudo vai melhor entre ns, Max afasta-se de mim - olhou, implorante, para June. Aquela mulher conhecia Max muito melhor que ela e talvez 
pudesse dar-lhe alguma pista. - Estou a fazer alguma coisa mal?
   Comovida, June saiu de trs do balco da recepo, aproximou-se dela e pousou a mo no seu ombro.
   - Nada. S tens que lhe dar tempo. Max j saiu magoado de outra relao.
   Kristina nem sequer tinha pensado que poderia ter havido algum para alm dela.
   - Max  divorciado?
   - Nem sequer teve oportunidade de chegar to longe - viu que estava a confundi-la e explicou-lhe: - Esteve quase a casar-se. 
   Havia dio nas suas palavras. June nunca tinha gostado de Alexis. Com a sabedoria infalvel de uma mulher que tinha acumulado experincia durante mais de sessenta 
anos de vida, topou Alexis Wexler quando a viu: era uma criatura sem corao.
   - Max esteve comprometido com essa menina
   - June levantou presumidamente o queixo. Uma mulher com um corpo formidvel, mas  qual se esqueceram de pr corao. A nica coisa que queria era algum que 
a sustentasse. E quando encontrou um homem com um futuro mais promissor que o de Max, abandonou-o. A Max custou-lhe muito a superar essa ruptura - suspirou suavemente 
e abanou a cabea, lembrando-se. - s vezes, tenho a sensao que ainda no a superou totalmente. Assim, se o vs vacilar um pouco, talvez seja porque se lembra 
de Alexis.
   -  assim que se chama? - June assentiu. Alexis - repetiu Kristina.
   Supunha que no fundo deveria estar agradecida quela mulher. Porque se por um lado era verdade que por sua causa Max tinha criado muitas defesas em torno do seu 
corao, por outro, se Alexis no o tivesse abandonado, Max no seria solteiro.
   E ela estava muito contente que o fosse.
   Ajeitou-se no sof sem deixar de abraar a almofada.
   - Ento achas que no devia desistir?
   - O que estou a dizer  que devias manter a mente bem aberta - disse June diplomaticamente.
   - E perdoar-lhe.
   Kristina no entendia por que tinha que lhe perdoar.
   - Por me dar tantas vezes com os ps?
   - Por qualquer coisa que precise de ser perdoada - respondeu-lhe June vagamente. 
   Sabia que estava a falar muito, mas mesmo assim queria faz-lo para ajudar a consolidar a sua relao. Max e Kristina significavam muito um para o outro, podia 
senti-lo.
   Examinou o rosto de Kristina com o olhar.
   - Gostas dele?
   - Sim - respondeu Kristina sem vacilar. - No me lembro,  verdade, mas tenho a sensao que nunca conheci ningum como ele.
   - Tenho a certeza - June tambm no tinha nenhuma dvida. Talvez fosse um pouco imparcial, mas para ela Max era nico. - Lembra-te do que me ests a dizer quando 
recuperares a memria.
   Era imaginao sua ou as suas palavras continham um aviso?
   - Achas que alguma vez o farei?
   June pensou no jornal que tinha tido que esconder naquela manh para que Kristina no o visse. Nele aparecia um artigo sobre Jake Fortune. Mas sabia que no poderia 
continuar a esconder-lhe coisas eternamente.
   -  muito provvel.
   Kristina levantou-se do sof. Aparentemente, Max no ia ao hotel aquela noite.
   - June, viste o jornal de hoje? Gostaria de subir para o meu quarto.
   Para imenso alvio de June, nesse momento Max entrou no hotel. No estava de muito bom humor. A chuva suporia um novo atraso na obra. Por que teria que ser o 
tempo to imprevisvel?
   - Falando do rei de Roma! - exclamou June, a olhar para a porta.
   Kristina sorriu de orelha a orelha, notando aquela sensao to maravilhosa que sempre experimentava na sua presena. Estar perto de Max fazia-a sentir-se viva, 
consciente de tudo e de todos os que a rodeavam. Era como se at ento tivesse estado a dormir e Max a tivesse feito acordar.
   - Ol - sem esperar convite, aproximou-se dele e agarrou no casaco encharcado que Max estava a tirar.
   - Ol - repetiu ele. - Eu posso fazer isso.
   - Eu tambm, Max - Alegrava-se tanto de o ver!
   - Tinha medo que ficasses em Newport com este mau tempo.
   - Estive quase a fazer isso, mas decidi vir  ltima hora.
   S havia um hspede no hotel. Jimmy estava de frias. Sidney e Antnio tinham ido  cidade e provavelmente passariam l a noite; o seu romance tinha crescido 
como a espuma desde o dia de So Valentim. Era surpreendente o que podia chegar a fazer um ramo de rosas. Kristina pensou neles com uma ponta de inveja e olhou para 
Max.
    excepo de Sam, que estava na cozinha, e June, estavam completamente a ss.
   - Porqu? - queria que lhe dissesse que tinha mudado de ideia por ela.
   - Esqueci-me no escritrio de uns planos aos quais queria dar uma vista de olhos.
   Kristina cruzou os braos.
   - Essa  a nica razo?
   Max apertou-a ento entre os seus braos. Como era possvel que encaixasse to bem entre os seus braos com to pouco tempo de relao? E como era possvel que 
fosse abandon-los para sempre quando recuperasse a memria? Tentou no pensar nisso.
   - E que outra razo poderia haver?
   Kristina abanou a cabea com fingida inocncia.
   - No me lembro de nenhuma.
   Max tinha uma vontade impossvel de conter de devorar os seus lbios. 
   - Tenta pensar numa.
   Como se lhe tivesse lido o pensamento, Kristina levou a boca at ele.
   - D-me uma pista.
   Repentinamente consciente da sua presena, Max olhou para June. Esta estava a observ-los completamente cativada, como se estivesse a ver um filme de amor. Mas 
no lhe passou despercebido o olhar de Max.
   - Desculpem. Tenho que ir estudar um destes manuais - agarrou num sem olhar para ele e deixou-os a ss com os seus sentimentos.
   Kristina agarrou no rosto de Max entre as mos e virou-lhe a cabea para ela.
   - E a pista que tinhas que me dar?
   Max levou os seus lbios at  sua boca e esqueceu-se de todo o seu cansao. Meu Deus, quantas saudades iria sentir dela quando a perdesse! Porque estava convencido 
que Kristina acabaria por se ir embora. E, provavelmente, antes dir-lhe-ia coisas muito duras.
   Mas isso era o futuro. Por enquanto, tinha o presente entre as suas mos.
   Kristina aconchegou-se a ele enquanto Max continuava a saborear e a devorar a sua boca. Ps-lhe os braos  volta do pescoo e, quando ele comeou a afastar-se, 
ps-se em bicos de p para impedir que interrompesse o contacto dos seus corpos. Com uma habilidade que parecia fluir naturalmente do seu corpo, deu-lhe um prolongado 
e apaixonado beijo. De repente, interrompeu-o.
   - Hum - olhou para ele, sorridente - Devias dar-me pistas mais especficas - soltou-o e recuou um passo. - Tens fome?
   - Sim.
   E cada vez mais. Cada vez que a abraava, estava mais perto de cometer um erro fatal, um erro que nunca se perdoaria. Kristina riu.
   - De comida.
   Adorava a forma como se ria. Maldio, Paul tinha razo, estava apaixonado por ela!
   - Sim, disso tambm.
   Kristina agarrou-lhe na mo e conduziu-o at  sala de jantar. Sam estava quase a ir para a cama...
   - Sam - chamou Kristina, - o homem voltou ao lar! - interrompeu-se bruscamente, enquanto repetia aquelas palavras na sua cabea. Pareciam-lhe familiares. Mas 
no as tinha ouvido antes. - De onde veio isto? - perguntou.
   Max encolheu os ombros e olhou-a intensamente nos olhos. Aquelas eram as primeiras palavras que Kristina tinha pronunciado ao v-lo.
   - Talvez as tenhas lido em algum lugar. D a impresso que ests a recuperar a memria.
   Kristina encolheu os ombros despreocupadamente.
   - Talvez. Mas no tenho pressa em recuper-la sentou-se numa das mesas. - Sou muito feliz tal como estou - Na realidade, o passado apresentava-se s vezes como 
um poo escuro no qual tinha medo de entrar. - Talvez me lembre de coisas que no me quero lembrar. Ou saiba de coisas que no quero saber.
   Kristina examinou o olhar de Max para ver se a compreendia, mas viu algo nos seus olhos que no foi capaz de interpretar.
   - Agora mesmo sei tudo o que preciso de saber. At sobre ti - levantou-se, dirigiu-se rapidamente  cozinha e pediu a Sam que lhe preparasse uma sandes de carne 
assada.
   Quando voltou para a mesa, Max olhou para ela. No tinha entendido a ltima frase de Kristina. 
   - Que queres dizer com isso?
   - June esteve a falar comigo.
   - Sobre...?
   - Sobre a tua atitude distante.
   - Ai, sim? - Max sentia-se como um homem a tentar encontrar um caminho seguro num terreno infestado de minas.
   - Sim, e compreendo-te.
   Pois ele no compreendia absolutamente nada.
   - E o que  que te disse exactamente? - quase lhe dava medo descobri-lo.
   Kristina baixou o olhar enquanto falava. No queria que Max se sentisse envergonhado, e to-pouco queria fazer-lhe reviver lembranas dolorosas. S queria que 
soubesse que o compreendia.
   - Falou-me de Alexis. E no tens por que te preocupar.
   - Ai no?
   - No - respondeu com firmeza. - No estou aqui por dinheiro, e no penso sair a correr se algum me oferecer um futuro melhor. Gosto das pessoas e da tranquilidade 
deste lugar. E gosto muito dos planos que tens para o hotel.  estranho, mas estive a rever minuciosamente o projecto e tenho quase a sensao que  meu. Sabes que 
s vezes encontro coisas que me parecem muito familiares?
   Era o momento de falar. Paul tinha razo. Era melhor que lhe dissesse a verdade antes que ela a descobrisse.
   - Sim, eu sei. Kris?
   - Sim?
   - Sobre o teu passado...
   - No, no tens que me dizer nada. June tambm me contou.
   Se aquilo continuasse assim, Max ia precisar de um cdigo para decifrar o que Kristina estava a dizer. 
   - Contou o qu?
   - Bom, eu fiz-lhe uma pergunta e... estivemos a falar de ns. De ti e de mim... e, bom, disse-lhe que quase ficava contente pelo acidente - disse rapidamente. 
- Porque se no tivesse acontecido, talvez no tivesse conhecido um homem to magnfico como tu.
   Max duvidava sinceramente que Kristina Fortune continuasse a pensar que era um "homem to magnfico" quando descobrisse a verdade. Afastou as mos e agarrou delicadamente 
nas de Kristina.
   - Kristina, h uma coisa que tenho que te dizer...
   - Max? - nesse momento, June apareceu na sala de jantar e olhou para as mos deles. - Odeio ter que vos interromper, mas apareceu uma emergncia na obra.
   Max suspirou e levantou-se lentamente. A confisso teria que esperar.
   - Diz-lhes que vou agora mesmo. 
   
   
   Captulo Doze
   
   Max permanecia no corredor, frente  porta do quarto de Kristina. No se ouvia nada, alm do eco da sua prpria respirao e do palpitar de um corao aflito 
pela sua incapacidade para se decidir.
   Tinha passado as trs ltimas horas no seu escritrio, a falar ao telefone para tentar solucionar alguns problemas que apareceram na obra e rever o custo da reestruturao 
do hotel.
   E supunha que outra palavra com a qual poderia descrever o que tinha estado a fazer era "esconder-se". Estava a esconder-se de Kristina e dos seus sentimentos 
por ela.
   A tentao deslizava pelo seu corpo, encorajando-o a dar um passo em frente. Era tarde, mas no muito e bastaria bater  porta para...
   Mas no, no podia. No podia bater quela porta quando sabia onde o levaria.
   Aquilo era um verdadeiro inferno: a primeira mulher pela qual se tinha apaixonado no era real. E quando recuperasse a memria, acabaria irrevogavelmente o que 
tinha aparecido entre eles. 
   Paul tinha razo: tinha que lhe dizer a verdade. Devia-lhe isso. Mas como ia dizer  mulher pela qual se tinha apaixonado que tinha mentido desde o princpio 
por motivos completamente egostas, sem se preocupar com como as suas mentiras pudessem afect-la?
   Mas no, isso no era totalmente verdade. Claro que se importava. Se no se importasse, a culpa no teria sido sua companheira constante desde o primeiro momento. 
E naquela noite, tinha estado a ponto de lhe confessar a verdade.
   Maldita fosse, no deveria estar ali, a divagar  frente da porta de Kristina! No dia seguinte precisaria de estar descansado. Estava na ltima etapa da construo 
e o tempo estava a fugir-lhe por entre os dedos.
   Queria ver Kristina antes que tudo rebentasse.
   Era pattico, disse para si mesmo, desgostado. Estava a comportar-se como um adolescente com medo, parado  frente daquela porta e a desejar Kristina com tanta 
intensidade que nem sequer era capaz de pensar correctamente.
   Levantou a mo para bater  porta. Um s toque e estaria dentro do quarto, abandonando o inferno para chegar ao cu.
   Temporariamente.
   Aquela palavra repetia-se no seu crebro.
   Max deixou cair a mo lentamente. Se batesse, a nica coisa que conseguiria seria arranjar problemas. Mas porque  que estava a torturar-se daquela maneira?
   No podia fazer amor com Kristina, no seria justo. Quando Kristina recuperasse a memria, acus-lo-ia de se ter aproveitado da situao. E teria razo. Kristina 
no sabia realmente quem era.
   Quando soubesse, ento no seria justo para ele. Porque ele continuaria a desej-la para o resto da sua vida, sabia-o com a mesma certeza com que sabia o seu 
prprio nome.
   De modo que era melhor no comear nada para no acabar por desejar algo inatingvel para o resto da vida.
   Aquilo estava a p-lo maluco. Deveria ter mandado Kristina para a sua famlia desde o primeiro dia.
   Com um suspiro, Max deu meia volta e desceu pelas escadas at ao seu quarto. Com um pouco de sorte, poderia desfrutar de umas horas de sono antes de regressar 
no dia seguinte  obra.
   Mas duvidava sinceramente que a sorte estivesse do seu lado naquela noite.
   Kristina levantou a cabea e ouviu com ateno. Parecia-lhe ter ouvido alguma coisa no corredor. Ou algum.
   Mas ao concentrar-se, s ouviu o som da chuva sobre o telhado.
   No, no era ele.
   Deixou cair os ombros e abandonou a atitude de alerta. Estava h horas a tentar ouvir Max a chegar. Tinha albergado a esperana de que fosse ao seu quarto quando 
acabasse de trabalhar no escritrio.
   Ela tambm podia ter descido para ir ter com ele, mas preferiu no o incomodar. Mas seria muito esperar que Max subisse para a ver quando resolvesse os seus problemas?
   Aparentemente, sim.
   Sentindo-se aptica, aproximou-se da janela e fixou o olhar na chuva. A chuva parecia borrar o mundo que havia depois do vidro, fazendo-a sentir-se sozinha... 
tanto como no incio lhe tinha feito sentir a amnsia.
   At que tinha descoberto a sua atraco por Max. 
   Atrao. Aquela palavra s descrevia parcialmente o que sentia quando estava perto daquele homem. Havia algo no seu olhar que lhe fazia desejar entregar-se completamente 
a ele. Bastava-lhe pensar nele para que o seu sangue fervesse.
   Max em breve comearia a trabalhar na remodelao do hotel, pensou. Significaria isso que passaria ali o dia todo?
   Pensar nisso f-la sorrir.
   "Ento Max, por que no vens? Por que no ests aqui?", animou-o mentalmente.
   Nervosa, Kristina comeou a andar pelo quarto,  procura de alguma coisa que pudesse ajud-la a afastar Max da sua mente. Apesar da hora que era e do calmante 
som da chuva, estava muito inquieta para dormir.
   Olhou  sua volta e pensou nas mudanas que Max queria fazer no hotel. Max pretendia transformar os quartos para lhes dar um aspecto mais romntico. Ela tinha 
sugerido trocar as camas por outras com dossel. Camas com dossel e cortinas brancas, que se balanassem com a brisa e convidassem os amantes a realizar os seus sonhos. 
Max tinha gostado da sua ideia. Tinha tomado nota dela e tinha-lhe pedido que lhe comunicasse todas as que lhe ocorressem. Kristina tinha gostado do que ele fez. 
Porque queria ajudar, queria converter aquele hotel num lugar para criar as mais bonitas lembranas que os hspedes guardariam durante toda a vida.
   Porque se ela fizesse amor num lugar como o que imaginava, jamais o esqueceria.
   Se alguma vez fizesse amor.
   Na realidade, no tinha por que ser numa cama, pensou. Podia ser em qualquer lado: no sof, na mesa, no cho. Em qualquer lado, em qualquer momento. 
   Embora a sua mente continuasse a ser refm do passado, Kristina sabia instintivamente que tinha passado toda a vida  espera de um homem como Max. Um homem amvel 
e bom, algum que sabia conter-se e esperar.
   Talvez se contivesse demasiado, pensou, frustrada, olhando outra vez para a porta.
   No, tinha que pensar em qualquer outra coisa.
   Ps-se em frente  secretria e comeou a abrir gavetas para rebuscar o seu interior. H muito tempo que no a assaltavam as dvidas sobre o seu passado, mas 
naquela noite, sem nada para lhe ocupar a mente e sem ningum com quem falar, regressaram todas as perguntas.
   Teria sido uma leitora assdua antes do acidente?, perguntou-se. Teria por ali algum livro que pudesse comear a ler e que a ajudasse a dormir?
   Kristina franziu o sobrolho enquanto olhava para os seus poucos pertences. Tinha estado to ocupada a tentar adaptar-se  vida no hotel que no tinha passado 
muito tempo no seu quarto.
   Evidentemente, vivia como uma espartana, pensou. No encontrava nenhum acessrio, nem nenhum lbum de fotografias, nada... S umas quantas mudas de roupa. E todas 
elas de grande qualidade. Kristina supunha que isso significava que no tinha muito dinheiro e s comprava o melhor. A qualidade acima da quantidade, parecia ser 
o seu lema.
   Pensava nisso enquanto fechava a gaveta da roupa interior.
   Soava bem, disse para si, e um sorriso apareceu na sua boca.
   Era uma pena que no fosse uma rica herdeira que estivesse a fugir em segredo de algum antigo namorado.
   No seu caso, mais do que fugir, estava  procura de um namorado. E um namorado que se mostrava excessivamente esquivo.
   Suspirou, atravessou o quarto e abriu uma gaveta da mesa-de-cabeceira. Estava dolorosamente vazia. Na outra tambm no havia nada. Aquilo irritou-a.
   No teria nenhuma mania? Nenhum interesse?
   Como era possvel que fosse to aborrecida? Claro, ela no se considerava uma pessoa aborrecida, mas aquele quarto s podia pertencer a algum terrivelmente sem 
sal. Talvez essa fosse a razo pela qual Max parecia querer manter as distncias entre eles. Talvez no acreditasse na sua transformao.
   Desesperada, porque no estava cansada e no era capaz de encontrar nada que fazer, Kristina abriu o armrio. Ali tinha a mesma roupa que tinha visto durante 
os ltimos dois meses pendurada sobre duas malas. Com curiosidade, tirou uma das malas, colocou-a em cima da cama e abriu-a. No seu interior havia apenas um livro. 
Tirou-o e deixou-se cair na cama. Ao abri-lo, caiu um papel do seu interior.
   Era uma fotografia, uma fotografia de grupo. Mas nela no aparecia ningum do hotel.
   Examinou a fotografia com o olhar, percorrendo minuciosamente cada um dos rostos. Deu-lhe um n no estmago ao ver-se no meio daquele grupo de caras desconhecidas. 
Uma mulher muito atraente apoiava a mo no seu ombro.
   Kristina deixou a fotografia na cama, esqueceu-se do livro e olhou para ela intensamente.
   Pouco a pouco, foi tomando conscincia de que aquelas eram pessoas que conhecia.
   Aquela ideia penetrou-a repentinamente como a ponta de uma seta: conhecia a mulher ruiva que estava atrs dela.
   Era...era... 
   - Rebecca - sussurrou, temendo quase pronunciar aquele nome.
   Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas. Pestanejou com fora e secou-as com impacincia enquanto tentava aclarar a sua viso.
   - Essa  Rebecca - repetiu mais alto, com voz trmula.
   E ento lembrou-se.
   - Oh, meu Deus, claro que me lembro!
   A emoo corria-lhe pelas veias. Sentou-se na cama, com o corpo alerta, enquanto olhava para outro dos rostos:
   - E esta  a av.
   Kate. Kate, que tinha morrido num acidente de avio. E Rebecca... ela tinha telefonado para Rebecca dali. Do hotel. Desse mesmo quarto. E Rebecca tinha-lhe dito 
que ainda no acreditava que a sua me estivesse morta.
   Levou a mo  boca, tentando conter um gemido.
   Quando teria acontecido aquele telefonema?
   Um por um, foram aflorando  sua mente os nomes das pessoas que apareciam na fotografia. A sua excitao crescia cada vez que reconhecia algum dos rostos que 
to repentinamente se tinham convertido em familiares para ela.
   Continuou a lembrar-se.
   Kristina ergueu a cabea e olhou-se ao espelho que havia em cima da secretria. E o reflexo que lhe devolveu no foi o de uma empregada de hotel.
   Com os dedos a tremer, percorreu a curva das suas bochechas, da sua boca, das sobrancelhas...
   - Sou Kristina. Sou Kristina Fortune...
   A mulher do espelho ficou completamente boquiaberta.
   As lembranas emergiram, claras e intensas, enchendo o vazio que minutos antes povoava a sua mente.
   Kristina voltou a deixar-se cair na cama, sentindo-se muito dbil. Com os olhos cheios de lgrimas, voltou a olhar para a fotografia.
   Era Kristina Fortune, no Kristina Valentine. E era proprietria de metade daquele hotel.
   Segurando a fotografia entre os dedos, Kristina levantou-se da cama e percorreu o quarto como se nunca tivesse estado l.
   E lembrou-se.
   A alegria misturava-se com a confuso. Lembrava-se a srio. Sabia quem era e o que estava a fazer. Sabia tudo. Sabia...
   Que a tinham enganado.
   Kristina deixou-se cair outra vez na cama e de repente o aborrecimento e a indignao pareceram entrar em erupo.
   - Esse sujo e mentiroso patife!
   Mordeu a lngua, tentando controlar-se. Durante todo aquele tempo, tinha pensado que Max estava a ser amvel, delicado, paciente. Achava que estava a reprimir 
o seu desejo para ser justo com ela, porque ainda no tinha recuperado a memria. E o que aquele cobarde tinha estado a fazer era brincar com ela... Rir-se dela!
   Levantou-se e, quando estava quase a chegar  porta, parou. No, aquilo tinha que ser planeado com cuidado. Soprou, voltou para a cama e sentou-se outra vez.
   Apertou os punhos no colo, enquanto uma nova onda de lgrimas arrasava os seus olhos.
   Ferida, devastada, Kristina esteve a conspirar a noite toda. Na manh seguinte, o seu desejo de vingana tinha alcanado o ponto culminante. s claras, a situao 
no s no melhorava, como tambm lhe parecia pior. No havia desculpa para o que Max tinha feito.
   Durante a noite, tinha estado a tentar encontrar alguma coisa, qualquer coisa que pudesse absolv-lo. Mas no havia nada que justificasse a atitude de Max, alm 
do propsito de a humilhar.
   Que outra razo podia ter?
   Mas porqu? Aquilo no tinha sentido. Apesar da discusso que tinham tido na praia, era bvio que Max tinha gostado tanto das suas ideias que se tinha mostrado 
disposto a realiz-las assim que se tinha apropriado delas. O nico ponto conflituoso tinha sido o dos empregados, e ela j no queria despedi-los.
   June, Sam, Sidney, todos tinham que fazer parte do hotel.
   As lgrimas continuavam a inundar-lhe os olhos. Todos tinham fingido apreci-la quando a nica coisa que estavam a fazer era rir-se dela.
   Isso, pensou, doa-lhe mais do que aquilo que Max lhe tinha feito. Kristina tinha chegado a apreciar realmente essas pessoas, a desfrutar da sua companhia. E 
descobrir que o que ela considerava amizade era s uma farsa destroava-a.
   Mas tinha chegado o momento da vingana, prometeu a si mesma. E a sua primeira vtima ia ser o senhor Max Cooper.
   Max soube que ia enfrentar srios problemas quando entrou. Ao passar  frente do balco da recepo, June sorriu de orelha a orelha e disse-lhe que Kristina estava 
 sua espera na sala de jantar.
   E efectivamente, l estava ela. 
   Sentada numa mesa para dois, Kristina levava um vestido que parecia desafiar a lei da gravidade e que aderia como uma segunda pele aos seus seios. O seu cabelo 
comprido e loiro caa suavemente sobre os seus ombros. Estava to bonita como o pecado e Max sentiu a sua deciso enfraquecer cada vez mais enquanto caminhava para 
ela. A sala de jantar, vazia naquele momento, estava praticamente s escuras. S a iluminava a luz das velas, que acrescentavam uma tez dourada  pele de Kristina. 
Uma pele suave, flexvel.
   Uma pele que ele desejava possuir, da mesma forma que desejava possu-la.
   Embora aquilo no combinasse com as suas boas intenes da noite anterior.
   - No tens frio? - perguntou a Kristina quando finalmente recuperou a fala.
   No fazia calor naquela noite de Maro, mas a indignao e a vingana eram bons remdios contra o frio.
   - No.
   No tinha sido fcil fingir durante todo o dia. Tinha sido um grande esforo comportar-se como se continuasse a ser a mesma mulher que no dia anterior quando 
a nica coisa que lhe apetecia era ignorar os supostos amigos que a tinham enganado.
   Mas tinha conseguido prolongar aquela farsa. Tinha um peixe maior para apanhar e no tinha sentido avis-lo.
   Tinha pedido aquele vestido a Sidney, que lho tinha emprestado. Tambm no lhe tinha custado nada a conseguir que Sam preparasse um jantar especial para dois. 
E depois, todos tinham decidido deixar o hotel. Pareciam ansiosos por deix-la a ss com Max. Evidentemente, pensavam que Max podia convenc-la a renunciar  sua 
parte do hotel se se apaixonasse por ele. 
   "Pois vo ter uma surpresa; Kristina voltou e j ningum vai engan-la."
   Olhou para Max com um sorriso. E teve que se esforar para no comear a insult-lo e bater-lhe.
   - Tu tambm no pareces ter muito frio.
   Max agarrou-se s costas da cadeira, mas no se sentou.
   - No. Na verdade, acho que me est a subir a tenso.
   Kristina inclinou-se lentamente e rodeou com a mo o gargalo da garrafa de vinho que havia sobre a mesa. Com os olhos fixos nos de Max, deslizou a mo pela rolha.
   - Fica. Posso oferecer-te um copo de vinho. Era Eva a oferecer uma ma a Ado. Mas que mal podia fazer-lhe?, perguntou-se Max.
   Se realmente estivesse consciente do que lhe convinha, daria meia volta e sairia a correr, disse para si. Mas no mexeu nem um s msculo.
   - Kris, no acho que isto seja uma boa ideia. Tenho que...
   Aparentemente, a montanha teria que ir ter com Maom, pensou Kristina enquanto se levantava.
   - Trabalhas muito - murmurou, e cobriu-lhe a mo com a sua. - Fica comigo. Sam teve muito trabalho a preparar o jantar.
   A fragrncia do seu perfume era um argumento quase mais convincente que o seu vestido. E contra a sua vontade, Max sentou-se.
   Kristina serviu-lhe algo no prato e incentivou-o a prov-lo.
   Reforos, precisava de reforos, disse ele para si, e olhou  sua volta. Normalmente, essa era a hora na qual jantavam todos os empregados, mas naquela noite 
a sala de jantar estava vazia.
   Maldita fosse! Oxal Kristina no continuasse a olhar para ele daquela maneira, como se estivesse cheia de sede e ele fosse o nico copo de gua por perto.
   Max pigarreou.
   - Onde esto os outros?
   - O hotel est vazio - Kristina bebeu um gole de vinho para ganhar foras. - S c estamos ns.
   Max olhou para ela, completamente enfeitiado enquanto ela humedecia os lbios com a lngua.
   - Kristina, ests a tentar seduzir-me?
   - Eu? - perguntou com um sorriso perverso que desmentia a inocncia do seu tom. - Como?
   - No sei, mas ests a faz-lo incrivelmente rpido.
   Baixou o olhar para o seu prato. No tinha sentido continuar a comer quando era incapaz de saborear um s pedao.
   - Kris, no acho que isto seja uma boa ideia. Kristina levantou-se e entrelaou os seus dedos com os de Max.
   Max olhava para ela como se fosse algo precioso. Mas se havia alguma coisa no interior de Kristina que lhe fazia desejar que aquele olhar lhe pertencesse em exclusivo 
em vez de fazer parte de um srdido estratagema, aquele no era momento para se ocupar disso. Aquele era o momento da vingana. 
   
   
   Captulo Treze
   
   Enfeitiado e incapaz de lhe resistir, Max permitiu que Kristina o conduzisse at s escadas. Enquanto subiam, podia sentir que o suor comeava a correr pelas 
suas costas. Desejava algo que no podia ter. Que no devia ter.
   Mas tinham o hotel para eles. No podia aparecer ningum de repente para trocar algumas palavras com ele, proporcionando-lhe uma desculpa para fugir.
   E tambm no parecia querer inventar uma desculpa.
   Maldita fosse, era um homem de trinta e dois anos, no um adolescente com calores! Alm disso, gostava muito de Kristina para deixar que acontecesse alguma coisa 
entre eles. No queria deitar-se com ela. Pelo menos, no daquela maneira. Aquilo era um erro do qual no poderia sair nada de bom. E ele queria que tudo sasse 
bem.
   Porque uma relao que crescia sobre uma mentira no tinha nenhuma possibilidade de crescer.
   Com uma fora quase sobre-humana, Max tomou uma deciso. Tinha que lhe dizer a verdade. Tinha que lha dizer nesse mesmo instante, antes que fosse tarde demais. 
Antes que Kristina comeasse a odi-lo para sempre.
   - Kris, Kristina - disse-lhe, utilizando o nome que ela preferia.
   Com a mo entrelaada na de Max e o corao a bater-lhe mais fortemente do que devia, Kristina virou-se para ele. Virou-se e sentiu que os seus nervos de ao 
comeavam a ceder. Mas decidiu ignor-lo. Aquilo no fazia parte do seu plano de vingana. Com uma sedutora inclinao de cabea, aproximou-se dele.
   - Sim?
   Max soltou-se ento da sua mo e agarrou-a pelos ombros. Erro crasso.
   Aquele era um gesto destinado a estabelecer uma certa distncia entre eles. Tocar em Kristina fez-lhe desej-la to terrivelmente, to absolutamente, que por 
um momento ficou com a mente em branco.
   Um desejo ardente percorria o seu corpo, gritando-lhe que estava s a dois centmetros da sua boca.
   - Kristina...
   - J disseste isso - Kristina ps-se em bicos de p, alimentando o fogo do seu prprio desejo. - E j conseguiste chamar a minha ateno.
   Com uma ligeireza embriagadora, deslizou os lbios sobre a boca de Max, sem lhe tocar. Aquilo foi suficiente para arrancar fascas dos seus olhos.
   Kristina andou um pouco para trs. Podia sentir a pulsao a acelerar-se enquanto pousava a mo no peito de Max sem afastar o olhar dos seus olhos.
   - Toda a minha ateno - sussurrou. Supunha-se que o seu corpo no deveria palpitar, antecipando o seu encontro, ralhou a si mesma. Estava quase a levar Max  
runa, a at-lo de uma maneira que lhe parecia impossvel desfazer o n do lao que ia lanar-lhe. Imediatamente depois abandon-lo-ia, mas no sem antes lhe dizer 
que sabia quem era ela. E quem era ele: um podre patife.
   Ia rir-se na sua cara e dizer-lhe que s tinha pretendido divertir-se s suas custas.
   Tirou a camisa de Max para deslizar as mos pelo seu peito. Max abraou-a com fora e o corpo de Kristina comeou a vibrar. No importava. Se era capaz de desfrutar 
enquanto o humilhava, muito melhor para ela. No havia nenhum perigo em divertir-se um pouco com aquele homem.
   O facto de o seu corpo se incendiar cada vez que estava perto de Max s significava que a atraa fisicamente. No era nada que no pudesse controlar quando chegasse 
o momento de o fazer.
   Ao fim ao cabo, Max tinha um fsico incrvel, era a sua personalidade que odiava, no o seu corpo.
   Se no se detivesse imediatamente, Max ia perder o controlo. Tinha que falar com ela antes que a sua mente se nublasse totalmente.
   - Kristina, h uma coisa que tens de saber. Kristina comeava a sentir a cabea a andar  roda. Agarrou-se com fora aos braos de Max e esticou o brao para 
alcanar a maaneta da porta. Precisamente quando comeava a abri-la, abriu-se a primeira fenda no muro que estava a tentar manter entre eles.
   - Sim?
   Era essa a sua voz? Parecia-lhe diferente, como se estivesse embriagada pelo desejo. Mas era impossvel. Ela estava a controlar completamente a situao.
   A livre e sinuosa afirmao de Kristina deslizou pela pele de Max, minando as suas nobres intenes.
   Se confessasse a verdade naquele momento, a sua conscincia poderia ficar descansada.
   E o seu corpo ver-se-ia privado do prazer.
   De modo que decidiu prolongar o seu prazer mais um pouco. S um pouquinho, para poder abra-la outra vez. E depois contar-lhe-ia. O que era um pouquinho em toda 
uma vida? Nada.
   Abraou-a com uma firmeza nascida do desespero e, em vez de responder, desceu at  sua boca e beijou-a como se isso lhe desse vida.
   Enquanto aprofundava o beijo at o converter numa sinfonia que envolvia cada fibra do seu ser, Max levantou-a nos braos. Tentava no pensar em questes morais: 
tinha-se acabado o tempo para o debate. Aquele era o momento para o amor.
   Empurrando a porta aberta com o cotovelo, passou a ombreira da porta e entrou no paraso.
   Uma voz quase inaudvel sussurrava-lhe que estava a cometer um erro, mas mesmo assim, Max fechou a porta atrs deles, entregando-se aos desgnios do destino. 
Lentamente, com uma pacincia at ento desconhecida para ele, procurou os lbios de Kristina, avivando as chamas que o devoravam. Ser consumido pela chama do desejo 
era uma boa forma de morrer.
   Bem, tinha mordido o anzol, pensou Kristina. O seu plano estava a funcionar muito bem.
   O seu plano?
   O seu plano. Tinha que se agarrar ao seu plano, disse para si ferozmente, tentando concentrar a sua mente adormecida pelo beijo.
   Max, por sua vez, nunca parecia ter o suficiente. Tinha a impresso que jamais se cansaria daquela mulher. A lutar para recuperar um mnimo de controlo, deixou 
Kristina no cho. 
   Kristina deslizou lentamente contra cada centmetro do seu corpo. E teve a sensao que passava uma eternidade at que os seus ps alcanaram o tapete. Durante 
essa eternidade, o seu corpo experimentou todo o tipo de sensaes maravilhosas.
   - Ests a tremer - murmurou Max.
   Ou era ele que tremia? Onde acabava a Kristina e onde comeava ele? J no estava certo disso. J no estava certo de nada, e no queria continuar a pensar em 
mais nada. A nica coisa que queria era desfrutar do prazer que inundava o seu corpo.
   Apertou Kristina entre os seus braos.
   - Talvez tenhas frio - aquele vestido no podia ser suficiente para a aquecer.
   - Aquece-me, Max - sussurrou Kristina enquanto sentia o palpitar do seu corpo.
   Talvez estivesse a desfrutar daquele encontro com mais intensidade que em toda a sua vida, mas s em parte. Porque outra parte dela estava feliz por pr um ponto 
final quela situao na hora certa.
   - Aquece-me - disse-lhe outra vez com mais paixo.
   - Ests a pr-me as coisas muito difceis - protestou Max contra a sua pele, traando um caminho de beijos pelo seu pescoo.
   Podia sentir a resposta de Kristina nas suas carcias. Podia deleitar-se na sua resposta enquanto a sua prpria pulsao alcanava uma velocidade vertiginosa.
   - Espero que sim - sussurrou Kristina. Kristina decidiu entregar-se quelas deliciosas sensaes durante mais uns minutos. S uns minutos. Dois no mximo. Os 
seus dedos pareciam actuar independentemente da sua mente enquanto lhe puxava a camisa at  cintura. Estava a improvisar e a melhorar o seu plano, nada mais. Max 
sentiu os dedos de Kristina a percorrerem o seu corpo, e o n que tinha no estmago aumentou de tal modo que apenas lhe permitia respirar.  medida que aumentava 
o entusiasmo de Kristina, iam-se abrindo um por um os botes da sua camisa. A jovem estendeu as mos sobre o seu peito nu e, uma vez esgotada toda a sua capacidade 
de auto-controlo, Max procurou o fecho do seu vestido. Mas no o encontrou.
   - Como se despe este vestido?
   - Tirando-o por baixo.
   Mordendo o lbio inferior, Kristina fez precisamente isso.
   Maldio, ia tirar o vestido num segundo, pensou Max. Teria aquela mulher ideia do que estava a fazer? Da agonia  qual estava a submet-lo?
   Durante dias, Max tinha evitado fazer amor com ela antes de lhe confessar a verdade. Mas naquele momento temia que no ltimo minuto pudesse acontecer qualquer 
coisa que o impedisse. A urgncia fundia-se com o desejo de saborear aquele instante, de memorizar cada detalhe, cada movimento.
   Com uma lentido imprpria dele, estendeu as mos para o vestido e fez o que Kristina acabava de lhe ensinar. O vestido deslizou eroticamente pelo seu corpo, 
at deixar os seus seios expostos ao seu olhar.
   Max ficou paralisado, com a respirao contida na garganta. No momento em que passou os seus olhos sobre aquele delicioso banquete, o tempo pareceu deter-se. 
E quase imediatamente, encheu a sua mo daquela sedosa pele.
   Kristina deixou escapar um grito, no de protesto, mas de assombro perante o repentino prazer que estalou no interior do seu corpo, quando Max passou as palmas 
das mos sobre os seus seios. 
   Maravilhada, arqueou-se contra ele, querendo intensificar aquele contacto. Quando Max inclinou a cabea para acariciar com os lbios cada um dos seus seios, uma 
dor doce e tortuosa apoderou-se dela.
   Kristina queria deter-se. Queria que Max se afastasse para sempre do seu lado. No exacto momento em que sentiu a delicada e tentadora carcia da boca de Max sobre 
os mamilos endurecidos, teve que morder os lbios para conter um grito.
   Encaracolando com os dedos o cabelo de Max, pressionava-lhe ligeiramente a cabea, tentando absorver a sensao ardente e selvagem que tinha criado com a sua 
boca.
   Ansioso por ver e saborear todo o seu corpo, Max tirou-lhe apressadamente o vestido at o deixar cado aos seus ps.
   Kristina, que no usava roupa interior, permanecia nua como uma deusa aos seus ps.
   Kristina tinha querido vestir um vestido que marcasse a sua silhueta para o excitar. Mas tinha-lhe sado o tiro pela culatra. Ao sentir o delicado tecido do vestido 
a deslizar ao longo do corpo, no s o tinha excitado a ele, como tambm o seu prprio desejo tinha aumentado perigosamente.
   A palavra "controlo" parecia ter deixado de ter significado para ela. Naquele momento, Max era a nica coisa que desejava, a nica coisa que queria. A adorao 
que o seu olhar reflectia fazia-lhe esquecer-se do passado e de tudo o que o futuro lhe pudesse reservar. Naquele momento, a nica coisa que queria era que aquela 
loucura continuasse.
   Mas era tal o assombro que os olhos de Max reflectiam que se viu obrigada a deter-se.
   - Que se passa?
   O sorriso de Max era to suave, to delicado e condenavelmente sexy, que Kristina teve que apertar os dentes para no lhe suplicar que fizessem amor nesse mesmo 
instante.
   - Quando era menino, nunca pude desembrulhar um presente. E pensei que gostaria de desfrutar disto durante mais alguns segundos.
   Uma frase. Era s uma frase. E uma mentira, tal como tinham sido todas as outras. Mas ento, por que a inundava uma tristeza agridoce ao pensar naquele menino 
que nunca tinha sido amado?
   Kristina desejava dar-lhe o amor que o mundo lhe tinha negado. E insultava-se, dizendo-se que era uma estpida irremedivel. Mas, mesmo assim, continuava onde 
estava, incapaz de se ir embora.
   - Ests muito vestido para a ocasio - humedeceu o lbio inferior, fazendo com que Max perdesse completamente a cabea. - Temo que tenha que fazer alguma coisa 
a esse respeito.
   Com os olhos cravados nos seus, Kristina desapertou-lhe o cinto, deixando que os seus dedos roassem os msculos do seu ventre. Reconheceu a chama do desejo no 
olhar de Max e, com um tentador sorriso, comeou a abrir o fecho.
   - Ests a pr-me louco - sussurrou Max.
   - Era essa a ideia.
   Max queria despir as calas e fazer amor com ela nesse preciso instante, mas, de alguma maneira, conseguiu controlar-se e entregar-se ao prazer de sentir os dedos 
de Kristina a deslizarem pelas suas ancas  medida que lhe ia tirando as cuecas e as calas de ganga.
   Por fim ficaram os dois nus, livres para desfrutar um do outro, livres para se deixarem arrastar pela paixo.
   Com os corpos a pressionarem-se um contra o outro, foram at  cama para se afundarem num mundo que at ento nenhum deles tinha visitado. Um mundo do qual desconheciam 
at a sua existncia.
   Max queria fazer amor com ela imediatamente. Acabar com o seu palpitar. Mas resistiu  urgncia para poder sabore-la, desfrutar dela. Para lhe brindar um prazer 
to intenso que temperasse o conflito que sem dvida chegaria depois.
   Max afastou imediatamente aquele pensamento da sua mente. No queria pensar, no queria sentir-se culpado, no queria arriscar-se a que aquilo acabasse bruscamente 
antes que tivesse chegado a bom porto.
   Ou fazia amor com ela ou morreria.
   Ou lhe dizia a verdade ou explodiria.
   - Nunca tinha sentido isto por uma mulher, Kris. S quero que o saibas.
   Mas Kristina no queria saber. No queria ouvir nada que pudesse faz-la sentir-se mais confusa do que j estava. Porque se o ouvisse, poderia chegar a acreditar 
nele. E era absurdo acreditar nas palavras de um mentiroso.
   Por mais que desejasse faz-lo.
   Aquilo estava a ir muito mais longe do que tinha imaginado. E j no era suficiente para a satisfazer. O seu corpo morria por se libertar. Desejava fundir-se 
com Max.
   Agarrou no seu rosto entre as mos, aproximou a boca de Max da sua e abafou qualquer possvel confisso que quisesse sair dos seus lbios.
   Max entregou-se totalmente quele beijo enquanto deslizava as mos ao longo do seu corpo, fazendo uma melodia que s eles podiam ouvir.
   Kristina virou-se e arqueou-se para ele, deleitando-se com os repentinos espasmos de prazer que a estremeciam enquanto Max continuava a interpretar aquela msica. 
   Max sentiu que a respirao de Kristina se tornava irregular, viu o seu corpo arquear-se e notou o estremecimento do orgasmo quando ela gritou o seu nome e se 
arqueou contra a sua mo.
   Fascinado, excitado mais do que tinha acreditado ser possvel, percorreu com a boca o resto do seu corpo, esforando-se para manter o pouco controlo que lhe restava, 
at que no final o perdeu de forma irrevogvel.
   Kristina, relaxada e frentica ao mesmo tempo, agarrou-se com fora aos seus ombros e olhou-o nos olhos. Max colocou-se sobre ela, entrelaou os dedos com os 
seus e, a olhar para ela intensamente, deslizou no seu interior.
   Com os seus corpos unidos, empreenderam juntos a ltima viagem. Lentamente no incio e aumentando a velocidade  medida que se iam aproximando do seu objectivo. 
Juntos, chegaram  exploso final. 
   
   
   Captulo Catorze
   
   Kristina desceu  Terra sem vontade. Regressou ao quarto,  cama desfeita e ao homem que a tinha enganado.
   A realidade e o remorso, com os seus dedos frios e speros, fizeram rebentar a bolha de euforia que at ento a tinha rodeado.
   O plano tinha ido muito longe, tinha deslizado entre os seus dedos excessivamente rpido para que pudesse apanh-lo. Mas ainda estava a tempo de o ferir onde 
lhe doa mais: no seu ego.
   Max sentiu que Kristina se mexia entre os seus braos e voltou a desej-la. Nunca se tinha considerado um homem insacivel, mas era-o; jamais poderia saciar-se 
de Kristina. Estava preparado para voltar a subir a montanha do prazer uma e outra vez, sabendo que ela o esperava no cimo e que juntos poderiam acariciar o cu.
   Apoiando-se sobre os cotovelos, Max colocou-se em cima dela, olhou-a nos olhos e sorriu enquanto tentava acalmar os errticos batimentos do seu corao. 
   - Foi incrvel - sussurrou.
   Kristina no deixou que as suas palavras a inundassem de prazer. E desejou que no a olhasse daquela forma que a derretia toda.
   Aquilo no era real, disse para si em silncio. Max s estava a divertir-se  sua custa, nada mais. Mas ento, por que lhe bastava sentir a sua respirao sobre 
a pele para estremecer de desejo? Que raios se passava? E por que tinha vontade de rir e chorar ao mesmo tempo?
   Sentia-se vulnervel, exposta, e precisava de voltar a erguer as suas dbeis defesas para no ceder aos seus sentimentos.
   Mas s podia pensar nele. Maldito, queria que voltassem a fazer amor! Queria fazer amor com ele at que no restasse nem uma gota de alento no seu corpo.
   Tentava chatear-se, mas a nica coisa que conseguia fazer era olhar para ele. E desej-lo.
   Max emoldurou-lhe o rosto com as mos e afastou-lhe o cabelo da cara. Um cabelo suave como a chuva. Como o seu corpo. Como era possvel que estivesse preparado 
para fazer amor com ela outra vez to rapidamente? Era como se algum tivesse acendido uma tocha no interior do seu corpo.
   - s algum realmente especial, Kris.
   - Especial como, Max? - perguntou Kristina. Aquele era o momento, pensou Max. Mas naquele instante temia mais que nunca a sua reaco.
   - Perfeita, s perfeita.
   Era uma cobardia, mas preferia ser um cobarde se isso significava que podia mant-la entre os seus braos mais um pouco.
   Com os lbios semiabertos, deslizou uma chuva de beijos pelo seu pescoo e pelo seu rosto, pelos seus seios e pelo seu ventre, at que Kristina acabou a contorcer-se 
de prazer e a desejar que lhe permitissem alcanar o paraso outra vez.
   Mordiscando a pele interior das suas coxas, Max incentivou-a a abrir-se para ele. E a seguir, com as delicadas carcias da sua lngua, acendeu a chama de paixo 
no mesmssimo corao do prazer, reduzindo-a a uma massa de palpitante desejo que s ele podia satisfazer.
   Kristina gemia enquanto se contorcia contra o calor da sua boca, desejando que continuasse e se detivesse ao mesmo tempo. Agarrada  colcha, foi sentindo como 
os espasmos se desencadeavam uma e outra vez at a deixarem to exausta que mal se lembrava do seu nome.
   O rosto de Max brilhava de suor enquanto deslizava como uma serpente ao longo do seu corpo, abrindo caminho novamente para a sua boca.
   Uma vez l, pde sentir o corao de Kristina a bater contra as suas costelas com tanta fora como se fosse o seu.
   Olhou-a nos olhos e descobriu-se a si mesmo apanhado por uma mulher que nem sequer estava consciente de que a tinham feito prisioneira.
   - s minha, Kris - sussurrou contra os seus lbios. - Acontea o que acontecer, sers sempre minha.
   Nunca na sua vida Kristina tinha desejado tanto acreditar numa mentira.
   Elevou os lbios para ele, tentando-o mais uma vez, e ofereceu-lhe o corpo para que voltasse a fundir-se com ele.
   Passaram a noite a dormitar e a fazer amor e nenhum deles se permitiu pensar que o amanh poderia roubar-lhe as maravilhas que o presente oferecia.
   O amanhecer anunciou a sua presena com raios de luz que comearam a iluminar o quarto.
   Max acordou lentamente. Abriu os olhos e descobriu-se na cama de Kristina, agarrado possessivamente  sua cintura. Kristina estava encolhida contra ele, nua e 
a dormir pacificamente.
   Por um momento, bastou-lhe olhar para ela. Mas aquele momento no durou muito. O desejo voltou a chamar com insistncia  sua porta, traduzindo-se num chamamento 
que comeava a parecer-lhe familiar. Mas no podia continuar a evitar o inevitvel. Sabia que tinha chegado o momento de lhe dizer a verdade. Embora no tivesse 
a menor ideia de como faz-lo.
   Algo lhe fez ccegas na bochecha. Kristina estava a espreguiar-se. Estava acordada. E no estava sozinha.
   Abriu os olhos... e mal foi capaz de conter um gemido.
   - Max.
   Era um grito de surpresa, horror e muitas outras coisas que Max no foi capaz de identificar. Mesmo assim, ps o brao em redor da sua cintura e sorriu.
   - Sim, sou eu.
   Kristina sentiu o seu brao e desceu o olhar. Imediatamente, agarrou no lenol para se tapar.
   Aquela repentina vergonha parecia quase comovente.
   - No achas que  um pouco tarde para isso? perguntou-lhe Max com um sorriso.
   A frustrao e o aborrecimento cresciam no interior de Kristina enquanto sentia as suas bochechas a corar. Talvez fosse to culpada como ele do que tinha acontecido 
na noite anterior, mas no estava disposta a compartilhar isso. 
   - Fora - ordenou-lhe, com a fria a iluminar o seu olhar.
   A ltima coisa que Max esperava era aquele tipo de reaco.
   - Kris...
   Kristina olhou para ele com os olhos semicerrados.
   - Chamo-me Kristina, no te lembras?
   Max sentiu um frio glacial nas costas. Olhou-a nos olhos. E soube.
   - Recuperaste a memria.
   Max nem sequer ia tentar fingir-se inocente.
   - Totalmente - a acusao resplandecia no seu olhar.
   - Ento, ontem  noite j sabias?
   Kristina estava  espera de desculpas, at de negaes. Porque  que Max no as utilizava?
   - Sim.
   - Ento, porqu...?
   Kristina improvisou rapidamente a sua resposta.
   - Porque queria fazer-te sofrer, essa  a razo. Queria que soubesses o que podias ter chegado a ter, mas nunca ters.
   - No tenho a certeza de estar a entender. Fizemos amor, tive-te, como tu dizes.
   - S por uma noite - replicou ela. - Mas poderia ter durado muito mais.
   Poderia ter durado para sempre, sussurrou-lhe uma voz interior. Ainda podia durar. Mas Kristina silenciou-a bruscamente.
   - Ainda pode durar - respondeu Max, esticando o brao para ela. Maldita fosse, seria complicado, mas no impossvel. Nada era impossvel. Se Kristina o permitisse, 
poderia corrigir o que tinha acontecido. 
   Nessa altura, Kristina afastou-se e sentou-se na cama.
   - Por quem me tomas, por uma idiota? Como  que vou querer estar com um homem que me mentiu? Que me tomou por estpida?
   - Ningum te tomou por estpida, Kris. Kristina envolveu-se no lenol e olhou para ele, indignada.
   - Ai, no? Ento por que me fizeste mascarar de criada de quarto? Parece-me que ainda  um pouco cedo para o Dia das Bruxas.
   A nica arma da qual Max dispunha era a verdade.
   - Admito que te enganei, mas...
   Kristina sabia que o tinha feito, mas ouvi-lo admiti-lo doeu-lhe mais do que teria pensado ser possvel.
   - Mas fi-lo por uma boa razo - continuou Max a dizer.
   Era assim que pretendia justificar-se? A dizer que o tinha feito por uma boa razo?
   - Tenho a certeza que sim - o sarcasmo vibrava em cada uma das suas palavras. - E que razo era essa? Querias mostrar aos outros como podias humilhar-me?
   - A nica coisa que queria era mostrar-te o hotel da perspectiva dos empregados. Queria que os conhecesses, que visses o que eles viam e sentisses o que eles 
sentiam.
   Kristina levantou o queixo. No pensava deixar-se enganar pelas suas bonitas palavras.
   - A nica coisa que querias era ridicularizar-me.
   - Sim,  possvel que tenha comeado assim, a tentar pr no seu lugar uma estpida. Mas tu mostraste-me que no o s. Mostraste-me uma mulher doce, disposta a 
ajudar e to condenavelmente sexy que me fez engolir o que disse. 
   Kristina no acreditava nele. No podia acreditar nele. Max tinha estado a mentir-lhe de forma contnua. Como podia acreditar no que ele lhe dissesse?
   No era a primeira vez que tinha que enfrentar algo assim. O ressentimento causado por ser quem era. E no iria permitir que Max a convencesse com a sua lbia 
s porque o seu corpo continuava a vibrar ao pensar nas suas carcias.
   Quando Max voltou a esticar o brao para ela, fechou o punho e empurrou-o.
   - Sai imediatamente do meu quarto.
   - No vou, Kris. No me irei embora at te acalmares.
   Kristina apertou os dentes.
   - J te disse que me chamo Kristina. E no acho que possa ficar calma brevemente - levantou a cabea com um gesto rgido. - O que vou fazer  tirar-te do meu 
quarto, vestir-me e abandonar este lugar de pouco valor.
   Aquela ameaa fez com que o corao de Max se acelerasse. Ir-se embora?
   - Para onde vais?
   - Para o mais longe possvel.
   Max tinha que encontrar uma maneira de a fazer ficar. Precisava de tempo para lhe fazer ver a razo. Decidiu utilizar a nica arma que tinha  mo.
   - E o hotel?
   Sabia que o hotel era a nica coisa que lhe importava.
   - Estive a pensar em vender a minha parte - tinha estado a pensar nisso a noite anterior, enquanto se arranjava para o jantar. Claro que ainda no tinha nenhum 
comprador, mas pareceu-lhe justo mentir-lhe. - Em breve ters notcias do outro proprietrio que deves enganar ou seduzir.
   -Vais vender a tua parte do hotel? 
   Genial, aquilo tinha-lhe dodo. Kristina decidiu pr o dedo na ferida.
   - Na realidade, j fiz um acordo. Regularizei tudo ontem  tarde. O meu advogado est a preparar os papis. E agora, sai de meu quarto. J no temos nada a falar.
   Oh, no, no ia desfazer-se dele to facilmente.
   - Oh, claro que temos que falar. Ontem  noite no significou nada?
   - Foram s doze horas que se alargaram excessivamente - disse-lhe.
   Max negava-se a acreditar no que estava a dizer-lhe.
   - Fizeste amor comigo - disse, zangado. Foste tu, e no Kris, quem fez amor comigo.
   Kristina corou violentamente. Pensava que Max no tinha maneira de entender isso.
   - J te disse...
   - Ningum  to boa actriz - interrompeu-a Max. - Tu desejavas-me.
   Sim, desejava-o. E continuava a desej-lo. Encolheu os ombros, fingindo desinteresse.
   - Digamos que o que se passou no foi mau. Mas no foi assim to incrvel para nos deixarmos iludir. Estive sempre no controlo da situao, compreendes? Todos 
os segundos.
   - Pois fico contente que ao menos um de ns tenha sido capaz de se controlar.
   Max levantou-se da cama sem se incomodar em esconder a sua nudez e permaneceu  frente de Kristina, envolto unicamente no seu aborrecimento. Com um olhar cada 
vez mais frio, disse-lhe:
   - E pensar no tempo que perdi a sentir-me culpado por estar a enganar-te. Oxal me tivesse economizado a chatice - se estavam a falar de estpidos, ele acabava 
de ganhar o primeiro prmio. - V, vai. Vende a tua parte do hotel. Mas, antes de te ires embora, quero que saibas que acho que as tuas ideias eram boas.
   Aquela admisso apanhou-a completamente desprevenida, mas recuperou-se rapidamente.
   - Obrigada - disse-lhe. - Isso j eu tinha constatado. E pretendo utilizar essas mesmas ideias no hotel que estou a construir.
   Max ficou boquiaberto.
   - Que ests a construir...?
   - Sim, um hotel. E pretendo montar uma cadeia, Cooper. A ideia  condenavelmente boa, no ? Mas  minha. Alm disso, tenho mais dinheiro e recursos que tu. De 
modo que, se eu estivesse no teu lugar, economizaria o dinheiro e deixaria o hotel tal como est. De facto, se no encontrar outro comprador,  possvel que at 
te ceda a minha parte como presente de despedida.
   Gostou do que lhe disse. Ela j no queria ter nada a ver com aquele lugar, embora tivesse pertencido  sua av.
   - Podes continuar aqui sem fazer absolutamente nada.
   Exasperada e desejosa de interromper a conversa, Kristina agarrou no livro que tinha na mesa-de-cabeceira, o livro que tinha encontrado na sua mala e que lhe 
tinha devolvido a memria.
   - E agora sai imediatamente daqui! - gritou-lhe, enquanto os olhos se lhe enchiam de lgrimas.
   A seguir, atirou-lhe o livro, que bateu contra a porta que Max estava a fechar atrs de si.
   - Definitivamente, Kristina Fortune voltou - murmurou Max.
   E comeou a descer pela escada das traseiras, agradecendo o facto de no haver nenhum hspede no hotel e de todos estarem a dormir.
   Mas aquela convico morreu bruscamente ao cruzar-se com Sam no corredor. Este percorreu-o com o olhar dos ps  cabea e arqueou as sobrancelhas sem poder esconder
a sua diverso.
   - Nem uma palavra a ningum, Sam. Nem uma palavra - advertiu-lhe Max.


   Captulo Quinze

   - H quanto tempo nos conhecemos, Max? Max levantou o olhar da secretria. June estava  porta e, pela sua expresso, devia estar h um bom bocado a observ-lo.
   No havia espao no escritrio. Havia folhetos, amostras de papel de parede e de diferentes tecidos. E tudo estava directamente relacionado com a renovao do
hotel. Com a ameaa de Kristina a ressoar-lhe ainda na cabea, Max tinha-se lanado a remodelar o hotel a toda a velocidade.
   Paul tinha-se mostrado disposto a assumir quase todo o peso da obra at que Max tivesse terminado. Mas acabavam de conseguir um novo projecto em So Clemente.
Faltava menos de uma semana para que acabassem um complexo e comeassem a trabalhar noutro. Max nunca se tinha sentido to condenavelmente aflito em toda a sua vida.
   Nem to condenavelmente s.
   Respondeu vagamente  pergunta de June. Aquela no era a altura certa para andar com adivinhaes.
   - No sei, June. Dez, talvez quinze anos.
   June atravessou o escritrio, tirou as coisas de cima de uma cadeira sem nenhuma cerimnia e sentou-se em frente dele.
   - Dezanove anos, Max. Conheo-te h dezanove anos e, em todo este tempo, nunca te vi assim.
   Max passou a mo pelo cabelo. As amostras de papel de parede comeavam a diluir-se perante os seus olhos. Maldita fosse, por que tinha que ser tudo to complicado?
Com um suspiro de resignao, escolheu uma delas. Mas logo a seguir rejeitou-a.
   - Esta  uma nova fase - disse.
   -  um inferno. No se mente a uma pessoa mais velha, Max. No gosto.
   Aquilo conseguiu captar a sua ateno. Levantou o olhar para ela e na sua boca apareceu um sorriso.
   - No s nenhuma velha, lembras-te?
   - Sou mais velha que tu. Pelo menos o suficiente para saber quando cometeste um erro.
   A Max pareceu-lhe detectar uma nota de seriedade na sua voz.
   - Ai, sim?
   Mas June no tinha ido ali para falar do seu prprio passado. Deixou escapar um suspiro com impacincia.
   - Estou a falar contigo, rapaz. Presta ateno. Max recostou-se na cadeira e olhou para June,
   tentando concentrar-se no que estava a dizer.
   - Que erro cometi? - Apontou para os ltimos esboos de como achava que deveria ser o hotel. As casas de banho so muito pequenas ou...?
   - As casas de banho esto bem, Max,  a tua cabea que  muito pequena. Desde que ela se foi embora, no voltaste a ter uma ideia de jeito.
   Max no ia perguntar-lhe a quem estava a referir-se.
   - Ela foi-se embora June. A deciso foi dela.
   - Pois foi, mas tu podes decidir ir busc-la.
   - E fazer o qu? Arrastar-me aos ps dela? Suplicar-lhe? Esse no  o meu estilo, June.
   - No estamos a falar de estilos, Max. Estamos a falar de erros, de erros que podem perseguir-te durante toda uma vida se no fizeres nada para os emendares.
Quem to diz  uma mulher que sabe do que est a falar.
   Max no pde evitar perguntar com certo sarcasmo:
   - E que histria vais contar-me agora para que eu perceba?
   Se pretendia que assim o deixasse em paz, no teve sucesso. June limitou-se a abanar a cabea e disse com tristeza:
   - Meu Deus, s um amargurado, no s?
   Esgotado, Max entrelaou as mos atrs do pescoo e deitou-se para trs, soprando. No tinha direito de falar com June daquela maneira.
   - Desculpa, June. A srio. No devia ter-te dito isso.
   - No, no devias. O que devias fazer  recuperar o juzo.
   Mas do que estava June a falar? Estava a pr-se do lado daquela snobe que tinha sado a fugir do hotel?
   - A srio que gostas dela? - perguntou-lhe, incrdulo.
   - Sim, gosto - viu a surpresa desenhada no seu rosto. - Talvez no da rapariga que chegou no incio, mas da que esteve no hotel quase todo o tempo.
   Sim, ele tambm.
   - Isso era um engano, June. Na realidade, ela no  assim.
   - Kris no teria podido comportar-se como o fez se no fundo no fosse assim - insistiu. - A amnsia pode ter-lhe roubado parte da sua lngua afiada, mas no funciona
como uma lobotomia. E se no acreditas em mim, podes pergunt-lo ao teu amigo mdico. Por detrs dessa jovem to descarada, esconde-se uma doce rapariga que talvez
tema s-lo por medo de no ser levada a srio, nunca te ocorreu isso?
   - No, estava muito ocupado a tentar recuperar-me das mordidelas de serpente.
   - Acho que chegou o momento de te contar a minha histria, Max.
   Max no queria ouvir histria nenhuma, nem real nem fictcia. A nica coisa que queria era que o deixassem em paz. Olhou para a porta. Se June no se fosse embora,
iria ele. Comeou a levantar-se.
   - Eu...
   June agarrou-o pelo pulso, obrigando-o a sentar-se outra vez.
   - Fecha a boca e ouve. S vou dizer-te isto uma vez - interrompeu-se e, quando voltou a falar, a sua voz deixou de ser a da mulher que Max sempre tinha conhecido
para se converter na da jovem que tinha sido noutro tempo.
   Max ouviu-a, fascinado pela mudana.
   - Quando eu era muito mais jovem que tu, apaixonei-me por uma pessoa - sorriu com nostalgia. - Era o melhor e o mais doce homem que Deus poderia ter criado.
   Max riu. Aqueles adjectivos eram as ltimas coisas que poderiam aplicar-se a Kristina Fortune.
   - At agora no encontro nada parecido - June dirigiu-lhe um olhar de advertncia. - Est bem, est bem, ficarei calado.
   - O problema foi que os meus pais no gostavam dele. Bom, na realidade, no o conheciam, s sabiam o que tinham ouvido sobre "gente como ele". Era assim que se
dizia antigamente - acrescentou com tristeza. - Como vs, Joshua tinha um passado diferente do meu. Uma herana diferente, uma religio diferente... Os meus pais
proibiram-me de casar com ele. Joshua suplicou-me que fugisse com ele, mas eu era uma filha prendada. Tinha medo e disse-lhe que no. E dessa forma parti o corao
do melhor e mais doce homem desta terra.
   Ao terminar o seu relato, June voltou a suspirar.
   - Se lhe tivesse dito que sim, esta Primavera faramos quarenta anos de casados.
   Comovido, Max procurou a sua mo e cobriu-a com a sua.
   - Onde est agora?
   - Perdi-lhe o rasto. Mas no h um s dia em que no me arrependa de no lhe ter dito que sim - interrompeu-se, como se estivesse a pensar se devia ou no dizer
mais alguma coisa. Mas Max era importante para ela, pelo que continuou: - Tentei localiz-lo quando os meus pais morreram, mas j era tarde demais - levantou a cabea
e fixou o olhar em Max. - No deixes que contigo se faa tarde demais, Max. Vai procur-la e v no que d.
   Levantou-se e dirigiu-se para a porta, tendo cuidado para no pisar nada do que havia no cho.
   - No vais conseguir nada de bom, nem para ti nem para ns, at que o faas.
   Max assentiu lentamente.
   - Talvez tenhas razo.
   - Claro que tenho - respondeu June com um sorriso. - E agora, reserva um bilhete para Minneapolis e demonstra a essa rapariga de que material s feito.
   - Hum, menina Fortune?
   Kristina esfregou a cana do nariz. Comeava a doer-lhe a cabea outra vez. Ou seria a mesma do dia anterior disposta a reaparecer? Desde que tinha regressado
do hotel, tinha dores de cabea uma aps outra.
   Perante a insistncia da sua me, tinha ido fazer um exame ao hospital, mas os resultados tinham sido os mesmos que os de La Jolla. No era nada que umas compridas
frias ou uma nova amnsia no pudesse curar. Uma amnsia para poder esquecer aquele patife de sorriso devastador.
   A ltima coisa que queria naquele momento era outra interrupo. Reprimindo o seu aborrecimento, olhou para a sua secretria.
   - Sim, jennifer?
   - H um homem aqui fora que diz que quer v-la.
   Kristina olhou para o calendrio. No tinha nenhum encontro marcado para aquela hora. O que tinha era uma reunio quarenta minutos depois.
   - Diz-lhe que ter que esperar. Estou ocupada.
   - Pois diga-lhe que j esperei durante duas semanas e que no estou disposto a esperar nem mais um minuto - respondeu Max, passando  frente da secretria.
   Kristina ficou boquiaberta. Durante um momento de distraco, o seu corao encheu-se de alegria. Mas rapidamente a sufocou.
   Jennifer olhou para Max como se estivesse prestes a ver o King Kong a levar Kristina para o Empire State Building.
   - Quer que chame a segurana, menina Fortune?
   - No, no faz falta. Sou capaz de me entender com este homem sozinha.
   - Tens a certeza, Kris? - Max entrou lentamente na sala. Era como uma pantera a espreitar a sua presa. - Eu diria que sair a fugir no  maneira de se entender
com ningum. Kristina apertou os punhos.
   - Podes ir, Jennifer - quando a secretria fechou a porta atrs de si, virou-se para Max e olhou para ele, furiosa. - Que pretendes ao vir at aqui e fazer uma
cena?
   - Pensei que seria a forma mais rpida de me prestares ateno - apoiou-se contra a secretria.
   - Toma, trouxe-te isto - Estendeu-lhe os cartes de crdito que tinha retido no hotel.
   Kristina no se incomodou em receb-los.
   - J os substitu. Agora, sai daqui, Cooper. Max esboou um lento e preguioso sorriso.
   - S penso ir-me embora contigo.
   - Temo que vs ter que te ir embora sozinho.
   - Queres apostar? Acabo de passar trs horas dentro de uma lata que voava mais alto do que posso suportar e no penso repetir essa viagem at ter a cabea ocupada
com qualquer outra coisa que possa distrair-me - Max ps os polegares nas presilhas das calas de ganga, para evitar esticar as mos at ela. - Imaginei que trabalharias
aqui.
   - Sim, tenho um trabalho - disse Kristina. Uma carreira. Sou directora de publicidade.
   Incapaz de se conter, Max inclinou-se para a frente e brincou com uma madeixa do cabelo de Kristina.
   - Gostava mais de ti no hotel. Kristina retrocedeu.
   - Sim, suponho que gostasses mais de uma marioneta que podias manejar a teu bel-prazer.
   - Eu fiz isso, Kris?  verdade que te manejei a meu bel-prazer? - perguntou Max com uma voz suave e sedutora. - Obriguei-te a fazer alguma coisa que no quisesses?
   - Fizeste-me trabalhar como criada de quarto. Max conteve-se para no se descontrolar. Aquela era uma situao que tinha que conduzir com pacincia.
   - Simplesmente pensei que a uma pessoa como tu lhe faria bem um pouco de trabalho fsico - viu a fria que os seus olhos reflectiam, mas continuou, sem se importar:
- E surpreendeste-me a trabalhar muito melhor do que esperava. Em todos os sentidos.
   Maldito! Kristina podia sentir o seu corao a bater em resposta ao seu olhar. Que raios se passava?
   - Supe-se que devo sentir-me lisonjeada?
   - Supe-se que tens que estar disposta a perdoar - Max passou a mo pelo cabelo, a desejar saber qual era a melhor forma de agir. Tinha pensado nisso uma e outra
vez durante o voo, mas no tinha encontrado a resposta. - Queres que te suplique que me perdoes?
   No, o que ela queria era que se fosse embora.
   - No era mau.
   Max agarrou-lhe na mo.
   - Est bem. Kristina, volta, por favor.
   Kristina esperava que girasse sobre os seus calcanhares e se fosse embora, no que obedecesse. Por um momento, s foi capaz de olhar fixamente para ele, completamente
aniquilada. Depois, afastou a mo.
   - No h razo nenhuma para eu voltar. J no sou proprietria do hotel, lembras-te?
   - Mas ainda ests a tempo de ser co-proprietria.
   De que raios estava a falar?
   - Mas como? Eu...
   Max voltou a agarrar-lhe na mo, por um lado para a reter ao seu lado e, por outro, para evitar que lhe atirasse alguma coisa  cabea.
   - Casa-te comigo, Kris. Assim poders voltar a ser proprietria do hotel. Esse lugar vai converter-se num recanto ideal para luas-de-mel, tal como tinhas planeado.
E precisa de recm-casados.
   Oh, no! Max no ia consegui-lo outra vez. J a tinham enganado uma vez. Libertou a sua mo, virou-se para a secretria e comeou a ordenar os seus papis.
   - Ento casa-te com outra.
   Evidentemente, a sua estratgia no estava a funcionar. Max agarrou-a pelo brao e obrigou-a a voltar-se para ele.
   - F-lo-ia se fosse capaz de pensar correctamente. Ocupaste todo o meu crebro, distorceste toda a minha vida e no sou capaz de deixar de te desejar. Sinto muito
ter-te mentido, fi-lo porque estava desesperado, mas, uma vez dita a mentira, j no podia remedi-la - Kristina tinha que entender, tinha que lhe perdoar. - Eu
queria contar-te e tentei faz-lo.
   Apesar de tudo, Kristina estava consciente do muito que desejava acreditar nele. Mas isso era por causa da parte do seu crebro que se negava a aprender com os
erros.
   - Quando? - perguntou-lhe friamente.
   - Dzias de vezes. Mas cada vez que tentava, pensava nas consequncias. Nestas consequncias - apontou  sua volta. - E tinha medo de me arriscar. No queria
que me abandonasses.
   - Esperas que acredite em ti?
   Max no deixava de olhar para ela nos olhos. Procurava neles perdo e compreenso pelo que tinha feito.
   Kristina levantou o queixo, em jeito de desafio.
   - Porqu? - Convence-me, Max, convence-me", suplicava-lhe em silncio.
   - Porque  a verdade, maldita sejas!
   - Demonstra-mo.
   - Como? No posso conseguir uma declarao que o demonstre... Inferno!
   Max apertou-a nos seus braos e beijou-a, libertando toda a paixo que tinha estado a reprimir durante as duas ltimas semanas.
   Os joelhos de Kristina tinham-se transformado em gelatina quando Max a soltou. Apenas podia fixar o olhar no seu rosto. Decidiu concentrar-se no mal que se tinha
sentido quando tinha descoberto que Max a tinha humilhado. E quase funcionou.
   - E supe-se que isto tem que me convencer? - perguntou com uma voz tnue.
   - Pelo menos tanto como me convenceu a mim - Max inspirou e apoiou a testa contra a de Kristina. Poderia continuar a dizer-lhe que no, mas ele j tinha saboreado
outra resposta nos seus lbios. - D-me outra oportunidade. Todos sentem saudades tuas.
   - Sim, claro.
   - Claro que sim - por que lhe era to difcil acreditar? - Nunca tiveste saudades de ningum?
   - No sei - respondeu Kristina, pensativa. Mas podes ter a certeza que no  a primeira vez que me enganam.
   - Esquece o passado, Kris.
   - No posso - Custava-lhe, mas queria dizer-lhe a verdade. Talvez essa fosse a nica maneira de a deixar em paz. - Gostava muito deles.
   No era esse o efeito que se supunha ter tido aquela confisso. Viu que Max sorria como se acabasse de ganhar a lotaria.
   - Muito bem, j o disse, mas no te emociones tanto. No conhecia ningum, e no sabia que todos vocs estavam a rir de mim ao verem-me exposta ao ridculo.
   - Quando? Quando achas que estavas exposta ao ridculo?
   - Quando... Oh, tu sabes.
   - No sei.
   - Todas as vezes que me ofereci a ti - disse entre dentes.
   Ento era isso que estava na raiz do problema?
   - E eu no te aceitei - deu um passo para ela, mas Kristina retrocedeu, tentando manter as distncias entre eles.
   - Exacto.
   - E em algum momento paraste para pensar porque  que eu no te aceitei? Kristina, no queria aceitar o que me oferecias porque no queria aproveitar-me de ti.
   Se achava que estava disposta a engolir aquilo, considerava-a realmente uma estpida.
   - Ento porque  que o fizeste?
   - Porque morria se no fizesse amor contigo - disse-lhe em voz baixa. - Satisfeita? Precisava mais de ti do que de ar para respirar. E continuo a sentir o mesmo.
E agora, vais facilitar-me as coisas ou no?
   Estava a confundi-la. E Kristina no gostava de se sentir confusa. Comeou a andar.
   - Eu...
   Max agarrou-a pelo brao.
   - Estou a tentar ser razovel contigo - no instante seguinte, levantou-a nos braos. - Agora vens comigo. E tenta mentalizar-te disso.
   Quase sem se dar conta, Kristina ps-lhe os braos  volta do pescoo.
   - E eu no tenho nada a dizer a esse respeito?
   - Podes dizer que sim.
   - Posso denunciar-te por rapto, sabias?
   - Antes teriam que nos apanhar - Deu-lhe um beijo na bochecha. - Em qualquer caso, acho que vale a pena correr o risco.
   - Porqu? - Kristina queria, precisava de ouvir a razo.
   - Porque te amo.
   Kristina no esperava aquela resposta. Emocionada, aconchegou-se ainda mais entre os seus braos.
   - Amas-me? Max riu.
   - No me ests a ouvir? Deixei o hotel a meio das obras, j para no falar da minha empresa de construo, para vir ajoelhar-me aos teus ps. Para a maioria das
pessoas, isso significaria que isto  algo mais que um capricho.
   Mas Kristina mal ouvia a sua explicao.
   - Amas-me?
   - Amo-te.
   Kristina sentia-se como se estivesse no meio de um sonho. Um sonho maravilhoso.
   - E queres casar comigo?
   Max mordiscou-lhe carinhosamente o pescoo.
   - Parece que comeas a entender-me.
   - E pensas levar-me assim at La Jolla?
   - Se tiver que ser, sim,
   Kristina dirigiu-lhe um sedutor sorriso.
   - Pe-me no cho, Max.
   - Porqu?
   - Porque quero sentir o teu corpo contra o meu enquanto te beijo.
   - Finalmente estamos de acordo em alguma coisa - soltou-a, deslizando-a lentamente ao longo do seu corpo.
   - Acho que podemos chegar a acordo em muitas outras coisas.
   - Conto com isso.
   Nesse momento soou o intercomunicador da secretria de Kristina. Sem deixar de abraar Max, a jovem esticou o brao para poder atend-lo.
   - Sim?
   - Est bem, menina Fortune? - perguntou Jennifer.
   - Nunca estive melhor. Cancela todos os meus compromissos, Jennifer.
   Jennifer estava a dizer qualquer coisa sobre a reunio que tinha pendente quando Kristina desligou o intercomunicador.
   - Onde amos? - perguntou a Max. Max aproximou os seus lbios dos dela.
   - Acho que por aqui.
   - Ah, sim, j me lembro - respondeu Kristina com um suspiro.
   Max sorriu antes de a beijar.
   - No te preocupes, se te esqueceres, estarei sempre ao teu lado para to lembrar.
   E era uma promessa que pretendia cumprir.


   Eplogo

   Era um quarto que raramente utilizava, mas como era grande, proporcionava o espao que necessitava para uma reunio como aquela. Sterling sabia que podia ter
pedido aos membros da famlia Fortune que se reunissem na manso do lago Trevis, mas algo o tinha induzido a procurar um terreno neutro para a bomba que estava a
ponto de lanar.
   Alm disso, era ali, na sua prpria casa, onde realmente devia estar Kate. Tinha sido em sua casa que Kate tinha deixado de ser a mulher que estava no comando
de um importante emprio para se converter numa mulher muito mais vulnervel. Uma mulher que precisava de ser protegida.
   Uma mulher que precisava dele.
   De modo que Sterling tinha contactado com todos os membros da famlia e tinha-lhes pedido que se reunissem em sua casa.
   O advogado sorriu para si mesmo e parou um momento antes de entrar no salo, saboreando a aura de excitao e mistrio que destilava aquela reunio.
   Embora tivesse a mesma informao que os outros sobre os motivos pelos quais os tinham convocado, a confuso no aplacava a alegria de Kristina. Alegrava-lhe
o corao o simples facto de estar ali. Depois de ter vivido, embora s durante uns meses, com aquele vazio interior, a mera presena da sua famlia tinha-se convertido
num bem muito valioso para ela.
   Devia estar a sorrir como uma tola, pensou, mas no lhe importou.
   Max inclinou-se para ela e olhou de soslaio para o homem que estava em frente  lareira. O homem que em breve seria seu sogro, se tudo corresse como esperava.
E no lhe pareceu especialmente reconfortante a sua expresso.
   - Aqui h mais pessoas que no ensaio do coro dos mrmones - sussurrou a Kristina ao ouvido.
   - A srio que so todos teus parentes?
   Kristina assentiu e virou a cabea para responder num sussurro:
   - De uma forma ou de outra, sim.
   Rebecca sorriu enquanto olhava para Kristina e para Max. Formavam um casal adorvel, pensou ao ver as suas cabeas unidas, pareciam duas crianas perdidas no
seu prprio mundo. Fazia muito tempo que ela no tinha uma relao assim.
   Mas se queria um par, reflectiu, poderia cri-lo ela mesma e dar-lhe vida nas pginas dos seus livros. Sim, podia criar um heri que merecesse o seu corao.
Um heri que poderia parecer-se com...
   Rebecca afastou rapidamente aquela ideia da sua cabea, embora prometesse a si mesma comear a pensar em ter, muito em breve, um beb to adorvel como a filha
de Caroline, e aproximou-se de Kristina.
   Rodeou com o brao uma das suas sobrinhas favoritas e dirigiu a Max um sorriso.
   - De que esto vocs a falar?
   Nate soprou e olhou com impacincia para a porta, perguntando-se onde estaria o maldito anfitrio.
   - Talvez Kristina saiba por que nos reuniu Vossa Majestade - comentou Nate, chateado. - Primeiro faz-nos acreditar que se trata de uma questo de vida ou morte
e depois desaparece. Mas quem pensa ele que ? Houdini? Como se eu no tivesse mais que fazer!
   - Sim, querido - Brbara piscou o olho  sua filha enquanto tentava consolar o seu marido. - Todos sabemos que s um homem muito ocupado.
   - E tambm muito feliz - disse Rebecca, cravando o olhar no seu irmo.
   Nate agarrou ento na mo de Brbara. As linhas do seu rosto pareceram relaxar e esboou um sorriso. Brbara era a sua ncora, o seu porto. E ele sabia, melhor
que ningum, o afortunado que era ao t-la ao seu lado.
   - Isso no vou discuti-lo.
   Lindsay elevou ento os olhos ao cu.
   - Ah, sempre h uma primeira vez para tudo! Zach Bolton desviava o olhar de cada um dos Fortune, cada vez mais confuso. Para ele, era mais fcil tentar aprender
todas as mudanas ocorridas no mundo ao longo daquele sculo do que lembrar-se dos membros da famlia de Jane.
   Jane tinha estado a prepar-lo pacientemente, mostrando-lhe fotografias e explicando-lhe a biografia de cada um deles, mas Zach ainda tinha dificuldades em relacionar
os rostos com os nomes.
   A chegada de um novo casal  sala f-lo voltar-se para Jane  procura de um esclarecimento.
   - E esses quem so?
   - Ela  Kristina Fortune, a minha meia-irm. E ele ... - interrompeu-se e olhou para Kristina, arqueando uma sobrancelha  procura de ajuda.
   Bom, se ia fazer parte da famlia, devia atrever-se a dar o salto, pensou Max. Estendeu a mo ao outro homem e, quando reparou na sua sensao de incmodo, compreendeu
que no estava s.
   - Chamo-me Max Cooper
   O outro homem apertou-lhe a mo com firmeza e o lao que acabava de se formar entre eles tornou-se muito mais forte.
   O nome pareceu familiar a Jane. Olhou para Kristina, tentando lembrar-se se esse era o homem do qual o seu pai lhe tinha falado.
   - O scio de Kristina? - indagou.
   Max e Kristina trocaram um olhar divertido.
   - Para toda a vida, espero - disse Max, antes que Kristina pudesse dizer alguma coisa.
   Em questo de segundos, comearam todos a movimentar-se em direco a eles, com os braos estendidos para os abraar, as mos estendidas para os apertar e muitos
votos de felicidades.
   - Um casamento?
   - Felicidades.
   - Eh, bem-vindo  famlia.
   Max gostou de se sentir aceite. Gostou mais do que imaginava. At a esse momento, no tinha reparado que tinha estado a conter a respirao, expectante. Que Kristina 
tivesse aceitado casar-se com ele tinha sido um grande passo, mas seria incompleto sem contar com a bno da famlia.
   Max sentiu uma mo nas suas costas e ao voltar-se encontrou-se com um rosto bronzeado de feies duras a sorrir-lhe de orelha a orelha.
   - Finalmente! Nunca pensei que houvesse algum suficientemente tolo para me tirar a minha irm das mos - Grant McClure riu e abraou Kristina. - Bem-vindo a 
esta casa de loucos, irmo disse a Max.
   Irmo. Gostava que o chamassem assim.
   - Foi para isto que Sterling nos fez vir? - quis saber Michael, enquanto abraava Kristina. - Para anunciar o teu casamento?
   - No acho - Kristina beijou o seu irmo na bochecha e depois abraou Kyle, - entre outras coisas, porque no sabe - olhou para a sua me, pedindo-lhe desculpas 
com o olhar. Pretendia ter-lho dito a ss antes que o resto da famlia soubesse da notcia. - At agora, ningum sabia.
   - Falando do rei de Roma - murmurou Kyle, e apontou para a porta do quarto.
   Sterling Foster permanecia  porta, com uma expresso indecifrvel.
   No extremo oposto do quarto, Allie e Rocky deram um passo  frente, sem esconderem a sua preocupao. E a alegria e os votos de felicidades desvaneceram-se como 
se nunca tivessem habitado aquele espaoso quarto.
   Allie expressou em voz alta a pergunta que todos tinham em mente.
   -  algo relacionado com o pap?
   Sentiu a mo de Rafe a agarrar a sua, como mostra do seu apoio.
   Luke pousou a mo no ombro de Rocky, que parecia a ponto de saltar.
   - Maldita seja, solta-o j! - exclamou Nate. No temos tempo para estarmos com rodeios. Diz-nos de uma vez por todas o que se passou com Jake. 
   - Isto no tem a ver com Jake - replicou o advogado. - Pelo menos directamente.
   - E indirectamente, tem? - pressionou-o Adam.
   - De certo modo - respondeu Sterling. Aquela reunio no tinha sido ideia sua, mas nunca tinha sido capaz de negar nada a Kate e tinha sido ela quem tinha querido 
apresentar-se  frente de toda a famlia reunida.
   Parecia incomodado, notou Natalie, observando atenciosamente o advogado. Mas porqu? E com qu? Provavelmente tinha que lhes comunicar algo devastador, algo que 
os afectaria a todos.
   - Por favor - pousou a mo no brao de Sterling, forando-o a passar, - de que modo?
   No havia outra forma de dizer aquilo, apenas diz-lo.
   - Kate...
   Rebecca abriu os olhos como holofotes.
   - Encontraram o assassino da minha me? Kate, que estava j cansada de esperar, deu um passo  frente, saindo da biblioteca na qual Sterling lhe tinha pedido 
que esperasse at que preparasse os outros para a sua apario.
   - No, encontraram a tua me.
   - Oh, meu Deus!
   Ningum soube quem o tinha dito. Foi como se a morte tivesse entrado de repente no quarto e estivesse a movimentar-se entre eles.
   Ningum falava, ningum respirava.
   Rebecca foi a primeira a recuperar-se, embora continuasse completamente atordoada.
   - Mam? - sussurrou.
   Temia mexer-se e que a sua me, a sua adorada me, pudesse desvanecer-se como o fumo.
   Kate Fortune olhou  sua volta, contemplando todas aquelas pessoas que amava mais que a sua prpria vida. Sem elas, no havia vida possvel. Tinha chegado a compreend-lo 
durante aqueles meses interminveis de exlio.
   - Sim - a voz de Kate no era muito mais forte que a da sua filha, - sou eu.
   - Como...? - Lindsay no foi capaz de encontrar palavras para completar a pergunta.
   Como se acabasse de sair de um transe, Kristina estendeu a mo para tocar na mo da sua av. Ao sentir o calor dos seus dedos, abriu os olhos como holofotes e, 
 beira das lgrimas, jogou-se nos seus braos.
   - Oh, meu Deus, ests viva! - soluou contra o ombro de Kate.
   Kate teve que engolir em seco antes de poder falar. Esticou os braos em redor da sua neta e sussurrou contra o seu cabelo:
   - Sim, completamente viva.
   E ento, o silncio foi quebrado por uma torrente de palavras, de perguntas, que vinham de todos os cantos da sala. Sterling retrocedeu, permitindo que Kate desfrutasse 
daquele momento de glria.
   Kate tinha tido sempre os seus momentos de glria, pensou. Um sorriso assomava aos seus lbios enquanto contemplava a cena. E que cena! Parecia tirada de um melodrama. 
Kate Fortune, a matriarca, tinha regressado para reclamar o seu posto naquela histria.
   Fossem quais fossem as circunstncias, Kate Fortune lembrava-lhe sempre uma rainha. Tinha-o sentido desde a primeira vez que tinha posto os olhos nela.
   E supunha que isso s podia significar uma coisa.
   Estava apaixonado por ela. Sempre tinha estado. 
   Tinha ouvido o anncio do casamento de Kristina. Em breve haveria novas mudanas na famlia, mas, por enquanto, podiam esperar. Ele podia esperar. Kate precisava 
de desfrutar da sua famlia. E ele era um homem paciente.
   - No h nada to bonito - murmurou Kate, acariciando o cabelo de Rebecca, - como encontrar algo que se achava perdido para sempre.
   Nate pressionava os lbios, temendo que as emoes transbordassem.
   - Poderamos dizer o mesmo de ti, mam sentia-se como um menino outra vez, desejando abraar a sua me para no voltar a perd-la nunca mais.
   Pigarreou. Precisava de respostas que dessem algum sentido ao ocorrido.
   - Onde estiveste? E por que fizeste toda esta farsa?
   Nate olhava para Sterling enquanto perguntava. No culpava a sua me. Ela era uma mulher dura, a vida tinha-lhe ensinado a s-lo, mas no era cruel. Aquela montagem 
tinha que ser obra de Sterling. Mas porqu?
   Ao reconhecer o desafio que o seu olhar reflectia, Sterling disps-se a responder, mas Kate negou com a cabea, dizendo-lhe sem precisar de palavras que era ela 
quem devia uma explicao.
   - O acidente de avio no foi como pensam. Algum queria matar-me e compreendi que, aps terem fracassado  primeira tentativa, voltariam a tentar. Ou tentariam 
fazer-vos mal. De modo que deixei que pensassem que tinham conseguido.
   - E deixaste que pensssemos que te tinham matado - Nate, acabado de sair do inferno, no se sentia capaz de se mostrar magnnimo.
   Brbara tentou temperar o tom do seu marido. 
   - Mas porqu...?
   Lindsay afastou o seu irmo com uma cotovelada e abraou a sua me, tal como desejava fazer.
   - No importa porqu. Eu s fico contente por no ser verdade.
   - Jake! - exclamou de repente Eria, olhando  sua volta. - Algum tem que dizer a Jake.
   - Jake j sabe - respondeu Kate silenciosamente. - Disse-lhe antes de vos dizer a vocs.
   - Antes de nos dizeres a ns? - repetiu Nate, incrdulo.
   Rebecca viu-o franzir o sobrolho e compreendeu o que estava a pensar. Mas aquele no era momento para sentimentos feridos.
   - Ento, agora o que temos que fazer  celebrar - sugeriu, e olhou para Sterling, expectante.
   Rebecca, pensou Sterling, alegrando-se com aquela distraco, era a mais parecida com a sua me.
   - Eu penso o mesmo. H champanhe a refrescar na sala de jantar.
   Deu um passo  frente e ofereceu o brao a Kate. Com uma gargalhada com a qual pareceu reviver a jovem que tinha sido h tantos anos atrs, Kate agarrou-se ao 
seu brao e assentiu.
   - Pensas em tudo, Sterling.
   - Tenho que o fazer - respondeu ele. - Tenho que estar sempre um passo  tua frente.
   Kate apertou os lbios para esconder um sorriso.
   - No querers dizer um passo atrs?
   - Sinto muito, mas temo que vocs vo os dois ao mesmo passo - disse Kristina, que ia precisamente atrs deles. 
   
   FIM
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